“Memórias improváveis”

O passado veio falar do que não fiz
Veio atiçar as possibilidades
Criar novos enredos e destinos
Fez sentir outros sabores

O passado precisa aprender o que lhe cabe
Entender que sua história está contada
Que a chance não faz parte
E este gosto doce é apenas ilusão

Sem dúvida que seria melhor
Pelo que ele mesmo me ensinou
O passado precisa enxergar que se basta
Se ele mudar, quem serei eu?

“Endereço” (07/08/2012)

As paredes são de abraços
As janelas de memórias
Os armários guardam amores
Debaixo do travesseiro escondo desejos
Na cama deita a paz
A felicidade deita ao lado

O meu lar caminha junto
Basta fechar meus olhos
E me aconchego na melhor poltrona
Diante um horizonte improvável
Tudo se torna possível
Quando a vida passa por dentro

Peguei pedaços do caminho
Desenharei um imaginário
Erguido de palavras amigas
Coberto de sonhos
Quem sabe para onde voltar
Pode ir onde quiser

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Clemência” (10/07/2012)

Deitou-se à sombra da palavra
Silenciado pela noite precoce
Um corpo saciado pela vontade
De alma vendida a ilusão

Era fácil confundir as fuças
Como mentiras e verdades
Repetiu-se como mantra a injúria
Terminou como reza a lamentação

Foi o último respiro de esperança
Calado ao pé da macieira
Pecando em troca de vida
O poeta e a rima

Desistiu pela primeira vez
Caia a última máscara
Sem verso para vestir a realidade
Apagou-se também o horizonte

A noite dormirá em paz
Mas para onde irão os desejos?
O mundo acordará em breve
Sem um único suspiro de amor

Durma de olhos abertos
Rasgue seus últimos escritos
Pinte mais um romance
Para que a lembrança nos leve em frente

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Portos e Tempestades” (22/06/2012)

Despencam os raios sobre a vida
Tudo parece tão longe
Nosso passado se mistura na chuva
É sentir sem lembrar
Eu sei o quanto doeu
Só não sei descrever seu lugar

Certas coisas viram paisagem
Presas numa parede inerte
O mundo agora só passa
Desde quando ancoramos nossos pés
Hoje a maré só traz
Aprendeu o caminho de casa

Não voltarei a navegar sozinho
O norte será nosso
Enfrentaremos o futuro revolto
Descobriremos outras felicidades
Abraçaremos o amanhã incerto
Faremos do coração morada da alma
Não voltarei a soltar tua mão

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O segredo da Areia” (04/06/2012)

Sussurrou-se
Como se fosse sagrado
Seguiu-se ao pé do ouvido
O sonho de um poeta

Desenhas-te na areia
Grandes acontecimentos
Postos sobre um soneto
Metricamente dramatizados

A maré tudo levou
Mas a rima ainda ecoava
Repetia a si as palavras
Caminhando para aldeia

Ao despertar os olhos
Era seguido aos milhares
Balbuciavam os mesmos lamentos
Exaltavam as mesmas glórias

Ó poeta do mar
Deixaste teus sonhos na areia
Eis a onda que levou-o
Para que todos pudessem sonhá-lo

O que mais quero eu
Do que uma reza
Se minha felicidade é procissão
Seu lugar é nas ideias

Os versos ficaram sem nome
A verdade sem papel
Uns lembravam de um conto
Outros ainda buscam os sonhos

Sussurrou-se….


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Expirando-se” (14/05/2012)

A carapuça serviu
Como máscara de baile
Acostumou-se com a fantasia
As paixões que ardem
Os contos que acordam
Veste-se esse sorriso barato
Despe da realidade vigente
As verdades e a razão
O lógico e o possível
O só se tornou todo
Como se não pudesse ser mais nada
Abandonou a si no espelho
Saia com a roupa de outro
Abria jornais os quais não lia
Dormia sobre sonhos desconhecidos
Passos sem caminho
Mandava cartas para si
Nunca chegaram
Mudou-se de alma
A existência lhe ficou vacante
A insensatez é humana
Que ao sentir abdica do “eu”
Mesmo fazendo parte do “nós”

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Norte” (25/04/2012)

Somos rascunhos
Traços a procura de continuação
Não há borracha no caminho
Temos que assumir toda imperfeição
Peças aparentemente sem encaixe
Mas desvios são necessários
A vida não se completa em um círculo
Começa em serra sinuosa
Termina em planícies extensas
É tudo uma questão de rumo
Nascemos sem, vivemos com
Sejamos além do horizonte


Ass: Danilo Mendonça Martinho