Procrastinação_02

Na química do nosso corpo, como calcular a alma? O corpo dorme, mas e o peso que ainda sentimos, e a vontade de se esquecer mais um pouco, o desejo de não precisar fazer nada, a liberdade de deixar tudo para amanhã? Isso está tão enraizado que não fazemos ideia de como mudar. É pano de fundo de cada fala, cada ação, cada sentimento. Parece que nossa razão escapa para um universo de fantasia. Vidas inteiras de sucesso, aventuras, alegrias. É difícil não se deixar levar. Mas por mais liberdade que se sinta, por mais alto que seja o voo, ainda fica um nó na garganta. O tempo não perdoa e parece que o sonho fica cada vez mais longe. O que mais dói no final do dia é esta beirado do possível, pois na verdade tudo que imaginamos é realizável, desde que não fique para depois.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

 

Martírio



Martírio” (30/07/2018)
Pegou a faca
Provavelmente a última
Esquentou o pão
Provavelmente amanhecido
Tomou o chá
Provavelmente sem açúcar
Vestiu o paletó
Provavelmente com o bolso furado
Saiu de casa
Provavelmente sem guarda-chuva
Chegou no trabalho
Provavelmente atrasado
Cumpriu o expediente
Provavelmente sem vontade
Parou no bar
Provavelmente sozinho
Voltou caminhando
Provavelmente no frio
Tomou banho
Provavelmente chorando
Assistiu TV
Provavelmente sem sorrir
Deitou-se
Provavelmente sem sono
Pensou no seu dia
Provavelmente….irá repeti-lo


Ass: Danilo Mendonça Martinho

Sobre o Cansaço

Quantas vezes respiramos mais fundo e pareceu que seria mais fácil, em um suspiro, simplesmente esquecer? E quantas vezes realmente deixou de apenas parecer? O cansaço eventualmente toma conta, mas desistir não é alívio.
Sonho de vagabundo” (14/05/2018)
Poderia ser mais fácil
E nem digo ser feliz
Passar o dia a esmo
Vontade e nenhum dever
Férias eternas
E nem digo viajar
Um canto de sofá
Uma maratona na tv
Um colo, um amor
Sem esforço, sem migalhas
Somente uma paz
E um silêncio ao pôr do sol
Não ter o que fazer
Sem lugar para me arrastar
Sem esperança de mudar
Ser pleno uma vez


Ass: Danilo Mendonça Martinho

Sobre o fim da linha

Peça ajuda, peça companhia, peça força, peça um abraço. Faça o que for preciso, admita humildemente sua dor. Mas jamais em nenhum momento acredite que acabou, há sempre para onde, há sempre um porquê.
 
Clemência” (08/05/2018)
 
Eu preciso de um alento, um colo, um choro
Qualquer coisa que me leve o embargo do sonho
Que me tire da ideia o presente
Que me dê uma chance na felicidade idealizada
Não peço perfeição, peço urgência
Pois temo que seja tardia a atitude
Temo que não seja sadia a solução
Ajuda-me com uma migalha de certeza
Um raio se sol ou uma gota de chuva
Quebre meu próprio feitiço
Dessa crença que não há saída
 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

Sobre o Dever

Acho que todos nós em algum momento da vida olhamos em volta e percebemos que a maior parte das nossas atitudes, a maior parte do nosso tempo, nossos pensamentos e ações, estão todas dedicadas para as coisas que precisamos fazer. Quando tudo vira obrigação a tendência é que aos poucos vamos perdendo o gosto, esmaecendo na paisagem, diluídos na rotina. Mas a vida também é a arte de se reinventar sempre. Ela não precisa muito, são atitudes simples. Variar o caminho até o trabalho, abrir todas as janelas de manhã, ver o que pode encaixar no seu dia a dia para se sentir em paz, se sentir melhor. Olhar para o que faz e ver que está dentro de um todo, enxergar que o agora é pedaço de uma felicidade em construção. Sempre teremos que encarar deveres, mas é completamente diferente quando o fazemos com propósito. Inspire-se!

