“Devaneio Existencial” (14/05/2019)

A vida é uma jornada. E por mais que a gente tente fincar nossos pés no chão a alma foi feita para voar. Não tem terra, não tem lugar, não tem abraço que impeça. Somos primitivamente livres. Nossa efemeridade é tão real que faz qualquer deslocamento parecer insignificante. Mas é justamente essa a brecha para experimentarmos. Podemos partir, voltar, mudar, fazer, esquecer, amar. Não há consequências cósmicas para nossa vida. Estamos soltos nesse universo com uma passagem só de ida. Se apegar ao tempo é comparar-se ao infinito. Devemos nos aproximar do que tem fim. Todo resto é mutável, do seu emprego ao quadro pendurado na sala. Nada precisa e nem deve permanecer como está. Somos evolução, parte que mesmo sem querer segue em frente. Quanto mais longe olhamos mais imprevisível é o caminho. Reme ao mesmo tempo que aproveita a maré. Não há nada para você aqui, mas há de tudo em todo lugar. Viver é uma ciência a parte e por isso digo para desconsiderar as distâncias, não medir os anos, não calcular a saudade. O rio segue correndo encostando sem ficar e quando dentro dele somos tudo em todo lugar. A vida é uma força que permeia a todos nós, estar é uma breve conclusão que logo se desfaz. Somos, vivemos e levamos para onde quer que for.

 

“Às avessas com o tempo” (06/05/2019)

Ô tempinho que não serve pra nada
Tá sempre em falta
Tem pressa sem ter motivo
Isso quando não parece que nunca vai chegar

Eita tempinho que não leva a lugar algum
Já foi promessa e profecia
Já te viraram de ponta cabeça
E onde você nos deixou?

Ah tempo, vontade de quebrar tua cara
Insiste nesse desencontro
Faz gracinha com esperanças
Depois passa como se nada tivesse acontecido

Tempo você me cansa!
De todas voltas que você já deu
Nunca um amanhã demorou tanto
Nunca vi vida nesse breu

 

Cine_Poesia – EP.01

“Quadro #9”

A solidão entra pela porta, senta na sala, deixa o telefone tocar, assiste seu reflexo na televisão, não abre a cortina, não acende a luz. Deixa a mesa com os adereços e sem o almoço, as almofadas no mesmo lugar. Só o pó acumula, o resto não fica. Não tem cheiro de tempero na cozinha, o fogão está fechado, a louça na pia, as janelas cerradas, e um sol do meio-dia derretendo a margarina tirada para o café. O suco na geladeira está do jeito que foi deixado, e a comida não acabou. Parece que os armários, copos, talheres e pratos se multiplicaram, tudo sobra. Não há roupas estendidas no varal, aliás o quintal está com uma cara de abandonado e sem vida. O mofo das paredes, o velho fio de náilon, tem tons de passado. Só há um sapato para fora, não existe bagunça particular. O solitário quarto com a cama de casal e a colcha esticada está de porta fechada, como se o vazio pudesse diminuir quando dividido. A escova, as toalhas, até mesmo o lixo permanece intacto. Não há para quem fazer pedidos, perguntar onde estão as coisas. Nessa ausência muito está perdido, lugares comuns, mas que apenas o outro poderia dizer onde é. Os passos no corredor são meus próprios, os barulhos em outros cômodos é a casa rangendo-se como sempre fez, mas nunca se repara. Nenhum outro chuveiro liga na hora que se quer tomar banho, nem te assustam no quarto quando faz seus exercícios. A solidão nem mesmo reclama. A cama está desarrumada, o chão precisando de um aspirador, os blusões se sobrepõem no mancebo e a janela do banheiro está fechada deixando o vapor d’água agredir as paredes. Tudo que faz falta a noite piora. Onde não tinha ninguém agora tem uma escuridão suspeita que nos faz entrar repetidamente no mesmo quarto, só para ter certeza que o espaço permanece inerte. Fica-se reduzido ao menor lugar possível da casa, onde tudo está ao alcance dos olhos, sob um controle questionável, mas crível o suficiente para se criar uma paz. Desliga-se a luz, corre para debaixo do edredom e a solidão que já tomou o lar para si traz suas maiores dores: não há beijo de boa noite, nem abraço de bom dia.

É assim que sei que não está.

“Incoerente Verdade”(02/05/2019)

Eu agradeço as palavras
O olhar glorioso do passado
A admiração necessária do caminho
Bons amigos não nego
Então perdoem a falta de bom senso
Das lágrimas que enchem o peito
Da vontade enterrada no sofá
Não é por prazer
Que me visto de dor
Preciso aprender a saída
Respirar aqui debaixo
Descobrir propósito
Amenidades não ajudarão
Sonhos serão ilusão
O tempo vai se calar

É onde devo encontrar sentido

 

Mente, corpo e espírito – “Sobre a indiferença”

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Sempre pensei que a indiferença afastava de nós aquilo que não merecia atenção, tirava da nossa cabeça quem só nos fazia mal, trazia paz a uma alma perturbada pelo seu redor. Só que há um detalhe sobre sentimentos, eles não existem em um campo imaginário, eles não são produzidos em laboratório, nem podem ser guardados com segurança no freezer; O sentir ocorre dentro de nós. Quando sentimos rancor o maior problema é que no fim somos nós que temos que carregá-lo, da mesma forma acontece com a indiferença. Por mais que a proposta seja fazer de algo teu passado, algo para ser esquecido, é você que tem que lidar com essa indiferença, você que tem que aplicar ela, algumas vezes diariamente. O esforço, a memória, a verdade….é tudo seu. O outro talvez nem se afete, nem perceba, talvez passe distante e ignorante de todo seu plano. O que talvez te incomode mais ainda.

Eu tenho uma outra proposta para lidar com seus desafetos, com tudo nesta vida que você quer deixar para trás. Se chama paz. Odiamos, cansamos; temos asco, dor; queremos fugir, queremos destruir, e tantas outras coisas que nos ancoram aquilo que já não faz mais sentido para nossa vida. Algumas vezes parece que existe tanto a dizer, queremos que saibam nos mínimos detalhes como nos sentimos, o que fizeram com o nosso coração, com os nossos sonhos. Queremos gritar até que alguém note a sua perversidade. No fim é só um grande desabafo no vazio. Olhe nos olhos, encare o que sente, encontre em si a força necessária para abrir mão, para entender o outro, para aceitar o que a vida lhe trouxe, fazer as pazes com o que simplesmente não pode dar certo. Não adianta ignorar ou se deixar consumir pelos seus conflitos, é preciso olhar de fora, compreender o problema em sua raiz e então seguir. Paz, é o que sua alma precisa para ser livre.