“Jeitinho” (06/03/2018)

A gente se perde no todo
Nossos valores, princípios
Aceitamos menos
Distorcemos limites
Pesamos a consciência do outro
Mas libertamos a nossa
Com uma tranquilidade assustadora
Somos indivíduos exemplares
Somos comuns no coletivo
Apenas mais um filho de Deus
Que também falha e peca
Diluímos assim nossa responsabilidade
Na multidão a vergonha não tem cara
Bem-vindo à sociedade de aparências
Defensora da honra, moral e justiça
Só não esqueça de pagar na saída
Aproveita que estão pelo mesmo preço

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Crônicas de um diário inconstante – A paixão”

A paixão é uma força avassaladora. Algumas vezes foge do limite do ponderável, do possível e até mesmo do aceitável. Mas ainda sim é uma força que precisa ser respeitada. Ela toma o melhor de nossas atitudes, ela nos leva a ignorar os outros, os conselhos, as verdades. É preciso compreensão aos apaixonados, é apenas impulso, apenas a natureza agindo, é preciso paciência. Veja por exemplo essas milhares de pessoas que encontramos no transporte público todos os dias, tão dedicadas, fiéis, e comprometidas. Sem medo de demonstrar seus sentimentos, sem pudor nenhum, sem mesmo a percepção da proporção que sua paixão toma. Entram nos trens e ônibus e sem titubear agarram-se ao suporte. A paixão funciona assim como um imã. De frente, de lado, costas com costas, o envolvem, as vezes até mesmo retiram outras pessoas e tomam todo para si. Aqueles que estavam ali querendo se segurar, querendo algum amparo depois de um dia de trabalho precisam enxergar e buscar no coração a solidariedade com essas pobres almas que não controlam suas atitudes e precisam se atracar com os canos suportes. Ocupam o lugar onde caberiam quatro, cinco talvez, mas o que é o espaço no transporte comparado com a importância dessa paixão. Poderiam ser menos possessivos, dar lugar, mas muito de nós não aceitaríamos ninguém nem perto do nosso amor. Por isso muitas vezes o abraçam que parecem que vão arrancar de tanta força, pele com metal em uma simbiose única. Um conto de fadas do mundo urbano moderno, ah…as pessoas e os suportes, que coisa mais linda. Eu nunca tinha reparado de perto as nuances desse sentimento até alguns dias atrás quando distraído dentro do meu próprio mundinho tive a fútil preocupação de dar sinal para descer do ônibus, erros de alguém ainda muito inexperiente nessa vida, e o casal que estava contra o suporte (sim os suportes algumas vezes têm uma relação a três, e muitas vezes um relacionamento aberto) me fuzilaram com o olhar e eu senti todo poder dessa paixão, como pude me intrometer em um momento tão sagrado, prejudicando a união de almas gêmeas. Por isso peço paciência com essas pessoas, paixões precisam queimar até o fim. Agora devo confessar que fico com dó dos suportes, sempre a mercê, sempre presos nessa união e agora com a tecnologia colocando em risco suas relações. É verdade, podem reparar. Seus amantes lhe entrelaçam a perna, contornam com o braço, mas lhe desviam o olhar e os dedos incessantes teclam no celular. Nem mesmo os suportes estão livres das mazelas das redes sociais.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Passageiro” (13/11/2017)

Tempo, para quê me dividir assim?
Nesse pedaço sem sonho
Nessa rotina sem avanço
Repartindo as horas sem sobras
Sempre eu que fico para trás

Tempo, para quê me separar?
Das conquistas e ambições
Me largou no meio sem vida
Longe é perto demais
A solidão desta multidão
Cheia de certezas para minha indecisão

Tempo, você é só castigo?
Louça e conta pra pagar
Trabalho e ônibus lotado
Ou você tá escondendo o depois
Nesse sorriso de olhos fechados

Tempo, passa e fica
Diz que não falta muito
Promete que é para sempre
Me deixa um momento para esquecer
E uma vida para lembrar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Fadiga” (06/07/2018)

Algumas vezes cansa
Dá vontade de não querer
Deixar a correnteza levar
Usar a mente para esquecer
Decidir que tudo tanto faz
Ser comum a ponto de se perder
Largar o corpo no sofá
Se imaginar nos heróis da TV
Deixar a louça para amanhã
Ficar de pijama até feder
Pedir comida para entregar
Dormir quando te lembram o que fazer
Sentir o coração amargurar
Assistir o amor se desfazer
No infinito de um tempo não se preocupar
A liberdade de não reconhecer

Será que inertes o suficiente
Diminuídos e encolhidos
No escuro de um quarto
Escapamos de algo?
Estaremos protegidos de quê?

É que algumas vezes, simplesmente cansa

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Dia de frio” (01/06/2017)

Eu queria voltar para cama e deixar a vida passar bem devagarinho. Não que minha alma não esteja ansiosa para seguir em frente, para que o tempo necessário finalmente passe e as coisas aconteçam. É que os deveres que se acumulam em meus pés não tem muito gosto e realizá-los sem ver o porquê os torna em fardos. É tudo um processo de fé. Daquilo que somos, daquilo que queremos, do que acreditamos. Eu não acho que sonhamos com o impossível. Sonhamos proporcionalmente a força de nossa alma. O que martela na nossa cabeça é esse potencial, as conquistas dentro do nosso alcance. Então talvez se ficar um tempo suficiente debaixo desse cobertor, deixando o frio soprar pela janela e a garoa escorrer sem pressa pelo vidro; Talvez eu possa fechar os olhos bem forte e enxergar como se fosse agora a felicidade que desejo, e talvez sentindo o que ainda não existe, saboreando essa realidade sublime, eu teria a força para não voltar mais para essa cama.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Deserto” (20/04/2017)

Me fogem as palavras certas
Embaça o rosto no espelho
Sonhos se confundem com bobagens
Imagino enquanto não sei se vivo

Olhei para fora, dentro e para cima
Mas tudo continua em silêncio
A espera desequilibra a esperança
A fé fica sem lugar

Por que é tão difícil saber?
É apenas uma única escolha
O que me falta fazer?
Para que a alma siga em frente

Nunca conheci um lugar tão vazio
Nenhuma gota de vontade
Nenhuma ideia vinga
Vencido por uma imensidão solitária

Eu caminho pelos versos
Para largar um pouco dos pesos
Suspirar sobre algumas verdades
Manter a insanidade de não saber desistir

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“30º” (15/02/2017)

O calor que toca a pele
Apoia minha alma
Na frágil desculpa
Que o tempo se tornou escasso

Por mais que se dividam os dias
A inércia equilibra a balança
Nessa versão do mesmo tema
Culpa disfarçada de impossibilidade

São todas chances do mundo
Mas nenhuma escolha
Nenhuma paixão que leve adiante
Apenas repetindo para não desaparecer

O sol não me derrete
A esperança não esmaece
Tortura-me com a verdade
Sou protagonista da minha solidão

Falta-me pequenas coragens
Abandonar, admitir e acreditar
É a idade do cansaço
Ou cansaço da ideia

A noite ainda guarda o bafo
Um toque final no descompasso
Os planos de um novo amanhã
A certeza velada que não o será

Ass: Danilo Mendonça Martinho