“Ensaio sobre incerteza” (17/08/2015)

A liberdade é algo perdido dentro do ser humano. Estamos presos não a nossa vontade, a nossa consciência, mas ao julgamento dos outros. E quando não há quem nos julgue, olhamos para o céu a procura de um sinal que aprove nossa decisão. Cada pedaço do que fazemos transformado em condenação ou absolvição. Nada pode simplesmente ser. Aos nossos queridos tentamos nos justificar. Contamos nossos meandros, medos, caminhos, conclusões. Ouvimos todo conforto que uma palavra pode ceder, e ainda assim não é o bastante. Precisamos perdoar a alma. Rezo, todo santo dia, como rezo com força, com sono, distraído, em silêncio…..agradeço para não ser mal educado, peço quando na verdade espero que “ele” possa assumir a responsabilidade da minha decisão. Que possa dizer o que está certo ou errado e me evitar o trabalho de tentar por meus sonhos em prática. Que então me indique a direção para que assim me acabem as desculpas de não viver por não saber para onde ir. Posso não saber até onde vai sua fé, mas hoje, mais do que qualquer outro dia, percebi o quanto ela pode ser vazia se não começar em você mesmo.
O fazer é humano, e suas consequências estão longe de serem prêmios ou castigos. São apenas rumos que a vida toma. É fácil esconder nossas vontades por trás de outras, divinas ou não. Justificar nossa inércia como efeito, quando na verdade é causa. Saber quais serão todos desdobramentos de suas atitudes e após fazê-lo enxergar o depois como uma justiça natural da vida. Bobagem! Somos livres! Eu acredito em forças naturais que nos protegem, nos guiam, as vezes ensinam. Mas o que procuro para apaziguar minha alma e dizer que esta é a melhor solução, simplesmente não existe. A escolha é livre e existe dentro de nós, esquecida, esta mesma liberdade. Não há explicação para o que fazemos se não a nossa vontade. Da mesma forma não há como esperar uma permissão para realizar teu sonho. Não tem certo, errado, muito menos um julgamento diário dos seus gestos e pensamentos. Temos apenas um coração como termômetro dizendo o que lhe agrada, e uma fundamental liberdade que se começarmos a colocá-la em prática em favor dos nossos sonhos, eu consigo imaginar vidas incríveis. Não precisamos de autorização para nada, mas precisamos ter responsabilidade com tudo. Até entendo que o meio disso tudo seja confuso, mas a saída é única. Escolha, a vida é sua caso precise voltar atrás, mas não deixe de escolher.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Vigília” (03/06/2015)

Fecho meus olhos e rezo
Talvez medo do fardo
Fé no que se é capaz

Rezo por último recurso
Pois já não sei carregar o corpo
E muito menos completar a alma

É mais humano confiar no outro
Isentar-se da escolha
Esperar a resposta

Mas não o faço por pilhéria
É apenas puro desencontro
Pois não sei onde enterrei a vontade

Sonho em intensidades sem razão
O quão estou distante de mim?
Qual verdade transformei em ilusão?

Rezo ciente do abandono
Deixo a esperança de minha causa
Para encontrar paz em algum outro lugar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Por trás da alma” (28/04/2015)

Há um solitário dentro de nós. Não sorri, não decide. Um silêncio preenchido de palavras. Verdades escondidas. Quem é que te amedronta mais do que o que pensam de você. Só há uma pessoa que sabe até onde é real e a ignoramos com toda força. Viver em meio de tantos sem trazer nada para si é uma viagem tranquila, não se compra brigas nem problemas, não se faz amizade nem amor. Seguir é extremamente fácil quando não há nada que te importe abrir mão. O resto do dia longe dos espelhos dos olhos que te despem se torna um grande palco. Somos a sociedade do parecer, satisfeitos em ouvir o que queríamos. O quanto te corrói fazer o que não é? Tuas olheiras, tua constante aflição, o medo de que tudo volte a desmoronar. Teu pessimismo é uma cicatriz no rosto, incapaz de esquecer. Enquanto isso, no íntimo de nós, permanece sozinho, sincero e livre, a parte de nós que por algum motivo preferimos esquecer.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Encontrar-ser” (09/04/2015)

Não me resta ser poeta
É tudo que sou antes de ser resto
Nem sempre fazemos o que somos
Fazemos de nosso todo uma parte
Pedaços espalhados pela sala de estar
O espelho ignora o que não esconde
A fé cega no que podemos ser
Não enxerga o que já não sou
A palavra procura rima
A vida procura seguir
Ninguém está pronto para ser todo
Só que não há nada que me resta

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Entre o vazio e o completo” (26/02/2015)

Ela me disse que não há verdade no amor
O que era sua vida virou de outra
Sua existência abriu mão do romance
Será tudo menos coração

Depois de uma adolescência de tempo
Os caminhos descarrilaram sem despedida
Desconhecem o passado, como hoje, o futuro
Não se falam, não se vêem, não existem

Os solitários sentem incondicionalmente
Só que pessoas tem condições
Muitos limites são determinados pelo medo
Sobra o ressentimento de um querer impotente

Quando me tiraram a esperança
Eu não soube o que fazer com a espera
Seguir em frente dos sonhos
Foi deixar todo guarda-roupa para trás

Quebraram meu brinquedo de palavras
Aprendi então a abandonar significados
Até o dia que for completo silêncio
Serei então apenas abraço

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Substantivo” (21/02/2015)

Há tanto que a palavra jamais dirá
Não é uma simples questão de vocabulário
Nos limitam todos significados
E minha gratidão não passa de obrigado

Há tanto que não cabe dentro de mim
Um tanto que permanece em silêncio
Nem mesmo as almas mais interessadas
Decifram meus olhares perdidos

Há um mundo inteiro calado
Que tenta se resolver em beijos e abraços
Que não encontra resenha do tamanho da vida
Inerte, imenso, invisível

Ass: Danilo Mendonça Martinho

"Puro" (07/02/2015)

O que há de mais sincero em ti?
O que sem sombra de dúvidas é livre?
O que você pede quando tem a oportunidade?

Não podemos ter medo de querer
Não devemos duvidar da nossa grandeza
Não há nada mais forte que a verdade

Se pela manhã apoio os pés sobre o que acredito
Se pela noite apoio a cabeça sobre o que conquistei
Se meu sorriso encontra nos sonhos felicidade
Sei ao menos para onde ir

Desconheço meu lado mais sincero
Desconheço a liberdade da minha alma
Desconheço a certeza sobre o que quero
Só conheço a palavra e recuso a me calar  

Ass: Danilo Mendonça Martinho