Não custava

No meio do vagão o vendedor sem mercadoria tinha apenas sua sinceridade. Despido de promessas só lhe restava a realidade. A verdade é que são muitas realidades e entrar na do outro parece, cada vez mais, uma distância intransponível. Não sei se o silêncio, se os olhares que o evitavam, faziam por costume, com remorso, com raiva ou desprezo. As pessoas pareciam tão longe que era difícil identificar qualquer sentimento e talvez por isso, pela indiferença, tenha doído ainda mais. O vendedor saiu do script e já não pedia ajuda, só queria que alguém lhe visse, que alguém ao menos o fizesse sentir que fazia parte. Deixou o vagão mais surrado que entrou, talvez a fiscalização que lhe tirou as 6 caixas de chocolate tenha sido mais gentil do que aqueles que lhe tiraram a humanidade.

“É…..” (27/08/2019)

É triste
Que escolhemos o ódio antes do amor
Que atacamos antes de escutar
Que julgamos antes de compreender
Que preferimos defender um do que todos

Como a vida respira debaixo desse concreto?
Como a alma sobrevive essa opressão?
O que chamamos de liberdade
Construiu nossa prisão

O orgulho é um bem perecível
Reina sobre uma terra arrasada
Sem opinião, só bravata
Sobra a violência de um ego ferido

Tenho medo de não enxergarmos as consequências
Tenho medo desses pensamentos cruéis
Tenho medo dessa intolerância explícita
Tenho medo que não tenha volta, nem saída

É assustador o horizonte que se forma
É desconcertante encarar esse espelho
Todo dia tem um depois
Como iremos viver nele?

“Em defesa do amor”

No nosso grande coração encontramos lugar para o perdão. Temos boa vontade com a vida e com as pessoas. O que me surpreende é nossa falta de paciência com o amor, principalmente depois que ele chegou tão perto. Os namoros da adolescência são superados eventualmente. Não ligamos tanto para aquelas paixões fulminantes. Só que com o tempo nossos encontros são muito mais sobre a possibilidade do amanhã do que o agora propriamente dito. Queremos a garantia de um futuro, queremos um amor para fazer companhia, para dar suporte, para podermos contar. Nossa experiência anterior deveria já nos dar a ideia de quanto isso exige para encontrar. O amor em nenhum momento demonstra fraqueza e tenta desvendar em outros essa ideia que temos dentro de nós. O amor é tão sagaz e eficiente que acerta de primeira com muitas pessoas, mais do que a gente imagina. Mas não é fácil e erros acontecem. Sim o amor erra. Não que ele não exista, não que ele minta, mas em certos casos o ambiente se torna inabitável para ele. Acontece depois de uma semana. Acontece depois de 15 anos de casamento. O que mostra como ele chegou perto. Quantas histórias duram tanto? Quantos podem dizer que aproveitaram esse tempo de um relacionamento? Mas a verdade é que há poucos argumentos para um coração partido. Para alguém que viveu laços tão profundos, que se entregou tão completamente, ver tudo se desfazer. Eu sei, eu entendo. Mas deixar de acreditar no amor é a resposta? Durante sua vida toda ele te armou tantos encontros, te fez tão feliz, doeu também, mas passou. A dor é a gente que decide levar, o amor está sempre conosco. Ele nunca deixou de tentar, enxergou muitos pares, fez de tudo para te fazer feliz. Se ele acerta somos gratos e quando ele erra o abandonamos? O amor não precisa de uma segunda, ou até mesmo, de todas as chances que pudermos dar a ele? Afinal se ele acertar uma vez, não é tudo que precisamos? Não é curioso que o amor, logo ele, precise de uma defesa? A decepção, a tristeza, fazem parte. Não deixe o amor de fora. O fato é que independente do que sentimos, ou de como encaramos nossos momentos, o amor não vai desistir de nós e eu simplesmente acredito que nós também não deveríamos.

“Intersecção”

No semáforo onde a vida que não espera, pode também se perder. Seu Nelson tentava segurar os quatro netos enquanto seus olhos perdidos no horizonte diziam mais que qualquer palavra. A filha havia sumido faz tempo, ele mal lembrava o que era descanso. Seu Nelson fez o que era preciso, fez o melhor que podia sabendo que no máximo seria o bastante, só não fez escola, não teve estudo, não teve escolha. Este senhor visivelmente fatigado pelos anos, por um caminho que não lhe demonstrou bondade mesmo com toda sua perseverança, enxergava agora na ponta de seu cigarro uma metáfora de sua existência. O pouco prazer que tinha era o mesmo que lhe trazia o fim.

