“Tudo a seu tempo” (14/03/2019)

 

Nunca pensei que uma frase que usava quando criança, algumas vezes de brincadeira, outras como justificativa para apaziguar minha mãe diante uma tarefa não cumprida, poderia ser tão fundamental na minha vida aos 30. Até mesmo nas aulas de violão sigo acelerando o ritmo, saindo do compasso. Sinais de uma pressa pela qual o sonho não se interessa e continua a se esquivar. Paciência, palavra que demora até para escrever, que arrasta pela folha, que já dá formigamento nos pés, mas que principalmente tira o peso, diz que está tudo bem para aqueles que querem escutar. Como é difícil passar o dia sem a sensação do ócio, de horas perdidas, de falhar. Como é difícil notar que nossas expectativas, são só nossas, e não há ninguém esperando, cobrando, querendo mais. Que vários minutos no sofá, que o almoço que acabamos pedindo fora, que a poesia que ficou incompleta, não são de forma alguma o fim do mundo. A vida em sua divisão mais simples que podemos chegar foi feita para respirar. Então o faça, pegue o máximo e ar que puder e…………………solte. Sinta, sem pressa, teu corpo, teus pés no chão, as batidas do seu coração. Sinta a vida fluindo por você e ao seu redor, ouça a natureza, mesmo você que mora na cidade. Aproveite esse momento sublime para se distanciar até mesmo dos teus sonhos. Viver é livre. Abrace, envolva, seja. Quando voltar a abrir os olhos lembre de levar essa cadência. Deixe o tempo ser, e se preocupe em ser você.

 

“A não-explicação”

Eu não saberia te dizer como. Poucas pessoas saberiam. Mas tudo pode ser melhor. Você não vai mudar de emprego, ganhar na loteria, conhecer a mulher dos seus sonhos, e mesmo assim vai se sentir bem. Você estará cansado, distante das suas conquistas, perto de desistir, sobrevivendo a cada suspiro. Ainda assim vai dormir em paz. O desespero de querer, o desejo que não sai da cabeça, a obsessão por uma saída; Tudo diluído pelos dias, sem relevância, sem te atrapalhar. Antes que você confunda com fé vou te dizer que é confiança. A diferença é simples, na confiança você acredita no seu coração, na sua atitude, nos seus sonhos, nos seus valores; E você sabe que independente de resultados, ficará em paz e eventualmente chegará nos seus objetivos. É incoerente, é paradoxal, é improvavelmente possível. Seja, siga, confie!

 

“Contornando” (18/11/2018)

A vida é cheia de limites
Não é mesmo
Os sentimentos no caso
São os contornos da alma
Eu também queria aprender a fugir
Do que se carrega no olhar
Mas no fim só me resta confessar
A esperança não é minha
Essa é a mais nova fronteira
O ímpeto, a coragem, a felicidade
São visitantes que se esgotam
O cansaço que se projeta no corpo
Não se compara com o que esconde a face
Neste oceano que é viver
Ninguém escapa das tempestades
Trancado aqui dentro
O sonho esmaece em um suspiro
A alegria não equilibra o peso
O tempo escorre como se fosse findar
Por que não jogar as âncoras?
Por que não se entregar ao mar?
Mas quem superou os limites
Quem continuou mesmo avisado
Quem amou mesmo sem carinho
Que fez pela primeira vez
Descobriu na insistência
Temos que ser mesmo depois da esperança

Ass: Danilo Mendonça Martinho


“Desatado” (17/11/2018)

Quero ser leve, como a gota de chuva que nunca chega ao chão. Desfeito em milhares de prismas, construir o arco-íris, abrir mão do sonho, das esperanças e das expectativas. Um vôo pleno, sem me preocupar com depois. Diluído na tempestade, mas único no propósito. Uma vez ser todo, respirar sem passado na garganta, sem lágrima embargada, viver como se fosse acabar. Quero a paz e silêncio deste céu, sorrir….e em um relâmpago esquecer. Só quero sentir a inocência de abraçar a vida sem receios, uma essência no ar, uma verdade sem desvios. Quero mais que o fim, quero a intensidade desta queda e, se ela é livre, por que qualquer outra coisa não seria. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho


“Será?” (05/10/2018)

Talvez seja isso
Uma cordialidade de fachada
Uma imagem pro vizinho
Uma risada para o chefe
Um carnaval de máscaras
Construímos aparências
Sem construir caráter
Talvez seja isso
Nos movemos pelo ódio
Gostamos de dar rasteira
Do gosto do sangue do inimigo
A sociedade do desprezo ao próximo
O que pensamos ser bolha digital
É provável que seja retrato fiel
Somos essa força primitiva
Agindo para sobreviver
Temos o privilégio do pensamento
Mas não sabemos combater o instinto
Só justificamos o animal em nós
Então que seja isso
Na cabine encontre teu reflexo
Encontre tua raiva e teu medo
Liberte tua vergonha e silêncio
Seja cru e real
Quem sabe diante nossa verdadeira face
O horror nos faça mudar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Dividido” ( 02/10/2018)

Eu tenho procurado palavras
Algo bem no meio do bom senso
Diferenças são personalidade
Somos comuns no desejo
Mas antes do amor somos contra
Sabemos onde colocar nosso ódio
Só que estamos perdidos com a esperança
Quando não é a paixão que nos move
Quando respondemos violência com opressão
Insegurança com medo
Opinião com censura
Diálogo com ignorância
Respeito com indiferença
O que construiremos sobre o alicerce da raiva?
O que chamaremos de nação?
Desisti dos versos nesse deserto
O meio do caminho
Virou uma completa solidão
Um silêncio ensurdecedor
A única palavra que resta é liberdade
Meu lugar é ao lado dela
E só não me calo
Para não perdê-la também

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Urbana” (31/08/2018)

Um amigo me disse
Que a poesia devia permanecer à margem
Talvez por isso combine com os muros
Nossos limites diários
Nossa ilusão de segurança
Mas a poesia segue nesta margem
Pois ignoramos nossas cercas
Nos cercamos de verdades farpadas
Acreditando estar a salvo da solidão
A poesia na parede fria
Recebe olhares desenganados
Ela encara e não desiste
Não importa o sentido desde que o faça
Ele embarcou para Barra Funda
Muita gente, muito tempo
Muita realidade que vem de dentro
Caem os filtros, caem as máscaras
E na borda da loucura
Quem resiste é o verso
Cru e sem açúcar
Coloca teu pé no chão
Lembra que há vida na próxima estação
Mesmo que seja apenas poesia

Ass: Danilo Mendonça Martinho