“Tangência” (27/02/2012)

Estavam todos ali
Num canto de vida
Espremidos na sombra da fuga
Igualaram diferenças
Apertaram seus silêncios
Jogaram os olhos no horizonte
Uma esperança fortuita
Um destino paliativo
O outro voltaria a incomodar
Sua brevidade era aliada
Mesmo assim preferiam-se estranhos
O que há de tão desesperador
Na palavra que alcança o outro?
Nossas faces são os avessos da alma
Espantalho de tudo que é curioso
Escapam todas as peculiaridades
Vistas a olho nu do espaço
Distorcidas na ponta de nosso ego
O mundo é turvo para confianças
Assim permanecemos intactos
Trocando o mal da espera ao sol
Pelo mal da espera amontoados
Somos capazes de nos espremer
Num pedacinho de vida
E não tocá-la

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Solidão Pública” (01/02/2012)

As portas ainda fecham
Penso no que ainda é segredo
As fronteiras são pros outros?
Nos muros somos paradoxos
Seguros de tudo que não nos toca
Incertos de tudo que se poderia sentir

Essas trancas sem chave
Castidades aos corações
Nosso pedaço ainda livre
Que palavras só vivem em diários?
Quais cartas não podem ter destino?
Que almas deixam de respirar?

Arrombei todas as fechaduras
Nem o vento me agrediu
Como se o mundo tivesse espaço
Descobri que a multidão é outro esconderijo
Despi-me das dores e cicatrizes
Entendi que por aqui, a vida só passa

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Apesar” (26/01/2012)

Impressiona-me os pesares da vida
Ancoramos em todo cansaço
Carregamos a mágoa na carteira
Nos tornamos sempre sobreviventes
Um olhar além da lágrima
Um sorriso depois da palavra
Um verso a ignorar o ponto final
Inadvertidamente somos um corpo que insiste
Abraçados a motivos frágeis
Acreditando que não nos sobrará apenas
Mas seguimos a excluir nossos pedaços
Sentimentos de nossa história
Ignorando que também nos fazem parte
Carregamos este fardo à toa
Não podemos viver com ressalvas
A liberdade é, apesar de nada.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Duas Unidades” (18/01/2012)

Eu criei um sentimento dentro de mim. Destes que a gente não cria para si. Alimenta, dá carinho, idealiza nos mínimos detalhes. É fato que o tamanho é apenas uma estimativa, é preciso colocá-lo no mundo e ver até onde. Acreditamos e esta é a primeira semente. A dúvida é sempre se acreditaremos sozinhos. Tem planta que só germina a dois. Guardado dentro de mim estava isto que ainda não tinha sentido. Alegre, completo, recíproco, sincero, disposto. Era raro demais meu querer, confesso. Mesmo assim não somos nada sem nossas escolhas. Passei por ilusões, sentimentos que não voltaram, até mesmo forcei-me a acreditar que seria possível ter, sem ver ou tocar. Tudo me venceu. Permanecia comigo a chance e nada mais. Caminhei por muitas outras almas e algo além do que a palavra traduz me chamou para perto de quem hoje rega a mesma roseira que eu. Diferente de tudo que poderia esperar, a semente vingou e cresceu por lugares ainda mais profundos, e o melhor, não nasceu só em mim.
São complicados estes sentimentos que se cria para os outros, que se enfeita e veste a espera que em alguém também sirva. Tudo baseado numa concepção, sem garantias da realidade. Sim, pode ser vão, podemos ter que recomeçar, é um desejo ao acaso, uma tentativa que nem sempre cicatriza. Insistimos por nós, e tudo que criamos é por si, um pedaço que seja. Há muitos horizontes para nascer até a estação certa. Não me peça por certezas, tudo pode vingar nesta vida com as condições favoráveis.
Eu senti, e seguia ouvindo o que sentia, até que um dia me disseste: “gosto tanto quanto”. Foi a primeira vez que tive a noção do tamanho do amor por mim. Não sei o que pode dar certo, basta-me a medida do coração.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ensaio sobre o perdão”

Dote dos grandes
Dom dos raros
Humanidade em gestos
Teu coração cabe?

Aprender a ser dor
Tirar o pedaço que não é teu
Fazer paz de feridas
Viver do retalho
Dar abrigo as sobras
Será que satisfaz?

Diante teu opressor
Apagada a ilusão do sonho
Servido o cru dos corpos
Abre-se mão do querer?
Ou dissipa-se o interesse?

