“Telha de Amianto” (16/08/2011)

Eu lembro quando a chuva vinha ensurdecer meu universo. Estava sempre a imaginar no meu quintal entre os soldados e as corridas disputadas entre os vales e montanhas das caixas sobre o balcão embaixo da janela da cozinha. Era tudo revestido de um azulejo laranja que não escondia sua idade. Foi entre essas mesmas caixas que encontrei um de meus cágados que fugiu enquanto limpava o aquário. Nessa época meu mundo já tinha diminuído e os sonhos já não podiam correr livres, faltava-me espaço no box do chuveiro, na escrivaninha. Fiquei exposto aos olhares que esperavam deixar para trás minha infância. Mas corri outras vezes naquele quintal, mais vezes do que posso me lembrar. Fiz guerras, joguei bola, lamento não ter deitado mais vezes naquele chão. No quartinho dos fundos tinha uma mesa de botão. Tinha também uma saída lateral para o corredor que recordo sempre em tons avermelhados, desses finais de dia engraçados de primavera. Era um calor debaixo daquelas telhas, mas quando chovia era mágico. Isolava todo som, toda vida. As gotas e aquele barulho sempre me confortaram. Mas que problemas tinha? Lá fui criança. Eu lembro do contra-luz na janela da cozinha que fazia de tudo sombra enquanto a chuva insistia lá fora.
Hoje meu quintal é ao ar livre e não consigo decidir se é melhor assim.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

Post Especial Final

Caros leitores, este é o último post especial em virtude do lançamento do meu livro “Poeta da Colina – Um Romântico no Século XXI” . Publiquei aqui alguns poemas do livro que lerei em Sarau no próximo dia 22/09.

Quero agradecer a paciência desta overdose de divulgação, e entender este momento importante dentro da minha proposta como escritor. Mais do que poder assinar os livros, mais que poder recitar os poemas, o importante é este carinho e visitações que vocês sempre me concedem, com ou sem livros. Muito Obrigado, espero sempre poder contar com esta companhia.

Abaixo então segue um último poema que recitarei no evento. Quem ainda pretende ir, sugiro que compre o livro até quarta-feira para dar tempo de chegar com folga em sua casa. Lembrando das 18h30 às 20h, dia 22/09, no Sebo Praia dos Livros, Avenida Bernardino de Campos, 331.

O link do livro está aqui na barra lateral.

Obrigado mais uma vez.

“Livrai-me” (05/10/2007)

Preciso agora ocupar-te
Serão palavras breves
Algum tipo de adeus
Não sinta-se traído
Pelas promessas antes feitas
Elas criaram uma casa de vidraça
Um lugar sem movimento
Onde não cabe nem um grito
Entenda-me, por favor!
Preciso gritar mais alto
Preciso quebrar as janelas
Percorrer os caminhos da solidão
Chegar na realidade do olhar
Abafar os pensamentos
Perdoa-me então papel
Ficarei bem mais em paz
Fala que ouve-me bem
Que sabes o porquê
Divida comigo essas lástimas
Essas injustas palavras
Contigo já dividi tantos amores
Deixa-me agora este espaço
Dê-me toda essa distância
Preciso de tua eternidade poética
Pra poder esquecer-me no momento
Queria ausências sentidas
Mas desta vez só desapareço-me
Cansei do ódio, da ignorância
Ou da pior plena consciência
A verdade domina-me
De maneira desesperadora
É real, simplesmente real
Não cabem desejos nem sonhos
São apenas poucas palavras
Elas precisam ganhar corpo
Um relapso de coragem
Resta-me então só você
Sei que encontrarei tudo por aqui
Em alguma linha você me guarda
Em um verso sincero qualquer
Entrelinha, entrelaçado, permeado
Memória, concreto e ilusão
Efêmero, eterno, igual
Entranhas, âmagos e afins
Tudo aquilo que te faz fim!
Tudo aquilo que te faz começo!

Ass: Danilo Mendonça Martinho

Post Especial #1

O poema a seguir está no livro “Poeta da Colina – Um Romântico no Século XXI” e será recitado na Noite de Autógrafos do próximo dia 22 de Setembro. O evento terá cobertura de foto e vídeo da produtora Tripé De Ideias.

(OBS:O livro só está a venda pela internet. O tempo média de chegada do livro depois de pedir são 3 dias úteis.)

“Só de Passagem” (20/04/2006)

A vida se isolou hoje
Nos carros engarrafados
Salas vazias, casas abandonadas
As pessoas fogem de si próprias
Todos para os mesmos lugares
Tentando algum dia escapar
Onde é longe demais?

A vida se esvaziou
Foi deixada para trás
Saturada, insana, sufocante,
Hoje descansa dos indivíduos
Espera pacientemente a volta
Daqueles que procuram sem achar
Mas por enquanto só esqueça
O mundo não é o mesmo
Habitado apenas por animais

A inércia tomou conta
Aceitei sem lutar
Talvez esteja fraco
Corações partidos
Cicatrizes diárias
Talvez seja consciente
Fechei meus olhos
Soltei sua mão

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Uma ideia” (01/08/2011)

 

Talvez ser feliz não seja tão complicado assim. Não podemos ser todos os sonhos, mas quem disse que um já não será suficiente? É provável que tudo se resuma as escolhas do dia a dia. Sorrir, abrir a janela, olhar o horizonte, fechar os olhos, respirar a vida, sentir o suave do Sol ou o cheiro da chuva, abrir os braços, acreditar, firmar os passos, realizar-se, libertar, ficar em paz, encontrar saídas, fidelizar-se à emoção, suspirar, caminhar, sonhar, enxergar a vida sempre como possível.
Ser feliz pode ser bem fácil quando não ficamos a esperar que um outro nos faça.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Existência” (03/07/2011)

Não sei quando cheguei
Muito menos se escolhi
A lembrança é um fragmento
A infância uma escuridão
A consciência começou tarde
Ainda não sei quem sou
Como humano uma máquina
Como razão uma essência
Para onde ir?
O viver não é coerente
As ações são aleatórias
Não há respostas
Apenas uma única perspectiva
Mutante, amarga e esperançosa
Preciso agir enquanto não volto
O que me trouxe me levará
Não saberei como
Nem fará diferença
O ser é somente um agora
Todos viremos a dexistir

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Rotação” (17/07/2011)

Quando voltar aqui
Não fará diferença
Tudo que nos leva
Jamais há de retornar
O mundo é feito de nuances
Nem sempre visíveis
Mas nada escapa do sentimento
Cada vez que se olha para alma
O reflexo se transforma
A palavra que dói
Também perde significado

Se um dia voltar
Não será pelo passado
Não seremos os mesmos
Queira algo novo
Pois tudo que fui
Abdiquei junto de ti

Ass: Danilo Mendonça Martinho