“Ao pé da Janela” (22/07/2010)



Te peço um silêncio
Amigo de bom tempo
Te peço sem trapaças
Um breve momento
Preste atenção nos acordes
E principalmente nas vozes
Para depois entoar a canção
Para que não seja em vão
As rimas bem trabalhadas
Na mais doce inspiração

Não é hora de palhoças
Preciso de tua ajuda
Ela me faz pirraça
São ternuras e sorrisos
Que guarda em melodias
Preciso entrar nesse jogo
Encontrar finalmente a alegria

Consegue-me uma serenata?
Não me importa as condições
Faço em cima da escada
Mas preciso de um poeta
Que me descreva em atos
Que me deixe uma porta aberta
Uma estrofe sem rima
Que me chame nos olhos
E termine em desejo

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Independência” (18/07/2010)



Não deixe minha solidão invadir tuas palavras
Não deixe meu coração pesar na tua consciência
Não deixe minha razão acordar teus sonhos
Não deixe meu abraço privar tua liberdade
Não deixe meus olhos fecharem teu horizonte
Não deixe minha poesia desarmonizar tua canção
Não deixe minha emoção transbordar tua sensatez
Não deixe minha tristeza roubar teu sorriso
Não deixe minha alegria impedir o teu choro
Não deixe meu futuro na frente do teu presente
Não deixe meu medo ser motivo do teu adeus
Não deixe meu silêncio calar tua verdade
Não deixe meus passos desviarem teu caminho
Não deixe minha essência ofuscar a tua estrela
Mas permita, apesar de todo amor e toda dor
Um “sim” qualquer

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Racionalidade” (16/07/2010)



Entristeci…
Em uma tarde longa demais
Abandonei a poesia
Desliguei o rádio
Abri a janela…
Não havia esperanças
O mesmo concreto
Uma árvore a favor do vento
Um infinito…
Que por mim atravessava
Deixei o mundo de lado
Deitei no chão do meu quarto
Encarei o teto como um espelho
Recalculei os meus passos
Despedacei palavra por palavra
Suspirei…
Sobrava-me o vazio
Desloquei tempo e espaço
Ainda incapaz de me encontrar
Abri mão dos sentimentos
Adormeci na realidade
Acordei sem horizontes
Preso as minhas verdades
Distante dos meus desejos
Libertei…
Enfim o meu amor
Dei-me a razão de quem
Ama…

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Na última instância do dia” (10/07/2010)



Há uma fresta na janela
Por onde desliza a luz da lua
Abre suavemente meus olhos
Mostra-me uma estrela

Há uma fresta de vida
Nas folhas secas das árvores
No colorido céu poluído
Que me provoca o sorriso

Há um verso de poesia
Escondido na névoa densa
Sussurrando pelos meus lábios
Perdendo-se na escuridão

Há uma silenciosa verdade
Escapando pelas grades
Cansada de minha negligência
Deixou-me com a ilusão

Há um resquício de lembrança
A cada lento suspiro
Revelando mais eminentemente
Um outro dia se esgotando

Há um último minuto
Vazio de possibilidades
Resta-me apenas uma escolha
Abdicar-te

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Nosso Tempo” (04/07/2010)



Nos encontramos em outro século
Exaustos desta realidade
Rindo das intempéries da vida
Lutando pela sobrevivência da alma
Planejando o que não temos certeza

No limite de tua razão
Teu olhar se perdia no infinito
Um âmago em fuga
Um corpo envolto no frio
Os passos presos a este concreto

Permaneci incapaz de uma boa palavra
Uma poesia diante teus olhos
Desviei por entre nossos assuntos
Distrai-te com algumas bobagens
Desistia das possibilidades

Dividimos uma caminhada
Alguns bons silêncios
Uma bela sobremesa
Algumas boas citações
Um despertencimento

No poema que segue construção
Registra-se mais uma vírgula
Um adeus envolto em um abraço
Na estrofe que ainda falta um verso

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Para voltar a sorrir” (04/07/2010)



