“Rochas”

Será que o amor é caça nesses tempos?
Há tanta dor espalhada pelos olhares
Penso que só pode ser causa de predadores
Técnicas ultrapassadas ou talvez ausência delas
O coração é um infeliz perdido no fogo cruzado

Ninguém nasce sabendo estender a mão ao próximo
Mas também já não se faz questão das gentilezas
Ao agarrar o sentimento…sufoca, arranha, maltrata
O rastro na terra é de lágrimas
Os corações que ressecam, viram pedra

Doer é tanto da vida quanto amar
Mas não façamos disso nossa regra
Não vamos ficar atirando flechas ao deus-dará
A errar, sim, nobremente continuaremos
Mas com a tristeza sendo um velar que valha a pena

O amor não é caça, nem caçador
Ele não tem papel nessa peça, é apenas paisagem
Somos protagonistas das palavras
Somos coadjuvantes dos sentimentos
Tolos a procurar pedras preciosas
Escondidas dentro do peito

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Deriva”

O dia nasce para todos, mas com certeza não nos diz as mesmas coisas. A luz aqui atravessa a janela, ali reflete contra os vitrais e também bate na madeira apodrecida que permanece em pé somente até os próximos temporais. Há muita realidade em um espaço cada vez menor. As linhas que definem o ser humano estão mais tênues, frágeis e (como sempre) prontas para se cruzar. O que faz de um olhar, um olhar de bandido? O que faz de um corpo e alma sofrida, desejar por paz? Se trilhamos um caminho de respeito e honestidade, venho a me convencer que é por sorte. Pessoas do mesmo passado tiram conclusões totalmente diferentes de suas experiências. Somos abismos profundos e distantes. Neste hiato muita coisa perde valor, como a vida. Desmerecendo a si, o outro vale menos ainda. O problema é sempre o próximo. Dói saber que a educação não é desrespeito a cidadania. Dói saber que a política não é desrespeito a sociedade. Dói ignorar que o presente não é desrespeito ao passado. Dói perceber que não virá mudança. Dói não saber o que deixaremos para trás. Dói perceber que tratamos a existência neste mundo como se não fosse desrespeito a nós. Dói, ao olhar para o lado, encontrar algo ou alguém tão abandonado socialmente como você. Dói não ter o que comer ou algo porque lutar. Dói entregar este futuro nas mãos de pessoas que quase sem amparo algum decidirá entre o “bem” e o “mal” , entre querer ou desistir, entre acreditar ou apenas adaptar-se. Se chegamos até aqui é por sorte, o que faz da dúvida sobre um amanhã nossa única certeza.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Meu bem – me quer”

Meu amor não me arranca pétalas
Nem me guarda em uma cúpula de vidro
Estou exposto ao enlace de seus dedos
A mercê do sopro de seu lábios
Vivo onde posso lhe sentir da pele à alma
Sei que aqui fora, chove, ou o sol que não descansa
Só que aqui meu respirar não pesa sobre o tempo
Ser livre é poder escolher seus limites
Minhas fronteiras se confundiram com as suas
Não dependemos do acaso, nem da sorte
É teu carinho suave sobre a pele
Teu abraço gentil e protetor pela manhã
E um olhar que sei que não divide
…Moro em um coração onde só floresço

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Não me morra de saudades”

A saudade não quer fazer da falta uma rotina
Por isso te sinto cada dia que parto
Sou outro, pois me deixo completo contigo
Prefiro-me incompleto a te ocultar na alma
Tudo periga escapar entre as horas
Então não me importo que o amor vire agulha
Não pense que a distância me faz doente
Ela me faz crescer para suprimir qualquer espaço
Tenho a certeza que não precisava
Que te quero ao lado pro resto da vida

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Precipitação”

Há quem não sinta teu cheiro no asfalto
Quem não reconheça que vence qualquer superfície
E vive a embrenhar-se em busca de almas
Como podem não escutar teus suspiros?

