Ep.06 – “Muro Branco”

A “pixação” não é considerada nada além de sujeira, e para todos basta que encontrem um jeito de se livrar disto, nem que a solução seja multar quem não o faz. Mas há algo maior escondido por trás desta apropriação da cidade por um código pessoal e indecifrável. Por que ir até o alto dos prédios, por que arriscar sua própria vida para “sujar” uma fachada? Ele não faz por dinheiro, ele não faz por prestígio, ele não faz simplesmente para aparecer para o mundo. Em algo essa pessoa tem que acreditar para subir 20 andares e se equilibrar de ponta cabeça. A apropriação daquilo que lhe é negado diariamente pelo nosso sistema social, através de uma expressão particular e enigmática ao olhar da sociedade, é uma forma de questionar este universo de cartas marcadas, este horizonte que insistimos em construir na nossa janela, mas que não existe. O mundo é mais cru. Há um grupo gritando por algum tipo de atenção, cuidados, de valorização, que vive à beira, que assiste e vive a barbárie, que se incomoda o bastante para querer ressignificar o espaço, para questionar a autoridade, para lutar pelo que acredita. Basta um deslize fora dos padrões de comportamento gerais que excluímos pessoas como se nada do que acontecesse fosse conseqüência também de nós. Nos transformamos assim como em um passe de mágica, em apenas indivíduos. É assim que seguimos a nos abandonar. Na falta de alguma consciência que pense, e sem saber a quem ou como recorrer, apelamos para aquilo que não é do humano, o divino.

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