“Muro Branco”

A “pixação” não é considerada nada além de sujeira, e para todos basta que encontrem um jeito de se livrar disto, nem que a solução seja multar quem não o faz. Mas há algo maior escondido por trás desta apropriação da cidade por um código pessoal e indecifrável. Por que ir até o alto dos prédios, por que arriscar sua própria vida para “sujar” uma fachada? Ele não faz por dinheiro, ele não faz por prestígio, ele não faz simplesmente para aparecer para o mundo. Em algo essa pessoa tem que acreditar para subir 20 andares e se equilibrar de ponta cabeça. A apropriação daquilo que lhe é negado diariamente pelo nosso sistema social, através de uma expressão particular e enigmática ao olhar da sociedade, é uma forma de questionar este universo de cartas marcadas, este horizonte que insistimos em construir na nossa janela, mas que não existe. O mundo é mais cru. Há um grupo gritando por algum tipo de atenção, cuidados, de valorização, que vive à beira, que assiste e vive a barbárie, que se incomoda o bastante para querer ressignificar o espaço, para questionar a autoridade, para lutar pelo que acredita. Basta um deslize fora dos padrões de comportamento gerais que excluímos pessoas como se nada do que acontecesse fosse conseqüência também de nós. Nos transformamos assim como em um passe de mágica, em apenas indivíduos. É assim que seguimos a nos abandonar. Na falta de alguma consciência que pense, e sem saber a quem ou como recorrer, apelamos para aquilo que não é do humano, o divino.

“Bilhete Premiado”

Nos resumimos a isso, algumas dezenas. Parece que todo objetivo de um brasileiro é atingir a glória de ter muito dinheiro e nada para fazer. Queremos tudo de graça, de mão beijada, de preferência que seja delivery. Nós trabalhamos literalmente para isso. Ter em nossa caixa de e-mails todas as promoções, todas promessas de um milhão. O país realmente está cheio de sonhadores, isso eu não posso negar, pois bastam as promessas. E olha que eu nem quero falar de eleições. Cada vez que eu vejo a propaganda da Mega da Virada eu penso, que quadro patético nós fazemos parte. Fazemos fila na lotérica, mas somos incapazes de parar na porta da prefeitura que aumenta os próprios salários de 6 mil para 19 mil reais em uma única madrugada. Quem disse que inflação acabou?(aumentos chegaram a 236%). Mas a gente gosta é disso mesmo, de ser sacaneado em 3 vezes sem entrada. Bater palma para quem ganha mais de 20 mil e te paga 545 reais por mês. Miséria, violência, corrupção, saúde, educação, nada disso move um brasileiro se quer, mas 170 milhões… Não somos tão diferentes daqueles que nos governam, não é mesmo? Já desistimos também da ética, queremos é deixar o quanto antes este hall dos trabalhadores. Construir o país, ajudar o próximo, praticar cidadania, isso não é para gente, é quem não tem o que fazer, não tem dinheiro. Esse é o nosso imaginário coletivo que é replicado e dá 50 pontos de audiência no horário nobre.

O brasileiro na verdade paga para não ter que ter consciência.

“Obsoleto”

CUIDADO VEICULOS

É preciso estar atento a nova ordem mundial. A máquina precisa de nossa atenção, de todo nosso cuidado. Dane-se a saúde e liguemos os ares condicionados. Sim, pois até o ar é condicionado pela máquina, o que ela não pode fazer pela gente? Ela leva, ela transmite, ela carrega, ela multiplica. Nós pobres humanos sentimos, dizemos pensar. Pouco, perto das multifuncionais. Eu tenho faixa onde posso cruzar, o carro pode ir em qualquer lugar. Eu mal me ajeito na cadeira, mas o laptop tem espaço sob medida. Para falar a verdade esta carcaça está mesmo ultrapassada. Cheia de dores, acumula uma lista de doenças, nem a mente funciona mais. Não precisa ter quilometragem, hoje em dia todo humano tem problema, desde sempre. Não tem TI suficiente para atender tanta necessidade, muito menos peça de reposição. São psicólogos, terapeutas, otorrinos, ortopedistas e pediatras, afinal parece que já nascemos com defeito. Talvez a placa esteja certa, nós que temos que estar atentos, há tanto que pode ocupar nosso lugar. Foi ao me comunicar pela máquina, sentindo sem ver, imaginando a fala, fazendo expressões para o vazio, foi que medi toda nossa impotência perante ela. Tornou-me obsoleto ao fazer do meu abraço uma mera ilusão. Cada dia somos mais máquinas, veículos evitando contato.