O humano é mais fechado que pedras
O mundo algumas vezes é muito frio
Talvez esse nosso encontro seja raridade
Sabemos que uma paixão pode enganar os sentidos

Tua chegada a noite as vezes me assusta
Contra quem guarda tanta violência?
Acredito que apenas não abandona tua essência
A emoção te leva a todo lugar

Confesso, te amo mais quando sem pressa
Te faz mais companhia que passagem
Sorrio quando você observa a vida
Querendo saber se tudo segue a sua espera

O ar por aqui mudou muito
Mas vejo que isso não te incomoda
Tem fé nos teus desejos
Por mais que eles desaguem

A minha janela permanece aberta
Já acomodei meus braços no parapeito
Minha alma as vezes seca
Saudades de você chuva, saudades de você

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O sentir não tem nome”

Desenhar o amor é muito fácil. Todo mundo já deve tê-lo feito, provavelmente mais de uma vez. É que se descobre que diferente coisas lhe cabem, talvez até mesmo tudo, mas nem tudo te serve. Seus traços podem reproduzir conceitos, pessoas, memórias, e (acredite) dores. São formas que experimentamos, nem sempre voluntariamente. Fico pensado nos moldes que não se encaixam. Será que arrastamos o amor, ou mesmo o deformamos para nos servir? Há muito na conta dele. O romance segue de uma maneira particular, obedecendo escolhas e essências. Sabemos, o humano erra, e também muda. O amor não esmaece, nem se dissipa, são os quereres que são outros, são os limites da alma que se atingem. O amor segue, só amor. Viver tem variáveis tão infinitas. Talvez o correto seja deixar esse desenho em aberto, não é preciso ter pressa, há muitos enganos quando só se precisa de um acerto. Não falemos dele, que apenas sente.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Marasmo”

Lua encheu-se e se apagou
Não mais levantou as marés
Nem sobrepôs a luz da rua
As estrelas órfãs despencavam
Nenhum desejo seria suficiente

O sol não sabia quando se por
Navegar já não era preciso
O romance perdido no breu
A dama partiu sem companhia
Fechou os olhos para nossa vida

A cada sete dias ela chora
A cada sete dias ela cresce
A cada sete dias ela brilha
A cada sete dias ela desaparece
Tudo por aqui permanece

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Apenas, um ensaio”

O apenas reduz tudo a sua mais ínfima parte. Simplifica e menospreza. Desmorona argumentos, apressa o tempo e faz até um sentimento caber em menos que um suspiro. É uma palavra que se reduz a um único e mais nada, uma palavra, poderiam dizer, que fez uma escolha. Ela é. Ao se deparar com algo tão irredutível muitas questões são levantadas e nos vemos desafiados. Nada pode ser apenas. Tudo precisa de inúmeras razões, tudo está sujeito a um ponto de vista, tudo por menor que seja é uma chance entre várias. Mas tudo apenas aponta direções, alcança o mundo em um único abraço, te dá a visão sem o caminho. A ideia que algo seja apenas é plausível, pois ele também é completo. Apenas não é limitar, é desenhar os contornos do que somos. Não é ser tudo, é ser todo, quantos podem dizer isso? Talvez este seja o motivo desta palavra ser tão inquieta, ela carrega um pouco de nossos sonhos. Pode parecer desconsideração, mas ela, como nós, que ser simples. Simplesmente viver, simplesmente querer, simplesmente amar.


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Energia de Ativação”

O agora é provisório
Nada quer ser inerte
As paredes buscam frestas
Os vidros vibram
O assoalho estala
Um movimento sólido
Transformando a vida
Só a ilusão permanece

O querer é uma intenção
Jamais um controle
O natural é o incerto
Tudo que nos escapa
É o caos que nos persegue
A organização garante a sanidade
Ninguém está pronto para ser livre
O humano é provisório

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Enclausurado”

Dentro de casa o mundo vira sonho
As paredes não tem imaginação
A vida é uma questão de reciprocidade
Ao trancar a porta aprisionamos a chance
Tudo é possível mas apenas isso
O sorriso da esperança não é falso
É uma sombra como na caverna
A alma se torna projeção do pensamento
Um corpo que se completa sem ser
O homem criou o que fazer
A ilusão consome a realidade
O concreto é tão abstrato quanto a ideia
Todos temos que dar este passo
Para o conforto de nossos sonhos
Para incerteza de realizá-los

Ass: Danilo Mendonça Martinho