“Cangote” (19/01/2012)

Faço morada junto aos cabelos mais rentes
Respiro pele sem essências artificiais
Aqui meu corpo encontrou encaixe
Na cabeceira dos teus sonhos
Vejo as colinas até teus lábios
A planície até teus seios
Mapeio teus jeitos no olhar
Sinto todas as suas expressões
Minha mão corre suave
Envolve a cintura e descansa
A posse se entrelaça nos dedos
A alma liberta-se no amor
Aninho-me nesta penumbra
Enquanto ainda não somos amanhã
Moro em um pedaço do eterno

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Duas Unidades” (18/01/2012)

Eu criei um sentimento dentro de mim. Destes que a gente não cria para si. Alimenta, dá carinho, idealiza nos mínimos detalhes. É fato que o tamanho é apenas uma estimativa, é preciso colocá-lo no mundo e ver até onde. Acreditamos e esta é a primeira semente. A dúvida é sempre se acreditaremos sozinhos. Tem planta que só germina a dois. Guardado dentro de mim estava isto que ainda não tinha sentido. Alegre, completo, recíproco, sincero, disposto. Era raro demais meu querer, confesso. Mesmo assim não somos nada sem nossas escolhas. Passei por ilusões, sentimentos que não voltaram, até mesmo forcei-me a acreditar que seria possível ter, sem ver ou tocar. Tudo me venceu. Permanecia comigo a chance e nada mais. Caminhei por muitas outras almas e algo além do que a palavra traduz me chamou para perto de quem hoje rega a mesma roseira que eu. Diferente de tudo que poderia esperar, a semente vingou e cresceu por lugares ainda mais profundos, e o melhor, não nasceu só em mim.
São complicados estes sentimentos que se cria para os outros, que se enfeita e veste a espera que em alguém também sirva. Tudo baseado numa concepção, sem garantias da realidade. Sim, pode ser vão, podemos ter que recomeçar, é um desejo ao acaso, uma tentativa que nem sempre cicatriza. Insistimos por nós, e tudo que criamos é por si, um pedaço que seja. Há muitos horizontes para nascer até a estação certa. Não me peça por certezas, tudo pode vingar nesta vida com as condições favoráveis.
Eu senti, e seguia ouvindo o que sentia, até que um dia me disseste: “gosto tanto quanto”. Foi a primeira vez que tive a noção do tamanho do amor por mim. Não sei o que pode dar certo, basta-me a medida do coração.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sintomas do Amor” (17/01/2012)

A brisa é de ar quente na nuca
O horizonte recorta uma silhueta
Dedos deslizam como gelo na pele
Um aninha-se no peito
Outro encontra abrigo nos cabelos

A manhã que brilha em outro corpo
A proximidade embaralha a vista
O rosto que reflete na vida
Um abraço que completa
Um beijo que não quer acabar

O sonho que não acorda
As cartas que encontram destino
O olhar que não se desvia
Um corpo que deita na cama
Outro que deita ao lado

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Amor Desengano” (07/01/2012)

São as flores no jardim
Os contornos do sonho
A entrelinha da poesia
O desejo inconsciente
A imagem idealizada
Uma esperança no horizonte
Um desencontro constante
Tem cheiro da brisa do mar
Monta um cavalo alado
Deixa presentes na varanda
Confunde-se com o vento
Levanta a saia
Preenche a alma
Põe teus pés no chão
Cega-se por tua beleza
Declara ao pé da porta
Discursa ao pé do ouvido
Releva teus medos
Conhece todo seu gosto
Surpreende todos os dias
Enfeita teu caminho
Adorna teus cabelos
Não solta tua mão
Abraça sem amanhã
Não pede nada mais
Basta-se no olhar
Vive do sorriso
Projeta tudo para o infinito
É uma construção abstrata
O amor…são várias ilusões
Antes de ser realidade.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Paixonite” (03/01/2012)

Há um poema dentro de mim. Destes de marejar os olhos, de sentir orgulho. Só pode ser um poema de amor. Detalhando os caminhos pelas cicatrizes e encontrando algo desacreditado, um sonho sem visitas, tua verdade mais bem protegida. O poema mistura versos e prosa despreocupado de rimas e intenso na escolha das palavras. Sim, falará dos beijos molhados e dos corpos livres. Mas também vai lembrar da primeira carta guardada no criado mudo, próximo da nossa fé. Vai lembrar do olhar debaixo da chuva. Provavelmente descreverá a beleza de um ponto de vista totalmente parcial. Ele carrega a minha palavra mais preciosa e um ponto final elegante. Completa os sentidos que deixei pelo caminho, refaz meus passos por tudo que aprendi, abre os braços para tudo que não sei. Será uma composição que não saberei reproduzir, única, de forma bruta e deverá permanecer em palavra. Um poema que sussurra, mas não quer sair. Está a espreita de um raiar de Sol mais adequado. Ele é muito natural, mistura estrelas e flores com sentimentos. Quase tem cheiro. É um horizonte preenchido, uma paz conquistada, uma rima com o “você”.
Estou perdidamente apaixonado por tudo que ainda é silêncio.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Segredo” (15/12/2011)

