“Passageiro” (13/11/2017)

Tempo, para quê me dividir assim?
Nesse pedaço sem sonho
Nessa rotina sem avanço
Repartindo as horas sem sobras
Sempre eu que fico para trás

Tempo, para quê me separar?
Das conquistas e ambições
Me largou no meio sem vida
Longe é perto demais
A solidão desta multidão
Cheia de certezas para minha indecisão

Tempo, você é só castigo?
Louça e conta pra pagar
Trabalho e ônibus lotado
Ou você tá escondendo o depois
Nesse sorriso de olhos fechados

Tempo, passa e fica
Diz que não falta muito
Promete que é para sempre
Me deixa um momento para esquecer
E uma vida para lembrar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Fadiga” (06/07/2018)

Algumas vezes cansa
Dá vontade de não querer
Deixar a correnteza levar
Usar a mente para esquecer
Decidir que tudo tanto faz
Ser comum a ponto de se perder
Largar o corpo no sofá
Se imaginar nos heróis da TV
Deixar a louça para amanhã
Ficar de pijama até feder
Pedir comida para entregar
Dormir quando te lembram o que fazer
Sentir o coração amargurar
Assistir o amor se desfazer
No infinito de um tempo não se preocupar
A liberdade de não reconhecer

Será que inertes o suficiente
Diminuídos e encolhidos
No escuro de um quarto
Escapamos de algo?
Estaremos protegidos de quê?

É que algumas vezes, simplesmente cansa

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Dia de frio” (01/06/2017)

Eu queria voltar para cama e deixar a vida passar bem devagarinho. Não que minha alma não esteja ansiosa para seguir em frente, para que o tempo necessário finalmente passe e as coisas aconteçam. É que os deveres que se acumulam em meus pés não tem muito gosto e realizá-los sem ver o porquê os torna em fardos. É tudo um processo de fé. Daquilo que somos, daquilo que queremos, do que acreditamos. Eu não acho que sonhamos com o impossível. Sonhamos proporcionalmente a força de nossa alma. O que martela na nossa cabeça é esse potencial, as conquistas dentro do nosso alcance. Então talvez se ficar um tempo suficiente debaixo desse cobertor, deixando o frio soprar pela janela e a garoa escorrer sem pressa pelo vidro; Talvez eu possa fechar os olhos bem forte e enxergar como se fosse agora a felicidade que desejo, e talvez sentindo o que ainda não existe, saboreando essa realidade sublime, eu teria a força para não voltar mais para essa cama.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Deserto” (20/04/2017)

Me fogem as palavras certas
Embaça o rosto no espelho
Sonhos se confundem com bobagens
Imagino enquanto não sei se vivo

Olhei para fora, dentro e para cima
Mas tudo continua em silêncio
A espera desequilibra a esperança
A fé fica sem lugar

Por que é tão difícil saber?
É apenas uma única escolha
O que me falta fazer?
Para que a alma siga em frente

Nunca conheci um lugar tão vazio
Nenhuma gota de vontade
Nenhuma ideia vinga
Vencido por uma imensidão solitária

Eu caminho pelos versos
Para largar um pouco dos pesos
Suspirar sobre algumas verdades
Manter a insanidade de não saber desistir

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“30º” (15/02/2017)

O calor que toca a pele
Apoia minha alma
Na frágil desculpa
Que o tempo se tornou escasso

Por mais que se dividam os dias
A inércia equilibra a balança
Nessa versão do mesmo tema
Culpa disfarçada de impossibilidade

São todas chances do mundo
Mas nenhuma escolha
Nenhuma paixão que leve adiante
Apenas repetindo para não desaparecer

O sol não me derrete
A esperança não esmaece
Tortura-me com a verdade
Sou protagonista da minha solidão

Falta-me pequenas coragens
Abandonar, admitir e acreditar
É a idade do cansaço
Ou cansaço da ideia

A noite ainda guarda o bafo
Um toque final no descompasso
Os planos de um novo amanhã
A certeza velada que não o será

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Poente” (05/01/2016)

Eu sinto falta do entardecer. Suas cores, seus degrades, por vezes o cheiro que antecede a chuva, por vezes a preguiça do calor. Eu perco tanto meu Deus, e não posso nem dizer que é falta de janelas. Vão me escapando aos poucos as sensibilidades da alma presa na rotina, do sorriso preso no sonho, da esperança escondida no silêncio. São dias que me contorno vazio para atravessar.Mas esses prédios de fundo cinza me completam, esses ônibus que se cruzam como formigas no rejunte do azulejo, os raios que em um milésimo unem céu e terra, e essas milhares de janelinhas miúdas, cada qual com uma vida brilhando, como uma caixinha de jóias esquecida na penteadeira do quarto. Eu sinto falta dessa brisa gelada, deste projeto de nada onde o dever foi cumprido e não temos para onde ir. Faz o tempo soar eterno, não é mesmo? Eu tenho é saudade do que era por não saber o que serei. Tudo me perece meio perdido. O Sol que nasce antes, a noite que chega sem chamar e a razão que se vê sempre espremida entre os ponteiros, cansada, sem entender no que vai dar. Eu sinto falta de espaço para esparramar os sentimentos. Enfrentar os medos e as bobagens. Falar sozinho, debruçar no parapeito. Largar-se na sombra da escuridão que ainda não é. Ver tomar a sala, esconder o rosto. Não precisar explicar porque. Desta alegria besta de olhar para vida e esquecer do jantar. Eu sinto falta de um horizonte.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Tudo ao seu tempo” (04/01/2017)

Eu queria começar com boas notícias
Mas pouco aconteceu até agora
Posso dizer que o calor continua
Talvez por isso a esperança esteja no congelador
Será que é possível, congelar a dor?

A verdade é que deixei a onda passar
Não nadei contra a corrente
Não tentei atravessar punhos por paredes
Insisti em me vestir de coração
Sonhador, sincero e real

É o que posso ser diante o que se adia
Não sei o tempo que falta
Então vou deixar que ele sobre
Espalhado na frente do ventilador

A vida não é viral
Ela tem calma e tem propósito
De mim precisa apenas de perseverança
Ainda é cedo pra se encontrar

Ass: Danilo Mendonça Martinho