“Onde não existe tempo” (15/05/2011)

Aqui não bate vento, não nasce vida, é uma travessia sem alma. O caminho sem tempo faz lá fora ser qualquer lugar. Sinto-me em um deja vu eterno onde todos podemos nos perder. Nesse infinito, nesse canto de mundo, atravessam corpos igualmente estáticos, olhares sem destino. A boca seca, o horizonte se deforma, a palavra esmaece, tudo desiste. Quando entramos em um caminho onde nada se quer o mundo deixa de ter um amanhã.
Um trem que a gente embarca e nem sempre acha volta.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Aprendendo a dizer não” (13/05/2011)

Hoje é um dia triste
Teu colar sumiu do peito
Levou também o brilho do olhar
Tornei-me um fundo preto e branco
Uma presença estática
Esperando ser vencido pela ausência

Minha palavra é um rio que secou
Não podemos mais viver de flores
Se tivesse me negado o amor
Podia evitar arrancá-las pela raiz
Não restou nada entre nós
Somos apenas uma espessa distância

É temeroso não mais te imaginar
É apavorante ter que te calar
Mas o problema maior
É saber que nunca vai parar de doer
Tornou-se impossível outro verso

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sacrifícios” (01/05/2011)

Beira tudo que é lágrima
E salta para o abismo
Mergulha no véu branco da alma
Salga a boca doce
Inunda todas as palavras
Escorre pelas cicatrizes
Ecoa onde nunca cheguei

A tua queda é o infinito
A dor, todo o viver
Onde meus olhos não visitam
Paira sobre tudo de mais sensível
Jamais será uma posse
És feita de liberdade
Resta apenas, também precipitar-me

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Outro Lugar” (26/04/2011)

A noite cai diferente
Sombreia outros recortes
Revela outros segredos
Há uma realidade para cada passo
Há uma alma para cada espaço
O mundo não precisa ser um vazio
A imensidão é um convite
E só podemos fazer parte
Não importa a linha do horizonte
Ela jamais será um limite

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Cataratas” (25/04/2011)

Uma queda por tua beleza
Um abismo natural
Um degrau sem esperança
A tua morte na beira da vida
A tua força invencível
A tua desconsideração pelo humano
Essa fuga de qualquer lógica
Essa liberdade sem controle
Essa tua alma…
És imensidão sem verso
Como todo sentimento
Um rio a procura de mar.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sobre os sonhos” (24/04/2011)

Pisei mais uma vez nas nuvens
Aqui onde sempre faz tempo bom
É estranho não precisar de chão
Visitar a morada das estrelas
O homem e seus pretensos limites
Não entendo dominar os céus
Sem o controle da própria alma
Mas devo vir a admitir
Aqui devem estar as respostas
Numa realidade ainda em forma de sonho

Ass: Danilo Mendonça Martinho

Meme Literário

A pedidos

1. Existe um livro que tu lerias e relerias várias vezes?
Talvez “Noites Brancas”

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Sim. “O Guarani”, mas é impossível.

3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

Nenhum. Nenhuma palavra se basta dessa forma.

4. Que livro gostaria de ter lido, mas que, por algum motivo, nunca leste?
“O diário de Anne Frank”, mas adio o comprar esse livro. Outro é “Um, nenhum, cem mil”, Pirandello, é um livro que precisa de espírito para ler.

5. Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
Nenhum. Me senti estranho agora

6. Tinhas o hábito de ler quando era criança? Se lia, qual era o tipo de leitura?
Só a turma da Mônica, rsrs. A coleção dos Karas se não me engano também é um marco “Droga da obediência” e afins.

7. Qual o livro que achaste ‘chato’ mas ainda assim o leste até ao fim? Por quê?
“O triste fim de policarpo quaresma”, e não foi vestibular, foi vontade própria mesmo.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Cidades Invisíveis – Italo Calvino
Noites Brancas – Dostoievski
Sonhos de uma noite de Verão – Shakespeare
Bendito Maldito – Oswaldo Mendes (é biografia do Plínio Marcos, vale a pena)

9. Que livro está a ler neste momento?
“A desobediência civil” – Henry David Thoreau

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O outro lado do Desejo” (12/04/2011)

Nossa mente é uma fábrica de ideais. A maioria deles ligados a uma felicidade desconhecida, um sorriso permanente. A ilusão é tão forte que nos vemos invadidos por sentimentos que não aconteceram. Essas idéias são inevitáveis, plantadas e reproduzidas como um vírus, a imagem de uma vida muito melhor. Um sonho particular que parece estar atrás de toda janela, vivo em diferentes olhares. Nosso inconsciente toma conta e nos coloca em rumos repetidos onde ficamos aquém da nossa própria promessa. Assim nossa felicidade permanece estática, beirando nosso horizonte, resistindo ao nosso pedido para que nasça. O que nem sempre esperamos é que a vida nos escute.
Uma manhã a noticia te invade como a luz do dia. É fácil reconhecer o próprio sonho. A mistura de ansiedade e cautela. Os dissabores que vão dando lugar a tudo que é doce. A mente que abdica de tudo pela hora marcada. O passo ainda em dúvida caminha ao encontro e ali finalmente ao alcance de teus dedos, a prestar atenção em sua palavra, transformando esse mundo em lugar mais crível, tua felicidade. Ali do outro lado de tua alma o sorriso incondicional, a imaginação que funde com a realidade e uma incerteza irracional. O medo de estragar o desejo, questionando se merece tanto, pensando não ser capaz vivê-lo. O sonho é tão bom que parece não ser verdade. É assim que recebemos a felicidade, com descrédito. Como se fosse ela que tivesse que se provar.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Meio termo” (11/04/2011)

Podemos criar planilhas, fazer uma análise de risco. Podemos buscar opiniões de amigos e desconhecidos. Podemos buscar aprovação, debater com as paredes, ensaiar discursos, fundamentar argumentos. Podemos listar os prós e contras, imaginar futuros, basear-se em experiências passadas. Podemos procurar razões, cálculos, uma garantia. Podemos listar desculpas, motivos, teorias. Podemos tentar justificar nossas escolhas.
Mas nada jamais substituirá o sentimento. Ou se quer ou não. Você conhece todas suas respostas, a emoção vive nos extremos. O sentir pode não ser fácil, mas não fica no meio do caminho.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sem resposta” (06/04/2011)

É a paixão que se declarou
Que transbordava do peito
Que venceu as próprias dúvidas
Que agiu por amor
Que aceitou os riscos
Que entendeu a indecisão
Que não se incomodou com o silêncio
Que se guardou na promessa
Que sobreviveu na distância
Que escondeu as tristezas
Que por vezes se questionou
Que se reafirmou todos os dias
Que só pedia a presença
Que aguardava uma resposta
Que já duvidava do encontro
Que se descobriu ainda maior
Que foi indiferentemente ignorada
Que sufocou-se no âmago
Que lhe foi negada a palavra
Que decidiu encerrar-se
Que não deixará de existir

Sentimento se declara…
Também se leva de volta

Ass: Danilo Mendonça Martinho