Ao virar na avenida principal tinha uma Lua do tamanho de um planeta. Refletindo a luz de um Sol que ainda se escondia. Amarelada no topo dos prédios do centro da cidade, parecia uma pintura, um filme, uma ilusão. Mas entre tudo que nossa mente nos engana, de tudo que o homem criou, é fácil distinguir a natureza. Ela respira junto, ela sente, ela se comunica na sua imensidão e grandeza. Tudo a sua volta parece pequeno, mundano, corriqueiro. Conforme o carro avançava ela foi se misturando no horizonte, até ser essa lembrança. A Lua não gosta de câmeras. Sempre fica como um mero detalhe nas fotos. A realidade da sua presença, a beleza que colocou no meu amanhecer, não pode ser registrada. Ficam apenas essas palavras insuficientes diante uma vida que antes de tudo, sente.
Retrato Falado
Não tem idade
É preconceituoso e racista
Escravocrata e privilegiado
Intolerante e violento
Culpa a pobreza na qual se apoia
Quer leis pro outro
Tem fé, mas não tem amor
Pede respeito sem dar
Se diz inteligente, mas não usa razão
É solidário ao mesmo tempo que fecha a mão
É orgulhoso demais
Do status que herdou
E acredita que miséria é merecimento
Se sustenta na ignorância do próximo
Desvaloriza a vida
Dá risada das consequências
É tão cheio de si ao ponto da ingenuidade
Acredita no bicho papão da guerra fria
Acredita na palavra de quem faz segredo
Prefere uma boa ilusão a qualquer verdade
Prefere não se importar
Vive da imagem e não de convicção
Enche a boca no discurso
Se atrapalha todo na argumentação
É angustiante ver sua cegueira
Sua falta de cidadania
Seu senso desbalanceado de justiça
Seu ódio
O mais triste dessa imagem
É que é um reflexo no espelho
Da sociedade brasileira
Sem exceções
O que nos difere é o voto
O voto na manutenção desse sistema desigual e opressor
Ou o voto na esperança que possamos ser algo um pouco mais digno
(Pro povo voltar a sorrir de novo)
Fundamento
Em algum canto
Tem um pedaço de mim que acredita
Não posso dizer que ele seja racional
Muito menos que ele não tenha razão
Às vezes parece que ele mais quer do que sabe
Na maior parte do tempo ele sente mais do que tudo
É incoerente lhe dar atenção
Mas o espaço que ocupa
Não dá a dimensão da sua presença
Ele guarda sonho, desejo, sorriso, esperança
Já pensei ser a parte de mim que não quer aceitar
Ou mesmo meu lugar de ilusões e fantasias
Na verdade é meu quinhão mais íntegro
Que fica depois que toda raiva e tristeza se dissolve
Algumas vezes sua voz é mais fraca
Outras tantas penso que não vou mais encontrá-lo
Mas como uma rocha indivisível ele permanece
Mais forte que qualquer argumento
Mais verdadeiro que qualquer palavra
E se minha única certeza nessa vida
For sempre encontrar ele em minha alma
Será suficiente para saber que encontrarei felicidade
“Sobre bancos vazios”
Toda vez que o vejo enquanto estou admirando alguma nova paisagem penso no tempo, penso nas histórias, penso em quem não te notou, naqueles que só posaram para uma foto e os que fizeram de você um companheiro. Fosse para lamentar as dores, contemplar a natureza, compartilhar um silêncio, agradecer uma conquista. Parado, estático, inerte. Muitos não lhe dão o devido crédito dos momentos de apoio, de descanso, de conselhos. Este hiato de vida, uma parada na alma, a ponderação do caminho. Você é esse lugar no meio, permanente e eterno. Então confio a ti um pouco do que sou, deixo em ti um sentimento, faço de tua imagem uma memória, para aqueles olhares que enxergam as coisas do vazio.
Conexão
É diferente quando colocamos nossos pés descalços no chão.
Sentir a terra, a areia, a grama.
Sentir-se parte de uma natureza muito maior, muito mais forte, muito mais bela, muito mais sábia.
