“Carta do Desencanto” (06/11/2011)

Amor, venho esvaziar todo seu sentido. Eu que um dia roubei teu significado do dicionário. Já sou incapaz de repetir o abraço. As flores murcharam, abandonei-as em um inverno qualquer. Levei-te para toda palavra, te fiz contorno do meu universo. Meus olhos padeceram de cor, você escureceu em algum tom de cinza. Escrevo para desconstruir-te, apagar a marca do meu horizonte.
Tua falta não alimenta a solidão do meu quarto, já não é nem mais sombra. Desfaço meu sorriso a cada reciprocidade que não posso lhe dar. Desenlaço meus dedos em versos no papel cheio de letras frias. O “te” já não conjuga com você. Engoli o gosto amargo de não te querer. Preciso me desmanchar de qualquer virtude, desvencilhar-me da esperança. Não sou. Quero voltar a ser comum, paisagem, memória e talvez nem isso. Há de sobrar entre nós apenas um substantivo indefinido. Aqui mando a última coisa que posso lhe dar: Amor .

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Paciência” (14/10/2011)

O romance vai voltar
Independente da primavera
Logo, indiferente as minhas vontades
Preciso apenas acomodar o vazio
Ver o horizonte como mais um passo
Deixar envelhecer a lembrança
Caminhar de mãos com a solidão
O real é que vai me salvar

Não vou abandonar um centímetro de vida
Quero tudo plenamente mais uma vez
Não abro mão nem dos pedaços
Sairei do sonho para a vida
Enquanto não vale dormir
Não aprisionarei o meu sentir
Tenho certeza de que ele irá voltar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Fato Consumado” (13/10/2011)

Duas almas na incerteza do amanhã
A beira da impossibilidade do “nós”
Tatearam as saliências de seus corpos
Salivaram desejos por toda pele
Descobriram os limites do prazer
Para abandonar todos os pudores
Mergulhados na satisfação mundana
A simplicidade da nudez
O primitivo instinto de querer mais
Abstinência do tempo pelo eterno
As marcas dos arranhões nas costas
A paixão maior que a razão
Saciar a chama até o último fôlego
Traíram as certezas do futuro
Ao consumar a vida com o agora

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Por trás do pano” (04/10/2011)

Não é teu olhar perdido no infinito
Nem o contraste em preto e branco
Não é teu jeito discreto de andar
Nem o mundo que esvazias sem notar
Não é tua pele, teu sexo
Não é a imagem que construo de você
Nem a essência que deixa ao passar por mim

Perturba-me são teus lábios cerrados
O medo envolto neste selo já umedecido
Brinca de desenhá-los com o dedo
Belisca-os em repreensão ao desejo
Mas jamais eles partem
Seja falta de aprendizado ou esquecimento
Teu sorriso não valeria ao menos um ensaio?

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Um ensaio sobre o amargo” (21/09/2011)

O telefone já não toca. São as sutilezas do silêncio que esvaziam aos poucos a presença. Não dá para negar o suspiro de liberdade, sentimentos também pesam. Descobri recentemente as fissuras em meus princípios. Não me angustia minha decisão, nem seus motivos. Mas abandonei uma relação, não foi sem feridas. Em uma inocência acreditei que jamais criaria uma mágoa, uma tão bem acabada, tão marcante, tão longe de minhas verdades. Inocências crescem. Não sinto falta de nada neste quarto, não porque esqueci, mas na verdade nunca coube. Não olho para isso como falha, desperdício, penso que assim é a vida. No mais apenas me incomoda que a única alternativa ao amor seja a dor. As cicatrizes são mais necessárias do que digo e imagino. É, não há alternativa quando se admite que não se ama. Por isso nesta penumbra de fim de dia sobra este gole seco, cheio de realidade, esperança, dores, pesares, verdade e duramente sincero. Prefiro esta dose aos paliativos humanos.
Um brinde.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Anti-herói” (14/09/2011)

Rasgam mais algumas palavras
Sentimentos largados no chão
Toda voz parece embargar
Mais infâmias sobre o amor
O coração anda sofrendo
Facilitaram as distâncias
Subiram-se paredes de concreto
O tempo virou efêmero

Olho ao redor nas entrelinhas
Há tantos porta-vozes do sentir
Tanta alma em carne viva
O amor escapa pelas entranhas
Invade toda prosa
Vira arma na mão do rancor
Razões de uma emoção
A verdade de um passado
Dissipada no presente

Somos o século do absoluto
Uma geração cheia de certezas
Que definiu o amor
Decidiu tudo que é justo
Sabe apontar o dedo na cara
Desaprendeu a olhar no espelho
Reflexos do que negamos

O amor sofre em nós
Mas jamais foi nosso
Não faça dele um mártir
Vítima das nossas expectativas
Como tudo que aqui nasce
Ele tenta…e também falha
Nobre é admitir-se vil

Ass: Danilo Mendonça Martinho

"Trilogia"

“Amor de Praia”

Ah, se todo amor fosse assim a beira-mar
Molhasse os pés, sem arrastar na correnteza
Subisse a maré, sem afogar as esperanças
Refletisse o céu, sem roubar as estrelas
Ah, se todo amor beirasse meu mar.