 

“Burocracias” (07/05/2018) 

Hoje o tempo me alcançou
Tomou as pernas
Pesou nas costas
E acabou no coração

Esse suspiro que não me deixa
Essa hora que não dá trégua
Esse tanto que fica para amanhã
Traduzem o gosto do fracasso

Vontade de fechar os olhos
Mas descansar o corpo
Nem sempre cura a alma
Ela precisa se libertar

Da mesma forma que acaba
O tempo é infinito
Me mata nessa espera
Me exausta nessa luta

Não posso ser apenas esperança
Tenho que ser algo que faça
E mesmo que o tempo me engula
Vai sobrar alguma felicidade

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Jeitinho” (06/03/2018)

A gente se perde no todo
Nossos valores, princípios
Aceitamos menos
Distorcemos limites
Pesamos a consciência do outro
Mas libertamos a nossa
Com uma tranquilidade assustadora
Somos indivíduos exemplares
Somos comuns no coletivo
Apenas mais um filho de Deus
Que também falha e peca
Diluímos assim nossa responsabilidade
Na multidão a vergonha não tem cara
Bem-vindo à sociedade de aparências
Defensora da honra, moral e justiça
Só não esqueça de pagar na saída
Aproveita que estão pelo mesmo preço

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Crônicas de um diário inconstante – A paixão”

A paixão é uma força avassaladora. Algumas vezes foge do limite do ponderável, do possível e até mesmo do aceitável. Mas ainda sim é uma força que precisa ser respeitada. Ela toma o melhor de nossas atitudes, ela nos leva a ignorar os outros, os conselhos, as verdades. É preciso compreensão aos apaixonados, é apenas impulso, apenas a natureza agindo, é preciso paciência. Veja por exemplo essas milhares de pessoas que encontramos no transporte público todos os dias, tão dedicadas, fiéis, e comprometidas. Sem medo de demonstrar seus sentimentos, sem pudor nenhum, sem mesmo a percepção da proporção que sua paixão toma. Entram nos trens e ônibus e sem titubear agarram-se ao suporte. A paixão funciona assim como um imã. De frente, de lado, costas com costas, o envolvem, as vezes até mesmo retiram outras pessoas e tomam todo para si. Aqueles que estavam ali querendo se segurar, querendo algum amparo depois de um dia de trabalho precisam enxergar e buscar no coração a solidariedade com essas pobres almas que não controlam suas atitudes e precisam se atracar com os canos suportes. Ocupam o lugar onde caberiam quatro, cinco talvez, mas o que é o espaço no transporte comparado com a importância dessa paixão. Poderiam ser menos possessivos, dar lugar, mas muito de nós não aceitaríamos ninguém nem perto do nosso amor. Por isso muitas vezes o abraçam que parecem que vão arrancar de tanta força, pele com metal em uma simbiose única. Um conto de fadas do mundo urbano moderno, ah…as pessoas e os suportes, que coisa mais linda. Eu nunca tinha reparado de perto as nuances desse sentimento até alguns dias atrás quando distraído dentro do meu próprio mundinho tive a fútil preocupação de dar sinal para descer do ônibus, erros de alguém ainda muito inexperiente nessa vida, e o casal que estava contra o suporte (sim os suportes algumas vezes têm uma relação a três, e muitas vezes um relacionamento aberto) me fuzilaram com o olhar e eu senti todo poder dessa paixão, como pude me intrometer em um momento tão sagrado, prejudicando a união de almas gêmeas. Por isso peço paciência com essas pessoas, paixões precisam queimar até o fim. Agora devo confessar que fico com dó dos suportes, sempre a mercê, sempre presos nessa união e agora com a tecnologia colocando em risco suas relações. É verdade, podem reparar. Seus amantes lhe entrelaçam a perna, contornam com o braço, mas lhe desviam o olhar e os dedos incessantes teclam no celular. Nem mesmo os suportes estão livres das mazelas das redes sociais.

Ass: Danilo Mendonça Martinho