“Forjar”

Espaço. Ele é construído de limites muito duvidáveis já que qualquer um pode vir e num dia qualquer ver um pouco mais além daquilo que você determinou como fim. Nós preenchemos o espaço, aliás, mais que isso. Nossos desejos, nossas essências, nossas vidas preenchem. O lugar é algo cheio de significados pessoais, e só se torna lugar porque tem sentido. Todos nós sabemos onde depositamos o que somos. Os lugares que decidimos, que percebemos pertencer.

Pois bem, como se esvazia um lugar? Como se rouba todo um sentido? Você impõe regras, controla seu acesso, segrega seus componentes, tira seu conforto, transforma tudo em paisagem. No passar dos anos, lentamente, diante todos os olhares aquilo que era de cada um torna-se de poucos. Não tem mais praças, bancos ou traves para o futebol. Tudo ganhou nome e função. O lugar que era encontro se tornou passagem. Uma cidade fantasma habitada por alguns que ocupam seu espaço sem propósito, outros que tentam ressignificar seu objetivo. Abandonado por aqueles que a cultuam, e um estorvo para aqueles que a dirigem. Como podemos chamar de público um lugar que ignora a vida? Um espaço transitório e efêmero como tudo que nos vendem nessa modernidade. Algo sem sentido, com função e sem alma. … assim que se forja uma imagem, baseado no vazio. Esse espaço é um símbolo da nossa decadência, da nossa falta de rumo, que não rediscute, que não propõe, que é mais uma peça na engrenagem, que também excluí. Não se engane, o pensamento e o humano também são descartáveis.

“Meu velho gosto favorito”

O humano dentro da gente é muito simples, primitivo, visceral até. Ele reage a tudo, ao menos ao que pode sentir. Toda palavra é palavra, mas algumas são amargas. Todo mundo um dia vai embora, mas temos a certeza de quem não volta. Tudo se resume em algum instinto que te revira o estômago. Pois o que dizer daquele delicioso cheiro de pastel de feira? Estava em um local considerado um dos pontos mais caros da cidade. Tinha praças de alimentação ao meu alcance, tinha planos para um belo “cheese burguer” em uma alameda próxima, mas um pastel de feira me conquistou. Veio acompanhado de uma cana caldalosa, um calor íntimo, um sabor de nostalgia. Como é bom saborear passados, parece que jamais vão inventar algo melhor. Sem dúvida que já não me lembrava a última vez, mas agora nada importava diante um farto recheio de palmito. Até as pontinhas só de massa fazem a diferença e completaram meu humano de formas que não sabia que precisava. O mundo pode ser cheio de novos sabores, mas há os insubstituíveis. Regressei ao meu sorriso mais infantil, aqueles que eram de plena alegria, lembram? Satisfeito, não me incomodo de ser primitivo e ceder a um cheiro, me deixar levar por algum olhar.

“Eu comprei uma primavera”

Os casacos insistem em permanecer no repertório. O sol brinca de verão e a chuva quer atrasar a estação. Já não sei como arrumar a cama. Juro que a primavera chegou, vi de suas cores pelas ruas, avançando pelas paredes, crescendo em gramados nos jardins. Mas basta fechar a janela para acordar em algum outono desavisado, sem respeitar nossos botões prontos para abrir. Gostaríamos de deixar o armário em casa e segurar o cabelo dela com a rosa roubada do vizinho. E cá estamos a abrir nossos guarda-chuvas, inventando alguma outra moda, desistindo de nossos romances. Entregaram a estação errada e não tem como ligar para o PROCON, quem dera pudessem nos ressarcir com uma caixa de primaveras. Mais um dia escorre pelo vidro.

