Mazelas do Sonhador

Por que fui me envolver com esse depois?
Essa eterna promessa
Esse amanhã que cabe tudo
Esse tempo que sempre aceita

Tanto agora na minha frente
Tantos começos possíveis
Podia tocar, podia sentir
Mas preferi imaginar

Pensando no último passo
Adiei todos os outros
Hoje tudo parece inalcançável
Até mesmo para este depois

“Prioridades”

A gente sonha
A gente imagina
E o poeta se perde
Nos véus do horizonte
Criando esperanças
Pintando futuros
Polindo a realidade
…Fuga ou motivação?

O controle da palavra
É um privilégio
Todos queremos certeza
Dar a nossa direção
Vencer, terminar, chegar
Amar, sorrir, abraçar
Arquitetar nossos passos
E seguir até o fim
…ingenuidade ou ilusão?

Os pés no chão
Os olhos no mar
A lágrima no rosto
O peito aberto
O tempo que corre
O abraço eterno
A verdade na língua
O amor no bolso
Na confusão e paradoxos
O que me esqueço…
Nas entrelinhas?

“Memórias improváveis”

O passado veio falar do que não fiz
Veio atiçar as possibilidades
Criar novos enredos e destinos
Fez sentir outros sabores

O passado precisa aprender o que lhe cabe
Entender que sua história está contada
Que a chance não faz parte
E este gosto doce é apenas ilusão

Sem dúvida que seria melhor
Pelo que ele mesmo me ensinou
O passado precisa enxergar que se basta
Se ele mudar, quem serei eu?

“Meu velho gosto favorito”

O humano dentro da gente é muito simples, primitivo, visceral até. Ele reage a tudo, ao menos ao que pode sentir. Toda palavra é palavra, mas algumas são amargas. Todo mundo um dia vai embora, mas temos a certeza de quem não volta. Tudo se resume em algum instinto que te revira o estômago. Pois o que dizer daquele delicioso cheiro de pastel de feira? Estava em um local considerado um dos pontos mais caros da cidade. Tinha praças de alimentação ao meu alcance, tinha planos para um belo “cheese burguer” em uma alameda próxima, mas um pastel de feira me conquistou. Veio acompanhado de uma cana caldalosa, um calor íntimo, um sabor de nostalgia. Como é bom saborear passados, parece que jamais vão inventar algo melhor. Sem dúvida que já não me lembrava a última vez, mas agora nada importava diante um farto recheio de palmito. Até as pontinhas só de massa fazem a diferença e completaram meu humano de formas que não sabia que precisava. O mundo pode ser cheio de novos sabores, mas há os insubstituíveis. Regressei ao meu sorriso mais infantil, aqueles que eram de plena alegria, lembram? Satisfeito, não me incomodo de ser primitivo e ceder a um cheiro, me deixar levar por algum olhar.

“Endereço” (07/08/2012)

As paredes são de abraços
As janelas de memórias
Os armários guardam amores
Debaixo do travesseiro escondo desejos
Na cama deita a paz
A felicidade deita ao lado

O meu lar caminha junto
Basta fechar meus olhos
E me aconchego na melhor poltrona
Diante um horizonte improvável
Tudo se torna possível
Quando a vida passa por dentro

Peguei pedaços do caminho
Desenharei um imaginário
Erguido de palavras amigas
Coberto de sonhos
Quem sabe para onde voltar
Pode ir onde quiser

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Clemência” (10/07/2012)

Deitou-se à sombra da palavra
Silenciado pela noite precoce
Um corpo saciado pela vontade
De alma vendida a ilusão

Era fácil confundir as fuças
Como mentiras e verdades
Repetiu-se como mantra a injúria
Terminou como reza a lamentação

Foi o último respiro de esperança
Calado ao pé da macieira
Pecando em troca de vida
O poeta e a rima

Desistiu pela primeira vez
Caia a última máscara
Sem verso para vestir a realidade
Apagou-se também o horizonte

A noite dormirá em paz
Mas para onde irão os desejos?
O mundo acordará em breve
Sem um único suspiro de amor

Durma de olhos abertos
Rasgue seus últimos escritos
Pinte mais um romance
Para que a lembrança nos leve em frente

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Portos e Tempestades” (22/06/2012)

Despencam os raios sobre a vida
Tudo parece tão longe
Nosso passado se mistura na chuva
É sentir sem lembrar
Eu sei o quanto doeu
Só não sei descrever seu lugar

Certas coisas viram paisagem
Presas numa parede inerte
O mundo agora só passa
Desde quando ancoramos nossos pés
Hoje a maré só traz
Aprendeu o caminho de casa

Não voltarei a navegar sozinho
O norte será nosso
Enfrentaremos o futuro revolto
Descobriremos outras felicidades
Abraçaremos o amanhã incerto
Faremos do coração morada da alma
Não voltarei a soltar tua mão

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O segredo da Areia” (04/06/2012)

Sussurrou-se
Como se fosse sagrado
Seguiu-se ao pé do ouvido
O sonho de um poeta

Desenhas-te na areia
Grandes acontecimentos
Postos sobre um soneto
Metricamente dramatizados

A maré tudo levou
Mas a rima ainda ecoava
Repetia a si as palavras
Caminhando para aldeia

Ao despertar os olhos
Era seguido aos milhares
Balbuciavam os mesmos lamentos
Exaltavam as mesmas glórias

Ó poeta do mar
Deixaste teus sonhos na areia
Eis a onda que levou-o
Para que todos pudessem sonhá-lo

O que mais quero eu
Do que uma reza
Se minha felicidade é procissão
Seu lugar é nas ideias

Os versos ficaram sem nome
A verdade sem papel
Uns lembravam de um conto
Outros ainda buscam os sonhos

Sussurrou-se….


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Expirando-se” (14/05/2012)

A carapuça serviu
Como máscara de baile
Acostumou-se com a fantasia
As paixões que ardem
Os contos que acordam
Veste-se esse sorriso barato
Despe da realidade vigente
As verdades e a razão
O lógico e o possível
O só se tornou todo
Como se não pudesse ser mais nada
Abandonou a si no espelho
Saia com a roupa de outro
Abria jornais os quais não lia
Dormia sobre sonhos desconhecidos
Passos sem caminho
Mandava cartas para si
Nunca chegaram
Mudou-se de alma
A existência lhe ficou vacante
A insensatez é humana
Que ao sentir abdica do “eu”
Mesmo fazendo parte do “nós”

Ass: Danilo Mendonça Martinho