Fato Cotidiano – “Nunca vi”

Disseram na minha cara e as palavras me fizeram morada. Minha alma como em um ataque a um corpo estranho se afastou daquela, que há muito tempo, já é a minha verdade. Ali na minha frente entre pares o ontem parecia uma eternidade, esquecera as feições, os gestos? Nunca fui bom em disfarces e naquele momento era evidente que já não era nenhum segredo que a alegria me deixara. Antes me descobrissem apaixonado, antes fosse uma vergonha do que este gosto amargo. Preocupa-me a amargura tomar conta e não saber voltar. Quando foi que me calei? Quando foi que o abraço ficou longe? Quando a indiferença passou a fazer mais sentido? E talvez a questão mais importante, eu que não sou ou deixei tirarem de mim?

É triste se perceber menor, mas é fundamental se perceber qualquer coisa. A consciência é a primeiro passo na mudança e a vida é um caminho que exige adaptações diárias, difíceis. Não se iluda pelos seus olhos, nunca acordamos no mesmo lugar. Algumas vezes nenhum espelho é capaz de dizer o que um estranho enxerga de primeira. Lutei contra a realidade, sim me falta a paz e liberdade, mas quando me disseram nunca terem me visto sorrir…..bom, pensei, nunca é tempo demais para um sorriso.

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Na química do nosso corpo, como calcular a alma? O corpo dorme, mas e o peso que ainda sentimos, e a vontade de se esquecer mais um pouco, o desejo de não precisar fazer nada, a liberdade de deixar tudo para amanhã? Isso está tão enraizado que não fazemos ideia de como mudar. É pano de fundo de cada fala, cada ação, cada sentimento. Parece que nossa razão escapa para um universo de fantasia. Vidas inteiras de sucesso, aventuras, alegrias. É difícil não se deixar levar. Mas por mais liberdade que se sinta, por mais alto que seja o voo, ainda fica um nó na garganta. O tempo não perdoa e parece que o sonho fica cada vez mais longe. O que mais dói no final do dia é esta beirado do possível, pois na verdade tudo que imaginamos é realizável, desde que não fique para depois.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

 

Martírio



Martírio” (30/07/2018)
Pegou a faca
Provavelmente a última
Esquentou o pão
Provavelmente amanhecido
Tomou o chá
Provavelmente sem açúcar
Vestiu o paletó
Provavelmente com o bolso furado
Saiu de casa
Provavelmente sem guarda-chuva
Chegou no trabalho
Provavelmente atrasado
Cumpriu o expediente
Provavelmente sem vontade
Parou no bar
Provavelmente sozinho
Voltou caminhando
Provavelmente no frio
Tomou banho
Provavelmente chorando
Assistiu TV
Provavelmente sem sorrir
Deitou-se
Provavelmente sem sono
Pensou no seu dia
Provavelmente….irá repeti-lo


Ass: Danilo Mendonça Martinho

Sobre o Cansaço

Quantas vezes respiramos mais fundo e pareceu que seria mais fácil, em um suspiro, simplesmente esquecer? E quantas vezes realmente deixou de apenas parecer? O cansaço eventualmente toma conta, mas desistir não é alívio.
Sonho de vagabundo” (14/05/2018)
Poderia ser mais fácil
E nem digo ser feliz
Passar o dia a esmo
Vontade e nenhum dever
Férias eternas
E nem digo viajar
Um canto de sofá
Uma maratona na tv
Um colo, um amor
Sem esforço, sem migalhas
Somente uma paz
E um silêncio ao pôr do sol
Não ter o que fazer
Sem lugar para me arrastar
Sem esperança de mudar
Ser pleno uma vez


Ass: Danilo Mendonça Martinho

Sobre o fim da linha

Peça ajuda, peça companhia, peça força, peça um abraço. Faça o que for preciso, admita humildemente sua dor. Mas jamais em nenhum momento acredite que acabou, há sempre para onde, há sempre um porquê.
 
Clemência” (08/05/2018)
 
Eu preciso de um alento, um colo, um choro
Qualquer coisa que me leve o embargo do sonho
Que me tire da ideia o presente
Que me dê uma chance na felicidade idealizada
Não peço perfeição, peço urgência
Pois temo que seja tardia a atitude
Temo que não seja sadia a solução
Ajuda-me com uma migalha de certeza
Um raio se sol ou uma gota de chuva
Quebre meu próprio feitiço
Dessa crença que não há saída
 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

Sobre o Dever

Acho que todos nós em algum momento da vida olhamos em volta e percebemos que a maior parte das nossas atitudes, a maior parte do nosso tempo, nossos pensamentos e ações, estão todas dedicadas para as coisas que precisamos fazer. Quando tudo vira obrigação a tendência é que aos poucos vamos perdendo o gosto, esmaecendo na paisagem, diluídos na rotina. Mas a vida também é a arte de se reinventar sempre. Ela não precisa muito, são atitudes simples. Variar o caminho até o trabalho, abrir todas as janelas de manhã, ver o que pode encaixar no seu dia a dia para se sentir em paz, se sentir melhor. Olhar para o que faz e ver que está dentro de um todo, enxergar que o agora é pedaço de uma felicidade em construção. Sempre teremos que encarar deveres, mas é completamente diferente quando o fazemos com propósito. Inspire-se!

 

“Burocracias” (07/05/2018) 

Hoje o tempo me alcançou
Tomou as pernas
Pesou nas costas
E acabou no coração

Esse suspiro que não me deixa
Essa hora que não dá trégua
Esse tanto que fica para amanhã
Traduzem o gosto do fracasso

Vontade de fechar os olhos
Mas descansar o corpo
Nem sempre cura a alma
Ela precisa se libertar

Da mesma forma que acaba
O tempo é infinito
Me mata nessa espera
Me exausta nessa luta

Não posso ser apenas esperança
Tenho que ser algo que faça
E mesmo que o tempo me engula
Vai sobrar alguma felicidade

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Jeitinho” (06/03/2018)

A gente se perde no todo
Nossos valores, princípios
Aceitamos menos
Distorcemos limites
Pesamos a consciência do outro
Mas libertamos a nossa
Com uma tranquilidade assustadora
Somos indivíduos exemplares
Somos comuns no coletivo
Apenas mais um filho de Deus
Que também falha e peca
Diluímos assim nossa responsabilidade
Na multidão a vergonha não tem cara
Bem-vindo à sociedade de aparências
Defensora da honra, moral e justiça
Só não esqueça de pagar na saída
Aproveita que estão pelo mesmo preço

Ass: Danilo Mendonça Martinho