“Devaneio Existencial” (14/05/2019)

A vida é uma jornada. E por mais que a gente tente fincar nossos pés no chão a alma foi feita para voar. Não tem terra, não tem lugar, não tem abraço que impeça. Somos primitivamente livres. Nossa efemeridade é tão real que faz qualquer deslocamento parecer insignificante. Mas é justamente essa a brecha para experimentarmos. Podemos partir, voltar, mudar, fazer, esquecer, amar. Não há consequências cósmicas para nossa vida. Estamos soltos nesse universo com uma passagem só de ida. Se apegar ao tempo é comparar-se ao infinito. Devemos nos aproximar do que tem fim. Todo resto é mutável, do seu emprego ao quadro pendurado na sala. Nada precisa e nem deve permanecer como está. Somos evolução, parte que mesmo sem querer segue em frente. Quanto mais longe olhamos mais imprevisível é o caminho. Reme ao mesmo tempo que aproveita a maré. Não há nada para você aqui, mas há de tudo em todo lugar. Viver é uma ciência a parte e por isso digo para desconsiderar as distâncias, não medir os anos, não calcular a saudade. O rio segue correndo encostando sem ficar e quando dentro dele somos tudo em todo lugar. A vida é uma força que permeia a todos nós, estar é uma breve conclusão que logo se desfaz. Somos, vivemos e levamos para onde quer que for.

 

“Às avessas com o tempo” (06/05/2019)

Ô tempinho que não serve pra nada
Tá sempre em falta
Tem pressa sem ter motivo
Isso quando não parece que nunca vai chegar

Eita tempinho que não leva a lugar algum
Já foi promessa e profecia
Já te viraram de ponta cabeça
E onde você nos deixou?

Ah tempo, vontade de quebrar tua cara
Insiste nesse desencontro
Faz gracinha com esperanças
Depois passa como se nada tivesse acontecido

Tempo você me cansa!
De todas voltas que você já deu
Nunca um amanhã demorou tanto
Nunca vi vida nesse breu

 

Cine_Poesia – EP.01

“Quadro #9”

A solidão entra pela porta, senta na sala, deixa o telefone tocar, assiste seu reflexo na televisão, não abre a cortina, não acende a luz. Deixa a mesa com os adereços e sem o almoço, as almofadas no mesmo lugar. Só o pó acumula, o resto não fica. Não tem cheiro de tempero na cozinha, o fogão está fechado, a louça na pia, as janelas cerradas, e um sol do meio-dia derretendo a margarina tirada para o café. O suco na geladeira está do jeito que foi deixado, e a comida não acabou. Parece que os armários, copos, talheres e pratos se multiplicaram, tudo sobra. Não há roupas estendidas no varal, aliás o quintal está com uma cara de abandonado e sem vida. O mofo das paredes, o velho fio de náilon, tem tons de passado. Só há um sapato para fora, não existe bagunça particular. O solitário quarto com a cama de casal e a colcha esticada está de porta fechada, como se o vazio pudesse diminuir quando dividido. A escova, as toalhas, até mesmo o lixo permanece intacto. Não há para quem fazer pedidos, perguntar onde estão as coisas. Nessa ausência muito está perdido, lugares comuns, mas que apenas o outro poderia dizer onde é. Os passos no corredor são meus próprios, os barulhos em outros cômodos é a casa rangendo-se como sempre fez, mas nunca se repara. Nenhum outro chuveiro liga na hora que se quer tomar banho, nem te assustam no quarto quando faz seus exercícios. A solidão nem mesmo reclama. A cama está desarrumada, o chão precisando de um aspirador, os blusões se sobrepõem no mancebo e a janela do banheiro está fechada deixando o vapor d’água agredir as paredes. Tudo que faz falta a noite piora. Onde não tinha ninguém agora tem uma escuridão suspeita que nos faz entrar repetidamente no mesmo quarto, só para ter certeza que o espaço permanece inerte. Fica-se reduzido ao menor lugar possível da casa, onde tudo está ao alcance dos olhos, sob um controle questionável, mas crível o suficiente para se criar uma paz. Desliga-se a luz, corre para debaixo do edredom e a solidão que já tomou o lar para si traz suas maiores dores: não há beijo de boa noite, nem abraço de bom dia.

É assim que sei que não está.