Insólito

Tem coisa que não tem jeito. Não sai da garganta, da cabeça, da alma. É preciso tempestade, algo radical para aliviar o peso. Tem muitos dias que lutamos com a maré, mas em alguns é preciso se deixar levar. Abrir mão, se despir, se livrar. Descarregue.

Insólito” (21/07/2018)

Tá precisando chover
Tá precisando lavar a alma
Arrastar sentimento atolado
Desobstruir a garganta
Encharcar as ideias
Quero vendaval para carregar tristeza
Raios para destruir amarras
Granizo para ferir mentiras
Escuridão para esquecer verdades
A terra tá seca de sonhos
O ar pesado de mesquinharias
Os olhos ardem do cansaço
As folhas despedaçam junto da alegria
O suspiro virou tosse amarga
Tá precisando chover
E nem precisa ser poesia
Pode ser abraço no fim de tarde
Carta de amor perdido
Rosquinhas fritas da vovó
Qualquer coisa que dê vida


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Cheiro de chuva no asfalto” (27/04/2018)

Eu conheci quem gostava de cheiro de grama cortada, me falaram que o cheiro de natal era igual lustra-móveis. Sempre admirei essas memórias, pois eu mesmo também abro um sorriso bobo nas simplicidades da vida. Só que na minha sina me apaixonei por cheiro de chuva no asfalto, o que, no consenso, não existe. Na terra, na planta, na pele, mas jamais no asfalto. O concreto não se mistura, não é natural, não adquiri odor. Mesmo assim minhas memórias mais antigas, meus sentimentos mais puros chegam nesta garoa fina que cai neste chão impermeável. Algumas vezes no meio, outras com o queixo encostado no parapeito, foi aqui que senti a essência da minha vida. Chegar onde não se chega. Dar sentido ao invisível. Fazer de todo impossível a chance de ser feliz. 


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Queda Livre” (18/01/2018)

No disfarce da chuva
A voz não poupou ninguém
Entregue ao ódio
Mergulhada na inércia
A razão que se perdia
Era a mesma que justificava
A emoção não esconde a alma
A raiva cega aguçava os sentidos
Acabava ali naquele instante
A mente despedaçada em dúvida

A gota que toca a pele
Escorre a lágrima, penetra na alma
A gota que é prisma
Ilumina o caminho, clareia a escolha
A gota no meio da tempestade
Sem tréguas e nada além da verdade
A gota que chega ao chão sabe
Que é a última vez

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Nuvens Escuras” (20/10/2017)

A tempestade é um bom sinal
Dá um novo sentido ao que temos
A nau bem construída
O guarda-chuva na mochila
A imperfeição que admitimos

Agora que o medo levanta ondas
Que as dúvidas inundaram certezas
Temos âncora, temos raiz, temos abraço
Em nós encontramos abrigo
No amor que dá sentido

Assoviarão muitos ventos
Vai balançar até enjoar
O plano pode vir a falhar
Mas terminaremos como cúmplices
Jamais deixaremos de tentar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Poente” (05/01/2016)

Eu sinto falta do entardecer. Suas cores, seus degrades, por vezes o cheiro que antecede a chuva, por vezes a preguiça do calor. Eu perco tanto meu Deus, e não posso nem dizer que é falta de janelas. Vão me escapando aos poucos as sensibilidades da alma presa na rotina, do sorriso preso no sonho, da esperança escondida no silêncio. São dias que me contorno vazio para atravessar.Mas esses prédios de fundo cinza me completam, esses ônibus que se cruzam como formigas no rejunte do azulejo, os raios que em um milésimo unem céu e terra, e essas milhares de janelinhas miúdas, cada qual com uma vida brilhando, como uma caixinha de jóias esquecida na penteadeira do quarto. Eu sinto falta dessa brisa gelada, deste projeto de nada onde o dever foi cumprido e não temos para onde ir. Faz o tempo soar eterno, não é mesmo? Eu tenho é saudade do que era por não saber o que serei. Tudo me perece meio perdido. O Sol que nasce antes, a noite que chega sem chamar e a razão que se vê sempre espremida entre os ponteiros, cansada, sem entender no que vai dar. Eu sinto falta de espaço para esparramar os sentimentos. Enfrentar os medos e as bobagens. Falar sozinho, debruçar no parapeito. Largar-se na sombra da escuridão que ainda não é. Ver tomar a sala, esconder o rosto. Não precisar explicar porque. Desta alegria besta de olhar para vida e esquecer do jantar. Eu sinto falta de um horizonte.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

14/11/2016

“Acordei debaixo de um véu branco
Sobre a proteção da garoa
Ventos de alguma outra direção
Mudo a vela para evitar contradições
Passa pelo horizonte o mesmo filme
Penso no final do que não teve começo
Acredito neste norte, vivo por este destino
Só receio as mortes nas praias
Por isso remo, desistir é a ilusão de tentar…

…O frio é gentil na medida que permite mais abraços
Mas para aqueles que tem de partir é um lembrete
A vida é andar por curvas onde se perde totalmente do sonho
Por isso na minha língua fé se chama passo
Levam tempo, levam força
Tem realidade de sobra
O homem sem camisa pede no farol
Nos falta a mesma gentileza da natureza
Esgotados adiamos mais uma vez
O solidário, a verdade e até mesmo desistir.”

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Encharcado” (06/06/2016)

A chuva começa
Vem o medo da poça
Do guarda-chuva virar
Entre quem corre e quem desiste
A natureza não faz distinção
Cai em cima para depois perguntar
Disfarcei-me de árvore
Imóvel e braços abertos
Aproximei dela como se fossemos um só
Mas minha parceira estava anoréxica
“Ainda é outono meu caro poeta
E não tem mais folhas para segurar”

Ass: Danilo Mendonça Martinho