“Quadro” (31/01/2010)



Um dia fechei meus olhos…
Virei um sonhador
Não havia nuvem
Que fosse apenas nuvem
Não havia horizonte sem história
Não havia pôr-do-sol sem melancolia
Não havia olhar sem romance
Apaixonava-me por idéias
Sorria com as possibilidades
Vivia pelos sonhos
Os dias desfaziam-se em versos
A métrica descia a rua
A rima trabalhava incessantemente
Tudo com ponto final
Nada ficava sem resposta
Não que houvesse muitas perguntas
As palavras eram certeiras
Educadas e bem vestidas
Impossíveis de se negar
Prosa ao pé do ouvido
No fim de tarde
Um abraço carinhoso
No começo da noite
Tudo que era desejo
Era esperança
Uma alma cheia de certeza
Pronta para um vôo qualquer
E principalmente cair

Até que tudo se dissipou
O céu abriu, a noite caiu
O horizonte se perdeu
Os olhares partiram
A paixão esfriou
Desfez-se a prosa
Confundiram-se as palavras
A dança ficou sem par
A cama ficou vazia
O âmago amargurado
E os pés no chão

Quando voltei a abrir meus olhos…
Virei poeta

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Relicário” (30/01/2010)



Garota do coração de prata
Disseste que teu relicário
Permanece vazio
Como é triste o vazio
É uma amargura, uma angústia
Ele não tem forma
Não tem peso, nem tamanho
Pode até ser infinito
O segredo é que ele também acaba
Basta apenas uma fresta
E que você vire a primeira página

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Poeta de Papel” (25/01/2010)



Pobre poeta,
Sem as palavras certas
Dono de seus versos
Aquém dos corações
Rimas desajeitadas
Sentimento desarranjado
Falta-te a sinestesia
Perdeste o olhar
Pareceu comum
Enganou-se com o tempo
Precipitou inspirações
Buscou em vão
Quis o mundo
Quis o céu estrelado
Quis….mas
A poesia ficou pequena

Pobre poeta,
Rasga suas cartas
Chora os sonhos
Amarga o peito
Desdenha e maltrata
Sem consciência
Sem controle
Desfez-se no papel
Ficou sem resposta
E agora teme
Não mais voltar
Depois de tanto
Depois de tudo
Depois…mas
Não o bastante

Pobre poeta,
Que não esquece
Quando esteve
Frente a frente
Sem máscaras
Despido de tradições
Livre de receios
Cheio de coragem
Uma única verdade
Mais um respiro
E…
Nada pode dizer
Além de um clichê
Ah, poeta, pobre de você

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Se o romance pode morrer…” (14/01/2009)



Por tudo que indicam as metáforas
Por tudo que revelam os olhares
A cada instante de falta de luz
Cada decisão de não voltar atrás
Cada desejo que se perde
Cada amor que se mata
Cada gesto que hesita
Cada palavra de injúria
Cada sonho destruído
As mentes em colapso
As lágrimas de desespero
As súplicas de tristeza
Os horizontes perdidos
Os passos em vão
O suspiro sem esperança
O abraço sem verdade
As pernas sem apoio
Os dedos sem par
Uma alma vazia
Um coração que bate
E pode morrer

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Não Estive” (13/01/2009)



Um denominador comum
Um químico inerte
Corpo estático no espaço
Distraído me esqueci
Subi a um sonho
Sorri e lhe abracei
Arrumei um quarto
Decorei tua parede
Tudo nos mínimos detalhes

Foi curioso deixar-me
Sem grandes avisos
Sem restrições
Sentimentos em aberto
Vulnerável a qualquer golpe
Longe demais
Sem chances de reações
Assim permaneci
Por um tempo
Em uma memória
Não posso determinar

Ao voltar esperavam
Olhos arregalados
Logo se desviaram
Como gostaria
Saber o que viram
Por um momento
Não senti perdido
Respirei uma esperança
A minha essência
Valeu um olhar

Mas não estava

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Um Lugar”



O mundo gira de forma estranha
Não sei dizer se são os sonhos
Mas as sensações estão fora do lugar
Acho tudo isso desproposital
Atrapalharmos nossas mentes e corações
Mas sou confuso para ser claro
Cheio de condições para existir
Uma liberdade criada a muito custo
Desflagelada em uma única insanidade
Não sei mais ser estável
Sofro de labirintite de sentimentos
As vezes apaixonado
As vezes desesperado por um amor
As vezes livre e distante

