“Encharcado” (06/06/2016)

A chuva começa
Vem o medo da poça
Do guarda-chuva virar
Entre quem corre e quem desiste
A natureza não faz distinção
Cai em cima para depois perguntar
Disfarcei-me de árvore
Imóvel e braços abertos
Aproximei dela como se fossemos um só
Mas minha parceira estava anoréxica
“Ainda é outono meu caro poeta
E não tem mais folhas para segurar”

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Veranico n°2” (12/04/2016)

Outono!!!
Sai de baixo do Sol e vem almoçar!
Vem logo menino que passou da hora
Vai pegar insolação
Vai me deixar doente de preocupação

Outono, tá quente demais!!
Daqui a pouco vai precisar chover
Vai acabar com toda tua brincadeira
Vai ficar só você na choradeira
Agora me larga do teu irmão

Ouutooonooo, eu não vou repetir
Ai, se você não entrar neste mundo agora
Eu vou dar pro inverno teus brinquedos
Te tiro do próximo bissexto
E você pode esquecer do jantar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Veranico” (08/04/2016)

Mas que calor!
Ah, mas que outoninho vagabundo!
Mas o que fui dizer
Ele veio me cobrar de manhãzinha
Os amores que já vivemos
As verdades que ele me esconde
Perdão pelo impensado
Mas você vem pregando peças
Vem me ofuscando os olhos
Deixou-me com suor e sem lágrimas
Cadê toda tua melancolia?
O Sol sem força e o céu sem graça?
Quero garoa em tarde eterna
Um vento para usar moletom
Um chocolate quente enterrado no sofá
Uma tristeza leve para equilibrar o dia
Tua data já é longa passada
O que irá me inspirar visita tão curta
Logo agora que preciso da palavra
Cresceu em ti a adolescência
Ser veranico para ficar na moda
Ah, seu outoninho sem vergonha
Não se faça de besta
Que te faço poesia!

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Disfarce” (01/10/2015)

Falo chuva
É onde me sinto livre
Se a alma não cabe ao menos dilui
Lamentamos a procura de salvação
Essa consciência transformou tudo em suspiro
Não tenho coragem de assumir minhas insignificâncias
Por isso peço tempestade
Meus erros cresceram em mim
Eu me diminui diante o mundo
Ou não cresci diante a idade
Apelei para promessas
Mas a mudança pode só depender de mim
Tenho medo de pedir respostas
Então pode ser garoa
Sem pressa e sem vontade
A palavra sempre carrega
Quantas viagens para levar isto daqui?

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Edição de outono” (19/03/2015)

Imprimo-me seco
Na maior variedade de marrons que achei
Estalo a cada passo
Ajeitando minhas entranhas com o vento uivoso
Forro meu chão
Papéis picados e esquecidas cartas de amor
Tiro meu véu
E sobra apenas o azul, da esperança ao desespero
Acalmo a vida
Comigo há de não ter pressa o amanhã
No espelho amarelado
Reflito sobre tudo que leva até aqui
Visto outra estação
Para ver se me sirvo e descubro como seguir

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Simples” (17/03/2015)

Que o dia passe
Mas não me traga esperanças
Apenas me leve
Como folha de outono libertada
Que a vida preencha
Os passos os quais não sei seguir
Me conceda um sinal
Para que o horizonte não seja infinito
Que me tome pela mão
As palavras que não devia abandonar
Nas noites frias
Quero apenas um cobertor sem sonhos
Dormir com o peso do corpo
Deixar a alma ir para onde quiser
Que seja feliz
Acabar com a busca sem propósito
Hoje sou pleno
Amanhã poderei ser tudo
Natural é ser livre
Cair no outono….renascer numa primavera qualquer

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Uma árvore a favor do vento” (19/02/2015)

Mais um Sol que nasce
Qual a certeza de que não somos os mesmos?
A distância até o horizonte é ilusão de ótica
Nossa percepção constrói diversas verdades
Nós só tentamos acertar para onde

Nascem ainda mais dúvidas
Protegemos a esperança de um dia melhor
As certezas se extinguem nos segundos
Já é difícil saber o que se quer
O que dirá prever o que será do entardecer
No fim, vontades, são apenas vontades

Acordo na espera de um sinal
Para poder me agarrar em algum sonho
A realidade nem sempre acompanha alma
A vida precisa de um tempo
Até que o vento mude de direção

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Indiferença Urbana” (12/08/2014)

Garoinha fina que não enche represa
Prédios acinzentados que tem coração
Cidade da multidão vazia
Sinto que chora sem colo que te acolha

É mais frio dentro do que fora
O asfalto cobre mas não esquenta
A cortina branca abre e o Sol é fraco
As pessoas te ignoram

Você vela solitária tuas tragédias
A natureza entende o que o humano falha
E no fundo da madrugada gelada
O corpo tem uma ideia, mas não a alma

Se desfazerá em migalhas de concreto
Enxurradas espalharão os seus lixos
Fumaça entupirá suas veias
Enfartaremos em algum horário de pico

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Bença” (22/04/2014)

No mar de decisões maiores que nós precisamos de algumas garantias. Tentamos por todos os lados descredenciar o sonho e conforme a vida nos fazia seguir em frente o medo se diluia na vontade, no desejo, na estranha incerteza de sentir que estávamos certos. Pelos dias que se seguiram a Chuva caiu sobre estes pensamentos. De forma doce para que desistisse do guarda-chuva. Fazia tempo que não encontrava ela assim. Ao pensar na decisão não tive dúvidas e com um sorriso sussurrei: Bença Chuva.
Não lembro bem quando, mas não muito tempo depois, os questionamentos ainda seguiam dentro de mim, embora mais silenciosos. Entre as árvores surgiu aquele brilho intenso do sol quase que de propósito na minha direção. O mesmo Sol que me acordava na infância quando dormia na sala de minha avó. Até hoje é uma das minhas sensações favoritas acordar assim com esse raio de luz preguiçoso, que mal toca seu rosto. Meu corpo ficou em paz e falei sorrindo: Bença Sol.
Na janela confessionário onde debrucei com melancolias, aflições e filosofias adolescentes eu resolvi voltar. Minhas conversas hoje são mais esporádicas, não menos importantes. Agarrado contra as grades sentindo o vento e o céu azul minha palavra não precisa de pressa. Abro o peito para o universo que me criou e tento descrever o gosto dos sentimentos. Mas acima de tudo agradeço, pelo encontro, pela chance, pela felicidade. Bença Céu.
Pela manhã caminhei entre os eucaliptos sobre o chão de cascalho. Posso muito bem seguir pelo asfalto, mas são raras as chances de respirar este ar misturado de nostalgia. A vida parece mais presente em nós, como se tudo pertencesse. Todos acabaram me visitando para dar certezas e eu retribui. Bença Natureza, bença.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“As primeiras impressões de um outono” (25/03/2014)

Pela manhã o asfalto da rua estava enfeitado de dourado e eu esquecido da natureza achei que estava pintado quando era apenas o Sol. São sinais da nova estação. O dia fica a meia altura e encontramos mais coisas pelo chão. Nada deixa de ser belo, o universo é sábio, e a planta que leva o nome de minha avó insiste em florear-se, assim, fora de época. Determinar como a natureza se comporta é mais uma das criações humanas em busca de controle. Prefiro assim: acordamos sob uma brisa gelada e um céu limpo, no fim da tarde talvez chova. A incerteza faz mais sentido.

Ass: Danilo Mendonça Martinho