Cine_Poesia – EP.01

“Quadro #9”

A solidão entra pela porta, senta na sala, deixa o telefone tocar, assiste seu reflexo na televisão, não abre a cortina, não acende a luz. Deixa a mesa com os adereços e sem o almoço, as almofadas no mesmo lugar. Só o pó acumula, o resto não fica. Não tem cheiro de tempero na cozinha, o fogão está fechado, a louça na pia, as janelas cerradas, e um sol do meio-dia derretendo a margarina tirada para o café. O suco na geladeira está do jeito que foi deixado, e a comida não acabou. Parece que os armários, copos, talheres e pratos se multiplicaram, tudo sobra. Não há roupas estendidas no varal, aliás o quintal está com uma cara de abandonado e sem vida. O mofo das paredes, o velho fio de náilon, tem tons de passado. Só há um sapato para fora, não existe bagunça particular. O solitário quarto com a cama de casal e a colcha esticada está de porta fechada, como se o vazio pudesse diminuir quando dividido. A escova, as toalhas, até mesmo o lixo permanece intacto. Não há para quem fazer pedidos, perguntar onde estão as coisas. Nessa ausência muito está perdido, lugares comuns, mas que apenas o outro poderia dizer onde é. Os passos no corredor são meus próprios, os barulhos em outros cômodos é a casa rangendo-se como sempre fez, mas nunca se repara. Nenhum outro chuveiro liga na hora que se quer tomar banho, nem te assustam no quarto quando faz seus exercícios. A solidão nem mesmo reclama. A cama está desarrumada, o chão precisando de um aspirador, os blusões se sobrepõem no mancebo e a janela do banheiro está fechada deixando o vapor d’água agredir as paredes. Tudo que faz falta a noite piora. Onde não tinha ninguém agora tem uma escuridão suspeita que nos faz entrar repetidamente no mesmo quarto, só para ter certeza que o espaço permanece inerte. Fica-se reduzido ao menor lugar possível da casa, onde tudo está ao alcance dos olhos, sob um controle questionável, mas crível o suficiente para se criar uma paz. Desliga-se a luz, corre para debaixo do edredom e a solidão que já tomou o lar para si traz suas maiores dores: não há beijo de boa noite, nem abraço de bom dia.

É assim que sei que não está.

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