O sentimento não é um limite
Não posso esboçar tua face
Não saberia descrever sua alma
Pois você pode ser tudo
Tenho medo de construir este Tu
Há muitas palavras em silêncio
Posso seguir linhas sem rima
Na tradução imperfeita do olhar
Tenho que insistir enxergar-te
Você não dá dicas como o vento
Visto palavras tão aleatórias
Nem sempre aportam em outros corpos
O que navega por ti, tem destino?
Minha chance é que seja alma
Um coração há de guardar teus segredos
O sorriso revelará sua morada
Poderei finalmente ser verso
A palavra que nunca disse
Penso apenas se de posse do sonho
Resolverei então calar-me

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“A emoção chegou primeiro” (04/12/2011)

Em nenhum momento pensei em nós. Não perguntei a ninguém o que achavam, não calculei o que fazer. Foi só uma breve coragem de lhe buscar. Antes que todos meus passados chegassem e antes que meus medos racionalizassem, e ainda antes de me convencer de que não era capaz, que tantas vezes me foi negada a chance… Eu acreditei no coração que pulsava pela curiosidade de ser feliz. Meu abraço completou-se em outro corpo e abdicou de todo resto. Meu pensamento invadido pela presença constante alimentava minha alma e dava força ao meu passo. A direção foi ficando óbvia dentro de outro olhar. Não tinha como duvidar do que sentia, aliás, é tudo que tenho. Foi quando te ofereci compartilhar uma vida e todas as razões que surgiam em nossas palavras foram se desfazendo na nossa frente, eu soube o que meu âmago sempre soube, o quanto te quero.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ensaio sobre o improvável” (03/12/2011)

A vida é um encontro insensato. Somos tantos, perenes, distraídos, algumas vezes desesperados. Temos diversas línguas e outras tantas linguagens. Almas que carregam imensidões de sentido e um pulsar único que dá ritmo ao passo. O encontro é exatamente quando tudo desacelera, quando finalmente há um chão debaixo dos teus pés, e o tempo vira um pouco mais nosso. Eis então toda nossa improbabilidade, nossa fórmula sem resultado, a soma mais complexa da humanidade. Como juntar dois?
Foi quando a vida me acordou envolvido em um abraço, inebriado pela essência na minha pele. Ao olhar para trás é impossível determinar um quando, é como se o agora tivesse sempre existido. Poderia dar outras voltas no mundo e não voltaria aqui. Tem dias que são brechas inteiras de um universo onde com sorte podemos levar. Assim, contra todas as chances, nos encontramos, e encontrar a vida é raro.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Um inteiro de amor” (25/11/2011)

Seguro meu terço
Junto minhas mãos
Ainda sinto teu cheiro
Que agora se espalha pelo cobertor
Teu beijo deu ritmo ao meu coração
Teu carinho aconchegou minha alma
Tornas-te meu amanhã improvável
Assim me devolveu a chance
Construí-lo próximo da felicidade.

Não estou aqui para promessas ou pedidos
É nossa essência que vai assumir a possibilidade
O romance é nosso leme
Quero ir de encontro ao que sinto
Este gosto por quere-te
Todo resto fica bem simples

Concedida a graça do nosso encontro
Resumo essa prece
A um sorriso.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Anulação” (09/11/2011)

Andamos de mãos dadas
Beijos na fila do cinema
Jantar aos sábados
Abraços fortes e comuns
Olhares com brilho exclusivo
Um verso virou rotina
O romance sempre amanhecendo
O encontro quase um dever
Os presentes não são mais surpresa.
O que uniu diluiu-se
Temos um anel de compromisso
Um retrato na cabeceira
Uma comodidade incômoda
Saciamos efêmeros desejos
Sentimos por definição
A presença virou costume
Perdemos um pouco a cor
Nos confundimos com a paisagem
O amor nos tornou comuns.

Ass: Danilo Mendonça Martinho