“Dois”

O sol nasce por trás de outro corpo
O sorriso ainda é um resquício do ontem
A memória de ter deitado ao seu lado

O cheiro da casa se mistura
Um pão na chapa outro mergulhado no leite
As nossas desavenças são assim em detalhes

Meus quadros enfeitam a sala
Teus livros ganham a prateleira
Nós construímos este lar

É a escolha do programa de TV
Pensar no que fazer para janta
Rotinas que precisam da companhia certa

O silêncio que não desespera
O colo que sempre conforta
Somos portos de nossas almas

Tudo que faz disso mundano
Tudo que faz disso único
É tudo que quero para sempre

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Intransigente”

Não há apelo ao coração
Argumento, conselho, aviso
O próprio corpo desiste
Olhos cansados de lágrimas
A razão mergulhada na emoção
Ninguém pede, mas todos querem
E ele ama sem restrições

Sentir é natural
A questão são as possibilidades
Intensidade, desejo, caráter
Tudo precisa se encontrar
Ou ao menos a disposição para mudar
Todos tem seus limites
Quem pertence as suas fronteiras?

Ninguém precisa de pressa
Certezas são altamente voláteis
O orgulho é uma armadilha
É preciso saber abrir mão
Reconhecer um sorriso aberto
E não discutir com o coração

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Resenha”

Um coração que bate
A razão que se perde
Uma mente que se entrega
O âmago que contrai

Uma lágrima que cai
A falta que faz presença
Um todo que se torna sozinho
A certeza que não vai embora

Um corpo que parte
A saudade que se cria
Um abraço que volta
A alma que se conforta

Um sorriso que nos encontra
O olhar que não se distrai
Um vislumbre de felicidade
A esperança que não volta atrás

Uma verdade que se omite
Uma imagem que suspira
Um vazio que nos martirize
Até mesmo um silêncio que nos invada

O sentir sempre vale uma palavra
Mesmo que seja apenas amor.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Pazes”

Hoje posso perdoar
Entendo que foi tudo passagem
O olhar que chamei de Amor
Ora foi reflexo, ora foi vazio
Aprendeu a ser passado
Eu cresci ao seguir em frente
Na época um passo na solidão
Agora já é um entre tantos
Todos me levaram ao encontro

A dor é um bom termômetro
Não há como evitar o choro
Restará sim o rancor do que não foi
Só a alma completa nos liberta
Não hesite em se magoar
O mundo inteiro pode ser doce
Apenas seguimos a provar

Tudo cai em desuso
Até mesmo a melancolia
Coração que encontra companhia
Não sabe mais voltar atrás
A palavra do amante
Não tem crédito com os solitários
Mas não lhes desejo meu hoje
Quero sim que tenham um amanhã

Hoje também me perdôo
Amar nunca foi demais
Abrir o peito nunca foi em vão
Sei que fui seco, fui duro
Em desespero abracei um coração
Só que sentir não se constrói
O que precisamos é de um depois

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Rochas”

Será que o amor é caça nesses tempos?
Há tanta dor espalhada pelos olhares
Penso que só pode ser causa de predadores
Técnicas ultrapassadas ou talvez ausência delas
O coração é um infeliz perdido no fogo cruzado

Ninguém nasce sabendo estender a mão ao próximo
Mas também já não se faz questão das gentilezas
Ao agarrar o sentimento…sufoca, arranha, maltrata
O rastro na terra é de lágrimas
Os corações que ressecam, viram pedra

Doer é tanto da vida quanto amar
Mas não façamos disso nossa regra
Não vamos ficar atirando flechas ao deus-dará
A errar, sim, nobremente continuaremos
Mas com a tristeza sendo um velar que valha a pena

O amor não é caça, nem caçador
Ele não tem papel nessa peça, é apenas paisagem
Somos protagonistas das palavras
Somos coadjuvantes dos sentimentos
Tolos a procurar pedras preciosas
Escondidas dentro do peito

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Meu bem – me quer”

Meu amor não me arranca pétalas
Nem me guarda em uma cúpula de vidro
Estou exposto ao enlace de seus dedos
A mercê do sopro de seu lábios
Vivo onde posso lhe sentir da pele à alma
Sei que aqui fora, chove, ou o sol que não descansa
Só que aqui meu respirar não pesa sobre o tempo
Ser livre é poder escolher seus limites
Minhas fronteiras se confundiram com as suas
Não dependemos do acaso, nem da sorte
É teu carinho suave sobre a pele
Teu abraço gentil e protetor pela manhã
E um olhar que sei que não divide
…Moro em um coração onde só floresço

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Não me morra de saudades”

A saudade não quer fazer da falta uma rotina
Por isso te sinto cada dia que parto
Sou outro, pois me deixo completo contigo
Prefiro-me incompleto a te ocultar na alma
Tudo periga escapar entre as horas
Então não me importo que o amor vire agulha
Não pense que a distância me faz doente
Ela me faz crescer para suprimir qualquer espaço
Tenho a certeza que não precisava
Que te quero ao lado pro resto da vida

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O sentir não tem nome”

Desenhar o amor é muito fácil. Todo mundo já deve tê-lo feito, provavelmente mais de uma vez. É que se descobre que diferente coisas lhe cabem, talvez até mesmo tudo, mas nem tudo te serve. Seus traços podem reproduzir conceitos, pessoas, memórias, e (acredite) dores. São formas que experimentamos, nem sempre voluntariamente. Fico pensado nos moldes que não se encaixam. Será que arrastamos o amor, ou mesmo o deformamos para nos servir? Há muito na conta dele. O romance segue de uma maneira particular, obedecendo escolhas e essências. Sabemos, o humano erra, e também muda. O amor não esmaece, nem se dissipa, são os quereres que são outros, são os limites da alma que se atingem. O amor segue, só amor. Viver tem variáveis tão infinitas. Talvez o correto seja deixar esse desenho em aberto, não é preciso ter pressa, há muitos enganos quando só se precisa de um acerto. Não falemos dele, que apenas sente.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Não sei se é Natal” (26/12/2012)

O vidro trabalhado distorce o nascer do sol que me acorda. Desperto em uma memória muito viva. As cores da folhagem, do céu, das paredes e do sofá. Tudo está intacto. Queria poder trazer outras pessoas aqui. Não me recordo exatamente dos natais que passei neste lugar, mas jamais esqueço a melhor forma que a vida me acordou. O mundo preocupava menos é verdade, mesmo assim assim aquela natureza trazia uma paz inigualável. Já mudei tantas vezes minhas cama na busca deste raio magnífico, sem sucesso. Hoje quando a luz chega, meu corpo já está vagando há algumas horas. Talvez o importante é que o momento ainda é vivo.
Do outro lado da janela há um avarandado que cerca toda casa. Nos pilares de tijolos laranjas diversos ganchos para descansar as redes. O vidro do amanhecer, faz na verdade parte de uma porta, dessas que as casas tem para receber convidados sem passar pela cozinha. Jamais foi aberta. Mais adiante há um lago entre duas grandes árvores que costumávamos subir. Na esquerda o campo de futebol improvisado e na cerca os pinheiros enfileirados. A casa era um único silêncio. A sala da TV e os quartos ficavam no lado oposto das janelas. Um batente sem porta separava tudo da copa e da cozinha. Eu de olhos abertos, aguardava. Logo tinha o café em família, logo o quintal estava aberto e poderíamos todos se perder em mais um dia.
Não lembro se era natal, só sei que todo ano isto era meu presente, aquele que mais queria…a felicidade.

Ass: Danilo Mendonça Martinho