Sentir o azul do céu e ouvir o barulho do mar com a leve brisa que ocupa todo espaço entre nós.
É quando percebemos a infinitude e imensidão das coisas.
E como a vida é uma fração pequena deste tempo.
Tudo que criamos eventualmente passará.
Menos esses pés fincados no chão, as raízes da nossa alma, os frutos do nosso amor, as palavras escritas em um papel envelhecido descrevendo um tempo que não existe mais.
“Regresso”
Essa é a última folha em branco de um caderno há muito tempo fechado. Talvez represente bem os inúmeros sentimentos esquecidos. Os minutos que agora me perseguem tiram o tempo daquilo que já falta espaço. Há uma parte de mim que não pode existir? A palavra não me deixou o coração partido, não me abandonou, nem mesmo no silêncio. Mudou de assunto, iludiu, rezou, cantou e fez de tudo para seguir presente, para que quando o momento chegasse de resgatar, de preencher as lacunas de um depois, ela soubesse ainda o que dizer, ela tivesse ainda uma voz. Sinto vontade de chorar toda vez que libero o peso do meu peito. Até a alma é de aparências. Não há fuga mais inútil, nem atitude mais incoerente do que relevarmos o que realmente somos. Do tempo que perco nada me deixou mais perdido do que a falta desse papel, de não saber mais o que escrevi, de deixar tantos textos, tantas inspirações pela metade. Fiquei aos pedaços, fiquei pelo caminho. Minha esperança é essa página no fim de um caderno finalmente terminado. Que ela possa unir os cacos e indicar um futuro. Sei que a palavra não morre, mas conheço a falta de ar de viver sem ela. Esses meus olhos fechados e esse suspiro profundo é a paz de te sentir novamente.
Estelionato
Para esse amanhã funcionar tem que virar hoje
Só dá para contar com o depois se tiver agora
O quem sabe não se importa
O talvez só espera
O futuro só quer chamar atenção, roubar a cena
Nada nele é verdade
Nem sorriso, nem lágrima
É tudo doce, é tudo fácil
Um golpe muito bem elaborado
Onde depositei boa parte da minha vida
E agora que cheguei aqui
O que faço para ter de volta?
Eu que sonhei com esse amanhã
Eu que contei com esse depois…
“Pesos e Medidas”
É mais importante a fé que se tem
ou ter fé?
É mais importante quem amamos
ou simplesmente amar?
É mais importante como é composta sua família
ou ter uma família?
É mais importante ser dono da verdade
ou ter compreensão?
É mais importante ter razão
ou estender a mão?
É mais importante o silêncio da unanimidade
ou o barulho da diferença?
É mais importante ser bom para você
ou ser bom para todos?
É mais importante quem te lidera
ou aqueles ao teu lado?
É mais importante o teu orgulho
ou tua felicidade?
É mais importante o que se diz
ou não se calar?
É mais importante a sua imagem
ou a sua consciência?
É mais importante a escolha que se faz
ou ser livre para escolher?
Meus Silêncios
Meus silêncios estão longe de ser solidão. Tenho construções perfeitas de futuro. Tenho sucesso, debates, alegrias tão densas que se pode tocar. Mas nem só de imaginações vive os meus silêncios. Eles tem planos. Arquitetam cada passo, querem organizar tudo. Dividir o tempo, fazer caber, trabalhar, sorrir, descansar, tudo com hora marcada. Não para na realidade, cria planilhas para games tanto quanto para as finanças. Não se calam até as coisas estarem do seu jeito. Meus silêncios dependem de mim. Nada fazen, nada movem. Dar-lhes espaço é deixar a vida passar. Ao mesmo tempo são tão necessários esses silêncios, essas pausas, esses suspiros. Algumas vezes me parecem fuga e muitas vezes me soam como paz. Me fortalecem, me reconstroem, me inspiram. De olhos fechados diante o horizonte eu lembro que a esperança reside dentro de mim e no meu silêncio guardo o sorriso que completará o sonho de felicidade.
Rimas & Literatura_26
Nesse episódio uma entrevista sobre a edição especial da Revista Subversa.