Ao seu lado, embaixo de um terno preto e gravata impecável estava Doutor Clóvis. Distinto em todos aspectos, parecia vir de outro planeta quando colocado ao lado de seu Nelson, mas compartilhavam a mesma calçada. Doutor Clóvis estava sozinho, deixara a pouco tempo o Fórum onde defendeu mais um cliente em troca de muitos trocados. Formado na melhor instituição pública do país, capa de revista, sua família não conheceu necessidade. Para ele o tempo lhe servia e aquele semáforo era um desafio a sua paciência, e soltava fumaça pelas narinas como um touro encarcerado.

Eis a única outra semelhança entre “seu” e “Dr”, fumavam a mesma marca e assim que o farol abriu sem titubear, duas bitucas se encontraram na sarjeta, sujando a mesma cidade.

“Sobre novos anos” 30/12/2019

Não é sobre esquecer o passado, tentar transformá-lo, brigar, deixar para trás. É sobre deixar cada coisa eu seu lugar. O passado tem o espaço dele, ele fala, ele ensina, ele mostra, só não muda. Temos que aceitar quem ele é, e não carregá-lo para onde não pertence. O passado é poderoso. Ele guarda tudo que nos tornamos, todas as coisas boas, as conquistas, o sorriso. Ele também guarda as coisas que aprendemos que não queremos ser, aquilo que queremos melhorar em nós. É um eterno guia, um manual em construção do que a vida nos ensina. Mas como qualquer livro ou palavra de poeta, ele só instiga e mais nada pode fazer. Agir sempre estará neste agora, nas nossas mãos. Cada coisa em seu lugar. O passado está conosco, o futuro é um norte, e o presente é hoje….e hoje….é sempre ano novo.

“Palheta de Cores”

Crescer muda muitas coisas na vida. É complicado ver tantas inocências se desfazerem, tantas cores desbotarem. O sorriso era mais fácil, o mundo cabia na palma da mão, e tudo era uma diversão. Éramos mais livres em nossas atitudes e pensamentos, nascemos extremamente sinceros. Meu mundo sempre foi completo nem que passasse o dia entre a janela e a porta do quarto. Bastava-me. Pois não sei bem quando vieram me mostrar tudo que me faltava, tudo que ainda não tinha. Que direito tinham de fazer em meu universo um lugar para tanta ausência? Não me adiantava mais passar a chave, a vida lá de fora já havia invadido meu interior, e assim o colorido foi ficando preto e branco. Pelos dias, o que acreditava para este espaço meu na existência foi desmoronando entre cicatrizes e decepções. Há quem persista, há quem desista, há quem vá com a maré. E todos tem suas razões. Fiquei em algum meio termo, sendo incapaz de manter algumas idealizações, e com tantas outras que guardei para mim.

Recentemente, percebi em um amigo amores e alegrias das quais não imaginava mais ser possível, coisas de um passado distante. Ainda mais breve na história outro companheiro se viu “re-educando-se” ao romantismo que sua história tinha feito abandonar. Eu mesmo, depois de doer em mim e no próximo, vagando pela condição da minha solidão real, encontrei a felicidade que parece ter nascido comigo. Talvez crescer seja uma travessia, e o quadro preto e branco a chance de pintá-lo como quiser.

“Muro Branco”

A “pixação” não é considerada nada além de sujeira, e para todos basta que encontrem um jeito de se livrar disto, nem que a solução seja multar quem não o faz. Mas há algo maior escondido por trás desta apropriação da cidade por um código pessoal e indecifrável. Por que ir até o alto dos prédios, por que arriscar sua própria vida para “sujar” uma fachada? Ele não faz por dinheiro, ele não faz por prestígio, ele não faz simplesmente para aparecer para o mundo. Em algo essa pessoa tem que acreditar para subir 20 andares e se equilibrar de ponta cabeça. A apropriação daquilo que lhe é negado diariamente pelo nosso sistema social, através de uma expressão particular e enigmática ao olhar da sociedade, é uma forma de questionar este universo de cartas marcadas, este horizonte que insistimos em construir na nossa janela, mas que não existe. O mundo é mais cru. Há um grupo gritando por algum tipo de atenção, cuidados, de valorização, que vive à beira, que assiste e vive a barbárie, que se incomoda o bastante para querer ressignificar o espaço, para questionar a autoridade, para lutar pelo que acredita. Basta um deslize fora dos padrões de comportamento gerais que excluímos pessoas como se nada do que acontecesse fosse conseqüência também de nós. Nos transformamos assim como em um passe de mágica, em apenas indivíduos. É assim que seguimos a nos abandonar. Na falta de alguma consciência que pense, e sem saber a quem ou como recorrer, apelamos para aquilo que não é do humano, o divino.