“Incerteza” (13/12/2009)



Não consigo me livrar disto,
Impregnado como mau cheiro,
Como uma verdade escondida,
Como segredo sufocante.

Escrevo sem parar
Mas não reconheço as palavras
Nenhuma parece dizer o suficiente
Todas estranhamente mudas

Faço prosas e poesias
Tento fechar os olhos
Tento sempre em vão

Há algo ainda no ar
Há algo nos corações
Há algo nas almas

Algo se perde
Tem algo que perde a voz
Tem algo que perde o sentido
Tem algo que morre
No primeiro sinal de vida

A impressão presa no âmago
Um sentimento sem tradução
Que me deixa apenas com o receio
De ser exatamente do que preciso

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Arrependimento” (05/12/2009)



Quantas vezes já recusei o guarda-chuva?
As gotas necessárias ao meu rosto
Pequenas verdades inconvenientes no olho
Implorei por muito mais delas
Perguntei se era tudo que podia fazer
Fui imprudente, fui indiferente
Deixei por me atingir e sangrar
Não tinha razão alguma
Ao perturbar as emoções
Ao questionar as decisões
Forjou-se em mim a tristeza e melancolia
E mesmo assim fui incapaz de chorar
Caminhei com meus erros
Desejando não mais pensar
Todas as forças para esquecer
Mas o pesadelo continuou
E já sabia que não ia acordar
E só pude deixar a chuva cair
Mesmo sem nada a dizer

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Segunda Chance” (02/12/2009)



Se este final de noite me permitir mais um desabafo,
Mais um conjunto de palavras alheias
Íntimos revelados e âmagos atordoados
Verdades intrínsecas e abordagens inusitadas
Emoções não recomendadas.

Se as estrelas pararem seu brilho
Escutarem minhas lamurias com a atenção necessária
Quem sabe então venham a cair.
Se os últimos minutos de consciência que me restam
Puderem expressar meu desespero diário e desejos desonestos.
Se minhas últimas palavras puderem não ser nenhum “adeus”
Se meus versos disserem em boa e alta voz,
Minhas falhas, meus medos, minha vulnerabilidade,
Que elas tornem meu ser em mais humano
Que elas tornem minha racionalidade mais desapropriada
Que possam libertar meus pensamentos,
Que possam desaparecer com os limites.

Ah, que bom seria antes de fechar os olhos um sorriso
Aliviado de minha escusas, de meus disfarces,
Que bom seria deixar todas as máscaras no chão,
Que bom seria olhar livremente nos olhos do próximo,
Que maravilha seria não me preocupar.
Ah, se esses versos tiverem esse poder,
Que não pestanejem perante a oportunidade de confessar.

Cansei deste medo, cansei dos pudores,
Quero esta carcaça por inteiro
Quero aceitar suas imperfeições nos mínimos detalhes,
Quero as cicatrizes, quero as marcas do passado,
Quero os ossos quebrados, quero as mágoas expostas,
Quero nestes últimos minutos, como em um reza,
Sussurrar arrependimentos, tristezas, medos, e vontades,
Quero nem que seja em um suspiro me livrar
Deste gosto amargo, destas dúvidas, destes parâmetros.

Se este dia ainda me permitir, queria deixar aqui
Tudo que já não mais sou
Tudo que já não quero mais ser
Tudo que terei que esquecer para o amanhã
Gostaria de aqui deixar minhas dores
Gostaria de me despir dos valores
Enterrar alguns princípios
Começar algo de novo
Se ainda há tempo, se ainda há vida
Que me permita, por favor, me permita.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Flores de Plástico” (18/11/2009)



De que me adianta uma flor que parece?
Belas pétalas de plástico
Que não me trarão suas alegrias
Que não se flagelarão com tristezas
Que não escutarão meus segredos
Uma terra sem vida
Sem amor para receber
Que rejeitará as chuvas
Que será indiferente aos sóis
Uma bela peça de arte
Vazia de todos os propósitos
Eterna e sem vida

Preferiria mil vezes que morresse
Que me apontasse meu descaso
Que pedisse minha atenção
Que precisasse de minha presença
Suas folhas mudando de cor
E tuas pétalas abrochando no verão
Mas como cuidar de você assim?
Invariável e irredutível
Permanentemente linda e feliz

Sinto dizer, mas não posso
Como é terrível e cruel
Que não lhe existam versos
Mas como lhe poderei ser fiel?
Se sei que virei a chorar
E quando lhe odiar
Não poderei pedir desculpas
Prefiro sangrar com os espinhos
Mas poder…se necessário
Arrancar tudo pela raiz.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Baile” (18/11/2009)



