“Nunca pensei” (06/10/2011)

Um dia o espelho vence
Revoga a ideia de si
Um olhar sem parcialidade
Que nos julga comuns
A construção só de ideais
Não sobrevive a realidade
As diferenças nos desprevinem
A distância, mera ilusão
Somos todos nossos nuncas
Os mesmos erros dos nossos pais
A face do nosso inimigo
Um dia reflete em nós
É chocante nos ver réus
Vítimas da própria consciência
Não precipite acusações
Ninguém é inocente
Desmoronada nossa imagem
Revela-se apenas o humano
A parte que ninguém imaginava

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Solidão Paulistana” (08/09/2011)

Como a raiz vence o concreto?
As ruas são frias
As almas são vacantes
Os olhares distantes
As verdades obscuras
Os passos escusos
E a palavra um abismo

Tudo por aqui passa
A multidão é vazio
Os abraços casuais
Um céu sem estrelas
Um chão sem sonhos
Inúmeras luzes acesas
Mas nenhum convite para entrar

Somos apenas cicatrizes do asfalto
Rachaduras que ainda respiram
Edifícios de corações
Poluição de sentimentos
Trânsito de silêncios
Becos de esperança
Que o corpo não seja vão

É desta terra inóspita
Onde a rosa crava o espinho
Desabrocha sua vida
Cria raízes na cidade
Acredita no seu lado bom
Nesta solidão…
Encontra companhia.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

Post Especial Final

Caros leitores, este é o último post especial em virtude do lançamento do meu livro “Poeta da Colina – Um Romântico no Século XXI” . Publiquei aqui alguns poemas do livro que lerei em Sarau no próximo dia 22/09.

Quero agradecer a paciência desta overdose de divulgação, e entender este momento importante dentro da minha proposta como escritor. Mais do que poder assinar os livros, mais que poder recitar os poemas, o importante é este carinho e visitações que vocês sempre me concedem, com ou sem livros. Muito Obrigado, espero sempre poder contar com esta companhia.

Abaixo então segue um último poema que recitarei no evento. Quem ainda pretende ir, sugiro que compre o livro até quarta-feira para dar tempo de chegar com folga em sua casa. Lembrando das 18h30 às 20h, dia 22/09, no Sebo Praia dos Livros, Avenida Bernardino de Campos, 331.

O link do livro está aqui na barra lateral.

Obrigado mais uma vez.

“Livrai-me” (05/10/2007)

Preciso agora ocupar-te
Serão palavras breves
Algum tipo de adeus
Não sinta-se traído
Pelas promessas antes feitas
Elas criaram uma casa de vidraça
Um lugar sem movimento
Onde não cabe nem um grito
Entenda-me, por favor!
Preciso gritar mais alto
Preciso quebrar as janelas
Percorrer os caminhos da solidão
Chegar na realidade do olhar
Abafar os pensamentos
Perdoa-me então papel
Ficarei bem mais em paz
Fala que ouve-me bem
Que sabes o porquê
Divida comigo essas lástimas
Essas injustas palavras
Contigo já dividi tantos amores
Deixa-me agora este espaço
Dê-me toda essa distância
Preciso de tua eternidade poética
Pra poder esquecer-me no momento
Queria ausências sentidas
Mas desta vez só desapareço-me
Cansei do ódio, da ignorância
Ou da pior plena consciência
A verdade domina-me
De maneira desesperadora
É real, simplesmente real
Não cabem desejos nem sonhos
São apenas poucas palavras
Elas precisam ganhar corpo
Um relapso de coragem
Resta-me então só você
Sei que encontrarei tudo por aqui
Em alguma linha você me guarda
Em um verso sincero qualquer
Entrelinha, entrelaçado, permeado
Memória, concreto e ilusão
Efêmero, eterno, igual
Entranhas, âmagos e afins
Tudo aquilo que te faz fim!
Tudo aquilo que te faz começo!