Penso que perdôo
Pelas virtudes que vencem
Mas não posso fechar os olhos
A tudo que não me importa
A culpa e o rancor
São laços de união
E a ausência do perdão
O que te mantém no aqui

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ilusão ou crença” (29/12/2011)

Faz tempo que quero lhe falar: a palavra que me serve nem sempre me veste. Ela constrói um universo, é um signo intraduzível. Só porque falamos a mesma língua não quer dizer que possamos nos entender. Os contornos são de sentimentos, mas há algo de infinito, de inconsciente, que o verso não carrega. Fotografo um amor de ninguém, descrevo uma lágrima de uma janela qualquer, simulo uma chuva apenas pelo cheiro.
A palavra engana. Embriaga nossa sede pelo poder. Somos soberbos aproveitando-se do fato que não existe quem nos conteste. Eu faço discursos sobre a vida e o amor. Eu faço verso sobre o fim da tarde e rimo com as estrelas. Eu acho que sei, como você também acha. Nossa palavra não é uma certeza, não determina uma verdade se quer. Sua força é repetir-se até não lembrarmos que há alternativas além dela. Nossa fala é a construção de nossas ilusões. Somos particulares e parciais ao olhar o mundo. Dizendo coisas de um amor que desconhecemos o significado; de uma vida que não sabemos o destino; de um humano meramente idealizado. Quem somos nós para dizer alguma coisa?
Somos ninguém. Ainda sim, os únicos capazes de construir qualquer coisa baseado em algo que um dia tenha acreditado. Como a felicidade.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ensaio sobre o improvável” (03/12/2011)

A vida é um encontro insensato. Somos tantos, perenes, distraídos, algumas vezes desesperados. Temos diversas línguas e outras tantas linguagens. Almas que carregam imensidões de sentido e um pulsar único que dá ritmo ao passo. O encontro é exatamente quando tudo desacelera, quando finalmente há um chão debaixo dos teus pés, e o tempo vira um pouco mais nosso. Eis então toda nossa improbabilidade, nossa fórmula sem resultado, a soma mais complexa da humanidade. Como juntar dois?
Foi quando a vida me acordou envolvido em um abraço, inebriado pela essência na minha pele. Ao olhar para trás é impossível determinar um quando, é como se o agora tivesse sempre existido. Poderia dar outras voltas no mundo e não voltaria aqui. Tem dias que são brechas inteiras de um universo onde com sorte podemos levar. Assim, contra todas as chances, nos encontramos, e encontrar a vida é raro.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Espere” (01/12/2011)

Quando a tristeza bater
Quando a alegria chegar
Quando a dor contrair
Quando o sorriso não conter
Quando o adeus falar
Quando o abraço envolver
Quando o fim sentenciar
Quando a mão abrir
Quando a distância impor
Quando o beijo salientar
Quando o rosto virar
Quando as flores nascerem
Quando a foto desbotar
Quando a alma sentir
Quando o corpo esfriar
Quando a palavra declarar
Quando o olhar desistir

Quando amar…
Não será melhor do que nenhum de nós

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Virando a página” (14/11/2011)

Desenho um novo contorno. Quero outra cor para este cotidiano. Dispenso os tons de cinza, abro a janela e evito as gotas escorrendo pelo vidro. Lavo o rosto, deixo um sorriso no espelho, volto a me preocupar com minha roupa. Faço superstições ao tropeçar, planejo alguma fala perdida, roubo flores no parque. Invento novos motivos para um encontro. Visto-me de um novo espírito notável, recuperando algum reflexo de vida. Desfaço os esconderijos, falo sem mais pudores ou restrições de sentimentos. Na busca de qualquer inteiro firmo meu passo, abraço de novo o risco. Há algo nascendo e a chance é a melhor coisa que podem te dar. Abro o peito para o mundo, pois tem algo aqui fora. Além de qualquer alma, há algo que a completa. Esboço uma nova realidade e vão se construindo os personagens. Tudo agora é possível, como não ser feliz com isso?

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Paciência” (14/10/2011)

O romance vai voltar
Independente da primavera
Logo, indiferente as minhas vontades
Preciso apenas acomodar o vazio
Ver o horizonte como mais um passo
Deixar envelhecer a lembrança
Caminhar de mãos com a solidão
O real é que vai me salvar

Não vou abandonar um centímetro de vida
Quero tudo plenamente mais uma vez
Não abro mão nem dos pedaços
Sairei do sonho para a vida
Enquanto não vale dormir
Não aprisionarei o meu sentir
Tenho certeza de que ele irá voltar

Ass: Danilo Mendonça Martinho