“À Deriva” (15/06/2010)



Passei por rigorosos invernos
Guardei as flores na gaveta
Mantive a chama acesa
Deixei a porta aberta
Parti

Andei pelo meu imaginário
Levantei uma bandeira
Defendi um princípio
Agarrei-me a uma estrela
Encontrei-me

Apossei-me da liberdade
Assisti fronteiras caírem
Percorri imensos vazios
Descobri-me em solidão
Apaixonei-me

Investi no meu desejo
Acalmei os meus passos
Desviei meu caminho
Negligenciei outros olhares
Perdi-te

Sonhava com outros lábios
Desfazia-me em ilusões
Desmoronavam minhas verdades
Estabeleci minha loucura
Fugi

Apaguei a imagem no espelho
Rasguei uma carta
Omiti alguns versos
Joguei meu coração ao mar
Salvei-te?

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Completos” (11/06/2010)



Tua presença foi ostensiva
Busquei insistentemente teus olhos
Teus suaves lábios ensaiaram um sorriso
Era um encontro de sensações
Denso, intenso, real, utópico
Tentei desvendar teus traços
Nosso tempo foi escasso
Nem enamorarmos as possibilidades
Desejamos algo além do silêncio
Nossos corpos se procuravam
Mas existem fronteiras
Impostas sobre nossas palavras
Uma desculpa para nossa distância
Apaixonamos pelo mistério
Diante tua delicada alma
Não podia perturbar o instante
Só havia espaço para nós dois

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sinestesia” (08/06/2010)



O vento que sopra pela janela
O cascalho na porta da frente
O sol entre os eucaliptos
A chuva que molha o asfalto
O colorido marcando o horizonte
A névoa que invade as manhãs
Os pequenos fachos de luz
Um céu perfeitamente azul
Ou mesmo vestido todo de branco
A velha chaminé que permanece
Antigas casas que resistem
Um rio que corre despercebido
As folhas que caem pelo chão
As flores que brotam do concreto
O canto que anuncia o dia
O manto que traz a noite
Com algumas raras estrelas
E uma única rainha
São sutilezas em minha alma
Que amanhecerão novamente

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Hoje não, meu bem” (31/05/2010)



Não tenho nada a dizer
Descobri-me falando sobre nada
Meus sonhos estão acordados
Fui corroído pelos desejos
No final de cada gesto
Sobrou apenas minha própria mão
Mantenho valores baratos
Superestimo o meu coração
Sou uma propaganda enganosa
Estou repleto de um vazio.

Hoje me dói um sorriso
Como me rasga o romance
Quero chorar sem motivos
Quero aliviar do meu peito
A tristeza que hoje me venceu
Entreguei a ela as palavras
Nem tente me procurar
Deixei-me antes do amanhecer
Desculpe, mas ao menos hoje…preciso morrer

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Me Perdoa” (26/05/2010)



Fui descuidado com as palavras
Logo eu, que se diz poeta
Não coloquei os sentimentos na balança
Como que sem escrúpulos
Como um outro qualquer
Atirei um coração ao papel
Nunca imaginei poder ferir
O que só aumenta minha culpa
Transgredi uma inocência
Não quero mais salvação

Mas se de algo servem meus versos
Que ao menos teus olhos
Que ao menos a tua alma
Possa me desculpar antes de partir
As nossas verdades que omiti
As ilusões que alimentei
A liberdade que nos tirei
Prendi nosso amor em um papel
E nossas rimas ficaram aquém

Neste último momento
Enquanto a chama se extingue
Enquanto a porta permanece aberta
Peço uma gentileza final
Não me veja partir
Perdoa teu coração
Pela alegria de ter amado
Um poeta sem métrica
Uma rima sem razão

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Segredo” (25/05/2010)



Não posso me render
As palavras também são lágrimas
Meus versos podem ser mágoas
Não quero ser seu vilão
Brincar com teus sonhos
Descrever teus desejos

Eu temo o olhar
Que me fará culpado
Que revelará minhas falhas
Eu lhe quero
Mas o romance cobra caro
Resta pouca riqueza no meu coração

Preciso esconder
As entrelinhas do meu âmago
A verdade que não cabe na poesia
Apenas te imploro
Não me deixe te perder agora
Vamos permanecer poeta e inspiração

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O Romântico no século XXI” (24/05/2010)



Sem papiros e penas
Sem armaduras e espadas
Sem odes ou tragédias
Despido de contexto
Caminho entre as frestas
Visito os desavisados
Desapareço em versos
Distante dos olhares
Posso ser livre
Dançar a luz do dia
Sorrir ao pôr-do-sol
Esquecer-me em teu imaginário
Perturbar teus sonhos
Atiçar tuas vontades
Tocar teu âmago
Construir minha presença
Na rotina da alegria
No caminho dos abraços
No inconsciente dos romances
No reflexo dos olhares
Que tentam me desvendar
Que às vezes me esquecem
Outras me ignoram
Desisto dos jogos
Abro o coração
Ofereço minha essência
Mostro meu rosto
Desenho o ponto final

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sangria” (16/05/2010)



Quero me despedaçar
Desconstruir meus versos
Abandonar meu corpo
Desistir do romance
Abdicar parte da vida

Quero me esquecer
Medos, erros e arrependimentos
Destruir meu imaginário
Matar expectativas
Desfazer-me em solidão

Não quero ser vítima
Causei minha tristeza
Instalei minha angústia
Maltratei minha alma
Quebrei meu espírito

Quero voltar a respirar
Longe deste amor
Longe desta incerteza
A salvo de tua essência
A salvo do meu inconsciente

Quero mudar
Apagar a imagem no espelho
Rasgar as folhas do passado
Superar meus limites
Deixar de sofrer

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Antes do Amanhecer” (15/05/2010)



Vou escrever antes que seja tarde
Antes que coloque tudo a perder
Enquanto tudo ainda é puro e inocente
Antes que o ar sufoque as palavras
Antes que se manchem as intenções

Minha paixão nasceu sorrateira
Agora me transborda a alma
Tentei buscar minha paz
Tentei fugir destes sonhos
Mas não posso mais negar ao coração

Meus versos são delicadas pétalas
Meus poemas são vívidos buquês
Foram todos para ti, meu bem
Sou destes românticos incuráveis
Não pude evitar o romance

Só queria que ficasse sabendo
Que tenho os mais sinceros sentimentos
Que és diferente de tudo que já vivi
Para sempre terás uma parte de mim
Independente do que hoje em diante nos torne.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Te quero” (11/05/2010)



Queria te traduzir
Nada superficial
Queria tua alma
Derramada no meu papel

Não quero teu sorriso
Teus olhos ou cabelos
Não quero tua beleza óbvia
Quero teu inconsciente
Teus desejos mais secretos
Os sonhos que jamais me contaria

É inegável nossa atração
Mas quero lhe tocar a distância
Com as palavras certas
A melodia omitida em teu corpo

Você não é dama
Da torre mais alta que encontrei
Você não é a donzela em perigo
Fugindo de dragões e reis

Você é real
Além de qualquer inspiração
Preciso de teus versos
Antes que se torne utopia

Quero teu coração
Para dar nome a meu poema
Quero tua mão
Para dar sentido a minha vida

Ass: Danilo Mendonça Martinho