Na próxima ponta do Sol
Terei de ser algo
E não nego minha preocupação
Quem serei aos olhos do amor?
Me perturba apenas…
Perder o que está ao alcance das mãos
Perder seja o que for é ruim
Até mesmo a razão
No fim talvez seja isso
Perceber demais os erros
No fundo o mundo gira muito bem
É provável embora inverificável
Que esteja onde deva estar.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Casa Vazia”



Vou parecer incoerente
Uma loucura permanente
Que me acomete nas tristezas
Mas, por favor, me entenda
Quando venho a dizer
Que são teus sorrisos
Que me trazem a solidão
São os inúmeros abraços
Que me lembram o vazio
São os olhos enamorados no metro
Os telefonemas no fim de tarde
Os carinhos a flor da pele
A certeza de pertencer ao próximo
Praticamente tudo que me cerca
Por mais lindo que seja
É o que mais me entristece
Amargura meus pensamentos
E me deixa só, incrivelmente só

Eu sei meu bom Deus
Que nada pretende com isso
A vida não é assim proposital
Mas a primavera está por acabar
E será mais uma que vai passar
Vão-se diante meus olhos os casais
E minha flor morre sem par
A casa vazia machuca demais

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Primeiro de Janeiro” (03/01/2010)



A garoa cobre a cidade lá fora
Como uma mãe abraçando os filhos
Hoje é um dia sem memórias
Estão todos conscientemente sem rumo
Escolheram outro mundo
Amanhecer em um sonho novo
Alguns ainda nem foram dormir

Este dia é alguma espécie de esperança
Ao primeiro minuto da madrugada
Todos unidos em praça pública
Festejando talvez a sobrevivência
Festejando novos desejos
Festejando o que já tem
Festejando definitivamente o fim

O ser humano às vezes não consegue
Não enxerga claramente o horizonte
Precisa do ponto final
Até mesmo as histórias mais lindas
Ou tristezas grandes demais
O ano novo é uma espécie de mágico
Que transforma tudo em passado
Numa memória distante demais

Logo tudo se esvazia
Ruas em completo abandono
No dia das novas esperanças
Todos escolheram ir para casa
Escolheram seus amores, suas famílias.

No meu caminho de volta
Só eu, a cidade e a garoa
Carinhosa e fina
Inaugurando um novo mundo
Espero descobri-lo antes do fim

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Recomeço” (29/12/2009)



Não é o fim de ano
O tempo não carece,
De nosso controle
Há dias livrei meu peito
Recoloquei minha paz
Hoje me encontraram
Palavras cuidadosas e gentis
Destas de fim de dias
Tiram corpos de órbita
Elas não têm hora marcada
Tomado pelo feitiço
Deflagrei a folha em branco
Pois antes do passado
Quero o que é vivo
Deste breve instante

Meu corpo misturou-se
Angústia, medo, surpresa
No final voltei ao começo
Repeti o exercício falho
Algo instalou-se em mim
Não posso chamar de dúvida
Jamais seria uma incerteza
Não é nada comum
Nem posso compará-lo
Audacioso vou nomeá-lo:
Recomeço

Não posso…nem consigo
Começar a descrever
Estou respirando vida
Tudo é tão real
Chegar até aqui
Justifica qualquer coisa

Eu estou bem
Muito bem, obrigado.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Teu verso me falta” (20/12/2009)



Meu sonho não levantou comigo
O telefone não tocou aos raios de luz da manhã
Um leve sorriso da esperança que passa
Um grande suspiro da ilusão que acaba
Tento me acostumar com toda essa espera
Tento não alimentar meus desejos
Mas meu inconsciente me pega de surpresa
Ao me jogar nos sentimentos que ignoro
Seria mais simples se fosse palavra
Poderia lhe descrever em detalhes
Poderia ditar nosso encontro
Nossa união seria algo inevitável
Mas fico sempre a espreita
Pensando em oportunidades
Me precavendo para não lhe perder
Mas pouco sei quando dizem sobre “eu e você”
Será eternamente fora de meu controle
Perderei meu apetite e não saberei o que dizer
E ao teu lado só espero que veja
Por favor, não parta sem me conhecer
Quem sabe entenda o que não digo
Eu sei…não é fácil
Mas sou essencialmente poesia
A espera de quem possa rimar

Ass: Danilo Mendonça Martinho