“Amor de Campo”

Ah, se todo amor deitasse em uma varanda
Esticasse a vida na rede e um sonho na paisagem
Adiasse o segundo para fazer valer o minuto
Fosse como a brisa: um carinho sem levar
Ah, se todo amor dormisse na minha varanda

“Amor de Cidade”

Ah, se todo amor coubesse em um olhar
Uma presença que dispensasse a palavra
Uma verdade que não precisasse de provas
Um encontro que não terminasse efêmero
Ah, se todo amor não fosse apenas meu olhar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O Amor que Desconheço” (01/04/2007)

Passo pelo amor da minha vida todos os dias
Ela fica para trás na busca por chegar lá
Lá onde nenhuma promessa me foi garantida
Lá onde os sonhos também não estão
Lá onde encontrarei o puro e real
Ali na próxima rua, virando a esquina
O incerto, o dúbio, o abstrato

Todos os dias meu amor espera na porta da igreja
Eu estou com meu smoking, mas nunca chego
Saio para outras festas, danço com outros pares
Encontro sorrisos em outros abraços e pernas
Tenho mil namoradas e nenhum amor
Termino aqui mesmo por este chão
Frio, concreto e intransponível

Meu amor, todos os dias, me compra flores
E eu sempre insensível as deixo secar
Eu não passo por nosso apartamento
A geladeira está vazia, falta carinho e atenção
Uma foto de uma chuva que pegamos
Uma cama desfeita guardando memórias
Paixão, voracidade e ilusão

O amor da minha vida gasta horas ao telefone
Fico com som de ocupado em vez de sua voz
Quando vai me ligar é no momento que não estou
Eu, por mania, não retorno minhas ligações
Ela não gosta de insistir e se repetir nas mesmas
Eu e ela somos totais desencontros
Despreocupados, desavisados, distraídos

Eu faço constantes juras ao meu amor
Falando a verdade, ela nunca me ouviu
Nunca parou para ler minhas poesias
Teria inúmeros motivos para odiá-la
Mas por apenas um motivo não o faço
Estou naquele momento de ficar
Atordoado, escuso e complicado

Meu amor insiste em me desmentir
Conta aos amigos que está sozinha
Mas não posso culpá-la por isso
Todas minhas cartas ficaram em gavetas
Todas minhas palavras ficaram entre paredes
Assim nós dois permanecemos
Alheios, estranhos, distantes

Ass: Danilo Mendonça Martinho

Você pode ouvir este poema no próximo dia 22 de Setembro na “Noite de Autógrafos+ Sarau” do livro “Poeta da Colina – Um Romântico no Século XXI”. Para ganhar o seu autógrafo basta levar o seu exemplar. (Compre aqui)

Conto com vocês.

“Se puder…” (30/10/2007)

Esquece-me mente, em um breve momento de piedade
Sei sofrerei as conseqüências, só que mais tarde
Poupai meus passos deste peso a toa
Se existe em mim, como grita tão alto?
Se existe em mim, por que simplesmente não te calo?

Esquece-me hoje, e se possível amanhã também
Sua possibilidade diária me assusta
Insistindo nas minhas contrariedades
Por que não sussurra e me põe a dormir?
Por que não se senta, e apenas descreve meus sonhos?

Lembra-me mente, em um breve momento de saudade
Permita-me um leve vôo de liberdade
Pouco importará o que se faz real
Queime minhas asas se for tolo o suficiente
Queime minhas asas se eu ousar mais

Lembra-me hoje, só posso agora
No momento que me enxergo fora da razão
Aproveita que esqueci de proteger o coração
É impreterível que me tome pelos braços mais uma vez
É impreterível que não me deixe escapar para sempre

Ass: Danilo Mendonça Martinho

Você pode ouvir este poema no próximo dia 22 de Setembro na “Noite de Autógrafos+ Sarau” do livro “Poeta da Colina – Um Romântico no Século XXI”. Para ganhar o seu autógrafo basta levar o seu exemplar.

Conto com vocês.