Sigo por um caminho escuro
Uma noite de lua nova
Uma visita sem aviso
Uma surpresa em meu verso
Quero achar um sorriso perdido
Em um abraço incondicional
Em um segurar de mão
No horizonte desconhecido
Das escolhas certas
Os quartos que não visitei
Os braços que não se confundiram
O olhar misterioso
Fará desnecessária a palavra
No encontro eterno da alma
Livre dos medos e ansiedades
Saciado do mais profundo desejo
Embriagado pelo romance
Perdido de referências
De peito aberto e caneta na mão
Procurarei além do ponto final
A felicidade.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Nota de Falecimento” (26/06/2010)



Não foi envenenamento
Não foi de overdose
Tiro certeiro ou bala perdida
Atropelamento na via principal
Assassinato ou suicídio

Não tinha depressão
Não sofria de loucura
Nem inimigos com que se preocupar
Sua família o amava
Havia amigos por toda parte

Foi na casa onde sempre morou
Sem alertar os vizinhos
No completo silêncio
Com a luz da lua pela janela
No chão de seu quarto

Morreu de sofrimento e desgosto
Incapaz de conviver com o espelho
Desiludido de todos os amanhãs
Despiu-se dos últimos princípios

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Na sombra das palavras” (26/06/2010)



Sou um personagem sem rosto
Sou uma essência sem nome
Uma verdade inconveniente
Uma negligência unânime

Sou teu romance platônico
Sou tua admiração intelectual
Uma falsa aparência
Um ideal abandonado

Sou feito de sangue e lágrimas
Sou feito de versos e estrofes
Uma melancolia da tarde
Uma cicatriz do passado

Sou escritor do teu imaginário
Sou roteirista de teus sentimentos
Um diretor sem sucesso
Um protagonista sem papel

Sou dono de palavras comuns
Sou dono de conceitos absolutos
Um espírito de esperança
Um corpo em decadência

Sou mais ilusão que realidade
Sou mais parte do que todo
Um desejo inconsciente
Um sonho esquecido

Sou mais um poeta
Sou também real
Um coração que chora
Um âmago que sofre

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Aflição” (23/06/2010)



Vejo-me morrendo nesta trégua
Esta luta velada por desejos
Palavras de paz que escondem a guerra
Por mais que tente desviar os olhares
Há um peso no ar que me rodeia
A verdade quer ganhar vida
O grito afoga minhas entranhas
As entrelinhas envenenam o sentimento
Nego a intensidade do meu ser
Recuso versos e estrofes
Tudo para não cruzar as fronteiras
Tudo para preservar o momento
Para onde ir depois daqui?
Será um sofrimento retroceder
Será um suicídio continuar
As tensões transbordam a razão
Enquanto jogamos com as possibilidades
O mundo segue sua trajetória
O que sobreviverá a este deserto
Se não uma alma desacreditada
Abandonada de todos seus princípios
E ainda longe de tudo que deseja
Esta batalha secreta que mantemos
Pode trazer a vitória de uma felicidade
Pode também, matar o romance antes do fim

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Todo mundo um dia:” (22/06/2010)



Forma uma banda
Escreve um poema
Rasga uma carta
Desaparece por um dia
Desespera-se sem motivo
Parte sem um abraço
Permanece esperando
Vive um sonho
Diz um impropério
Pede perdão
Perde a razão
Cede a loucura
Derrama uma lágrima
Deseja o fim
Descobre o recomeço
Ama incondicionalmente
Enfrenta a solidão
Sofre por outros
Sobrevive uma decepção
Grita de raiva
Exagera no drama
Sente uma saudade
Cria uma fronteira
Vira a página
Ignora uma verdade
Declara uma infâmia
Omiti um coração
Cura uma decepção
Abandona um princípio
Esquece uma inocência
Altera o caminho
Declama um adeus
Desvia um olhar
Sonha sem limites
Enxerga um horizonte
Chega a um final
Respira-se fundo
E sobrevive

Ass: Danilo Mendonça Martinho