“Sobre novos anos” 30/12/2019

Não é sobre esquecer o passado, tentar transformá-lo, brigar, deixar para trás. É sobre deixar cada coisa eu seu lugar. O passado tem o espaço dele, ele fala, ele ensina, ele mostra, só não muda. Temos que aceitar quem ele é, e não carregá-lo para onde não pertence. O passado é poderoso. Ele guarda tudo que nos tornamos, todas as coisas boas, as conquistas, o sorriso. Ele também guarda as coisas que aprendemos que não queremos ser, aquilo que queremos melhorar em nós. É um eterno guia, um manual em construção do que a vida nos ensina. Mas como qualquer livro ou palavra de poeta, ele só instiga e mais nada pode fazer. Agir sempre estará neste agora, nas nossas mãos. Cada coisa em seu lugar. O passado está conosco, o futuro é um norte, e o presente é hoje….e hoje….é sempre ano novo.

“Às avessas com o tempo” (06/05/2019)

Ô tempinho que não serve pra nada
Tá sempre em falta
Tem pressa sem ter motivo
Isso quando não parece que nunca vai chegar

Eita tempinho que não leva a lugar algum
Já foi promessa e profecia
Já te viraram de ponta cabeça
E onde você nos deixou?

Ah tempo, vontade de quebrar tua cara
Insiste nesse desencontro
Faz gracinha com esperanças
Depois passa como se nada tivesse acontecido

Tempo você me cansa!
De todas voltas que você já deu
Nunca um amanhã demorou tanto
Nunca vi vida nesse breu

 

Fato Cotidiano – “Nunca vi”

Disseram na minha cara e as palavras me fizeram morada. Minha alma como em um ataque a um corpo estranho se afastou daquela, que há muito tempo, já é a minha verdade. Ali na minha frente entre pares o ontem parecia uma eternidade, esquecera as feições, os gestos? Nunca fui bom em disfarces e naquele momento era evidente que já não era nenhum segredo que a alegria me deixara. Antes me descobrissem apaixonado, antes fosse uma vergonha do que este gosto amargo. Preocupa-me a amargura tomar conta e não saber voltar. Quando foi que me calei? Quando foi que o abraço ficou longe? Quando a indiferença passou a fazer mais sentido? E talvez a questão mais importante, eu que não sou ou deixei tirarem de mim?

É triste se perceber menor, mas é fundamental se perceber qualquer coisa. A consciência é a primeiro passo na mudança e a vida é um caminho que exige adaptações diárias, difíceis. Não se iluda pelos seus olhos, nunca acordamos no mesmo lugar. Algumas vezes nenhum espelho é capaz de dizer o que um estranho enxerga de primeira. Lutei contra a realidade, sim me falta a paz e liberdade, mas quando me disseram nunca terem me visto sorrir…..bom, pensei, nunca é tempo demais para um sorriso.

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Na química do nosso corpo, como calcular a alma? O corpo dorme, mas e o peso que ainda sentimos, e a vontade de se esquecer mais um pouco, o desejo de não precisar fazer nada, a liberdade de deixar tudo para amanhã? Isso está tão enraizado que não fazemos ideia de como mudar. É pano de fundo de cada fala, cada ação, cada sentimento. Parece que nossa razão escapa para um universo de fantasia. Vidas inteiras de sucesso, aventuras, alegrias. É difícil não se deixar levar. Mas por mais liberdade que se sinta, por mais alto que seja o voo, ainda fica um nó na garganta. O tempo não perdoa e parece que o sonho fica cada vez mais longe. O que mais dói no final do dia é esta beirado do possível, pois na verdade tudo que imaginamos é realizável, desde que não fique para depois.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

 

Martírio



Martírio” (30/07/2018)
Pegou a faca
Provavelmente a última
Esquentou o pão
Provavelmente amanhecido
Tomou o chá
Provavelmente sem açúcar
Vestiu o paletó
Provavelmente com o bolso furado
Saiu de casa
Provavelmente sem guarda-chuva
Chegou no trabalho
Provavelmente atrasado
Cumpriu o expediente
Provavelmente sem vontade
Parou no bar
Provavelmente sozinho
Voltou caminhando
Provavelmente no frio
Tomou banho
Provavelmente chorando
Assistiu TV
Provavelmente sem sorrir
Deitou-se
Provavelmente sem sono
Pensou no seu dia
Provavelmente….irá repeti-lo


Ass: Danilo Mendonça Martinho

Sobre o Cansaço

Quantas vezes respiramos mais fundo e pareceu que seria mais fácil, em um suspiro, simplesmente esquecer? E quantas vezes realmente deixou de apenas parecer? O cansaço eventualmente toma conta, mas desistir não é alívio.
Sonho de vagabundo” (14/05/2018)
Poderia ser mais fácil
E nem digo ser feliz
Passar o dia a esmo
Vontade e nenhum dever
Férias eternas
E nem digo viajar
Um canto de sofá
Uma maratona na tv
Um colo, um amor
Sem esforço, sem migalhas
Somente uma paz
E um silêncio ao pôr do sol
Não ter o que fazer
Sem lugar para me arrastar
Sem esperança de mudar
Ser pleno uma vez


Ass: Danilo Mendonça Martinho

Sobre o fim da linha

Peça ajuda, peça companhia, peça força, peça um abraço. Faça o que for preciso, admita humildemente sua dor. Mas jamais em nenhum momento acredite que acabou, há sempre para onde, há sempre um porquê.
 
Clemência” (08/05/2018)
 
Eu preciso de um alento, um colo, um choro
Qualquer coisa que me leve o embargo do sonho
Que me tire da ideia o presente
Que me dê uma chance na felicidade idealizada
Não peço perfeição, peço urgência
Pois temo que seja tardia a atitude
Temo que não seja sadia a solução
Ajuda-me com uma migalha de certeza
Um raio se sol ou uma gota de chuva
Quebre meu próprio feitiço
Dessa crença que não há saída
 

Ass: Danilo Mendonça Martinho