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Uma ideia” (01/08/2011)

 

Talvez ser feliz não seja tão complicado assim. Não podemos ser todos os sonhos, mas quem disse que um já não será suficiente? É provável que tudo se resuma as escolhas do dia a dia. Sorrir, abrir a janela, olhar o horizonte, fechar os olhos, respirar a vida, sentir o suave do Sol ou o cheiro da chuva, abrir os braços, acreditar, firmar os passos, realizar-se, libertar, ficar em paz, encontrar saídas, fidelizar-se à emoção, suspirar, caminhar, sonhar, enxergar a vida sempre como possível.
Ser feliz pode ser bem fácil quando não ficamos a esperar que um outro nos faça.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Existência” (03/07/2011)

Não sei quando cheguei
Muito menos se escolhi
A lembrança é um fragmento
A infância uma escuridão
A consciência começou tarde
Ainda não sei quem sou
Como humano uma máquina
Como razão uma essência
Para onde ir?
O viver não é coerente
As ações são aleatórias
Não há respostas
Apenas uma única perspectiva
Mutante, amarga e esperançosa
Preciso agir enquanto não volto
O que me trouxe me levará
Não saberei como
Nem fará diferença
O ser é somente um agora
Todos viremos a dexistir

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Seremos fim” (18/07/2011)

Eternamente. O que não morre? O que não passa? O que não se desfaz? O que permanece? Por que devo acreditar naquilo que não sou? Querem fazer de cada ato nosso um martírio, como se tudo fosse para sempre e o caminho imutável. Não quero olhar para vida com todo esse peso de tudo que já fiz. Mudei tanto, acreditei em outros sonhos. É fato que nossas decisões por vezes ferem, que jamais serão sem conseqüências, mas nunca me propus a ser perfeito e deixarei muitas coisas ainda pelo caminho. Só não me venha com cobranças, disse e fiz tudo da melhor maneira que conhecia. Fui sincero e isso pode ser muito complicado. Doei-me até não poder mais. Agora me chegam consciências me acusando de ser eternamente responsável pelo sentimento que abri mão. É soberba pensar que temos algum controle sobre o sentir alheio, ou mesmo imaginar que seremos inesquecíveis a tal ponto. Somos responsáveis pelo que sentimos e nos amedronta tanto isso que mantemos situações por comodidade, por culpa. Por acreditar ser eternamente responsável pelo próximo abdicamos nossa felicidade e tiramos também a do outro. Quem ganha nessa eternidade?
Somos finitos como tudo que nasce de nós.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Consciente” (17/07/2011)

Ainda não sei o que aconteceu. As palavras nunca foram tão leves, o desapego tão real. Mesmo falando de meu âmago não parecia machucar. Senti perturbar a outra consciência, desestabilizar uma emoção, mas vejo que nem me importei. Falei as palavras contidas no peito, não procurei eufemismos e vi na verdade o único caminho. Pela primeira vez estive resolvido e absoluto. Parece que amadurecer tem suas vantagens. Jamais desistirei das paixões, mas que não me cobrem também. A certeza do que não será também abre horizontes. Desprovido de tudo aquilo que não havia dito o passo já é mais certo, o talvez não desvia a direção. Um sorriso volta a clamar independência. Não abandonei a palavra. O você mudou.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Rotação” (17/07/2011)

Quando voltar aqui
Não fará diferença
Tudo que nos leva
Jamais há de retornar
O mundo é feito de nuances
Nem sempre visíveis
Mas nada escapa do sentimento
Cada vez que se olha para alma
O reflexo se transforma
A palavra que dói
Também perde significado

Se um dia voltar
Não será pelo passado
Não seremos os mesmos
Queira algo novo
Pois tudo que fui
Abdiquei junto de ti

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Estudo sobre a Alma” (16/06/2011)

O que nos faz diferentes? Aparências enganam, e a imagem é produto alheio. Um olhar de lamento ainda pode amar. O que nos leva ao âmago. Trilha final de cada simples ação. Acreditava que bastava um sentir para nos separar de todo resto. Todo mundo magoa, todo mundo sofre, a dor é inevitável como tudo que se propõe a promessa de sentir. Há lugares aonde não vamos, mas não quer dizer que não se alcance. Iludi-me com princípios, adotei os mais nobres, tratei-os como filhos, bastava almejar o melhor. Todo mundo é vil, todo mundo mente, a mudança é inerente a qualquer pessoa que propõe a caminhar. Só por que a bússola aponta para o norte, não quer dizer que permanecemos na mesma direção. Sobrou-me o sonho. A idealização trabalhada nos detalhes. Cada sorriso, cada abraço, cada palavra a orquestrar um plano, a simular uma felicidade. Todo mundo acorda, todo amor acaba, o fim só existe a partir do começo. Não é porque conseguimos imaginar que resistiremos à realidade.

Nada te salvará de ser, humano.

Ass: Danilo Mendonça Martinho