Vista-se de algo antigo
Donzela, cavaleiro, frade
Não me importa teu personagem
Rebusque tua linguagem
Pense duas vezes ao indagar
E imponha sua mesóclise com cuidado
Tire seu par para uma dança
Não são dois pra cá, nem pra lá
São olhares, suspiros, e leves movimentos
Conversas inteiras baseadas em gestos
E é melhor não se enganar
É deveras complicado recomeçar
Imposte a voz e discurse
Não seja um tolo utópico
Tua aparência importa demais
Fale de porcos, mas fale direito
A razão não é o correto
É uma voz mais alta e forte
Pois agora que foi devidamente notado
Vire as costas e caminhe com calma
Quais olhos que lhe seguem?
Esta é a pergunta fundamental
E agora é tudo uma questão de tempo
Para que as fantasias venham a cair
Até que sobrem apenas corpos verdadeiros
Um par de almas recíprocas
Que em qualquer época
Sempre poderão se encontrar.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Inacabado” (15/11/2009)



Fragmentado
Parcialmente destruído
Inutilizado
Totalmente esquecido
Poetizado
Indevidamente eternizado
Vencido
Erroneamente julgado
Ultrapassado
Nostalgicamente lembrado
Sonhado
Inadvertidamente imaginado
Cansado
Fisicamente saturado
Ignorado
Conscientemente despercebido
Perturbado
Internamente perdido
Solitário
Permanentemente vazio
Melancólico
Inevitavelmente romântico
Amado
Brevemente retribuído
Revoltado
Historicamente no limite
Irado
Incrivelmente invencível
Marginalizado
Perigosamente excluído
Generalizado
Propositalmente negligenciado
Amedrontado
Circunstancialmente desistente
Policiado
De valores questionáveis
Cicatrizando
Lutando por princípios

Raro foram os momentos
Em que nada fui
E sei que a este momento
Um dia retornarei
Até lá…permaneço…

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Me Leva Pra casa” (10/11/2009)



Se vier o suspiro
O sorriso torto
A face murcha.
Se desistir de discutir,
Perder as palavras,
Abaixar o tom.
Se me sentar,
Evitar gestos,
Inerte as provocações.
Seja prudente de não perguntar
Poderei fugir em paz
Para nunca mais voltar

Quando o dia pesa
A liberdade estreita
A paciência acaba
O sujeito desagrada
O amargo sobe a boca
O cenário perde a cor
Quando o reflexo me estranha
É hora de dar as costas
Para dizer jamais

Não quero estar aqui
Com isto como parte de mim
Não quero ser
Imagem com pobreza de detalhes
Mente inquieta e perdida
Piadas forçadas e falsos sorrisos
…Tomo o caminho de casa
Sem saber como voltar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Walking Away” (02/11/2009)



I have been waiting
Standing all alone
Like a fool in the end
The sun is gone
The moon won’t come
The darkness is upon me
And a still was looking
Maybe in the next turn
You were on time
A few minutes to arrive
And the revolution broke out
My heart losing his pace
And I started losing my mind
All the reasons became unreal
My doubts unsettling
My body uneasy
It doesn’t feel right
I couldn’t be there
It was too comfortable
Living once again
And complain when you be gone
A cheap shot to romance
A lie that I couldn’t stand
I already came too far
Now I need to get free
I hope you understand why

I started walking
I didn’t give up the hope of the train pass
I just choose not to be there

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Quinta a Noite” (02/11/2009)



Não quero escrever-te
Não se trata de descaso
Jamais lhe negarei
Mas parece inadequado
Que versos te descrevam
Sendo que já lhe sinto
E tua marca em mim
Não contém tradução

Não quero eternizar-te
Somos bem mais sutis
Olhares muito tímidos
Palavras fantasiadas
Um sentimento óbvio
E por respeito a ele
É que quero me calar

Não merecemos o papel
Nem queremos merecer
Sejamos uma boa intenção
Um encontro casual
Um teimoso desconcerto
Uma dessas felicidades
…que permanece.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Uma Sombra Contemporânea” (31/10/2009)



O que fazer quando os valores não pagam a conta?
Quando a felicidade tem preço.
Quando as honras são secundárias.
Quando as nobrezas são rejeitadas.
Quando ser humano se torna sê-lo menos.

O que dizer ao olhar que desiste.
Ao coração que se fecha.
Ao corpo que dá as costas.
O rosto que entristece
A vida que perde a cor.

Para onde ir quando se é incomum.
Quando tua opinião é contrária.
Quando tua crença é única.
Quando tua palavra é sozinha.
Quando te deixam para trás.

Como se manter intacto
Se são nas brechas que te atacam
Se é de ti que fazem duvidar
Se é do teu sorriso que são contra
Se é a tua essência que negam

Por último me diga sinceramente
Quando deixar quem você é
Quando trocar e vender
Quem será diante do espelho
Por qual nome devo lhe chamar?

Ass: Danilo Mendonça Martinho