“Quem está perdido só pode aceitar direções” (18/03/2010)



Por tempos estive em suas mãos
Orientações cegamente seguidas
Seu olhar não sobreviveu no meu mundo
Agora tenho minha própria janela
E você quer apagar meu horizonte
Lhe incomoda minhas resoluções
Como se abandonasse minha essência
Ao mudar o âmago de lugar
Como se agora você estivesse só
Mas você já desconhece a própria bandeira
Jogou fora tudo de único e particular
Vestiu todas as máscaras possíveis
Hoje já não se reconhece
Acredita estar me salvando
Mas foi incapaz de salvar a si

Este é meu bem estar
Nesta casa que visita a contra gosto
Foi-se o tempo em que partia
Entrava na estrada sem direções
Hoje não me importo com as certezas
Ou com sua inevitável falta
Meus passos me levam no caminho
E não há palavra para me contrariar
Os conselhos são baratos
Mas viver é de graça
E disto não abro mão

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Para não dizer…” (08/03/2010)



As flores que entreguei já devem estar mortas
Sei que com elas deixei algo a mais
Morreram também algumas inocências e princípios
Foi o primeiro voto de descrédito ao meu coração
Foi a última poesia que escrevi para alguém
As pétalas se desfizeram em solidão
Sem respostas, carinhos, avisos de seu destino
Apenas uma permanente esperança que se esvaziava
Duvido que tenha durado a primeira semana
Gostaria que tivesse rasgado aquela carta
Nunca as palavras valeram tão pouco
Nem angústias, nem sorrisos, nada lhe fizeram
Sua cara lavada hoje ainda clama
Que não há, nem houve, quem te amou

Não martirizo mais meus versos
Eles não merecem tais companhias
Faces que desejam os romantismos
Corpos que fogem na outra direção
Custou-me um vaso de flores para perceber
Que toda poesia presente em você
Era invisível diante do espelho
Quando pintei então teu retrato
Não reconheceu uma rima se quer
Apaixonei-me por quem enxerguei em você
Um alguém que não se permite ser

Deste mal minhas estrofes já não sofrem
Os poemas não chegam a nenhum endereço
As rosas não merecem fins tão trágicos
Jamais entenderão o que vejo

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“?” (06/03/2009)



O que será então
Quando for tarde demais
Quando o fim chegar
Quando o raio cair
O romance morrer
E a verdade mentir
As forças acabarem
Os muros cederem
Os sonhos morrerem
As palavras perderem a voz
E quadro, a cor.

Quem seremos então
Quando sem limites
Quando sem regras
Quando sem alma
Sem escrúpulos ou pudores
Preocupação ou solidariedade
Sem aliados ou fronteiras
Diálogos e acordos
Coração e humanidade
Quando apenas animais

O que será do mundo
Diante nossos medos
O que será de nós
Sem nossos sonhos

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O gosto da manhã” (27/02/2010)



O sol ilumina a cortina
E logo envolve a sala
O calor avança sobre nossa pele
Não ousamos nos mover

Não lembro quando a noite começou
Algumas rodadas depois
Entregamos nossos inconscientes
No desejo que escapou pela boca

Sei que a lua entrava pela janela
Abençoando nosso encontro
Enquanto nos envolvíamos
Sem vergonha do nosso pecado

Dormimos em um abraço
Que agora o dia quer separar
Mas vamos fazer disso eternidade
Não importa o que é preciso

Meu bem,
Como é delicioso
Poder lhe dizer bom dia
Sem nunca ter dito boa noite.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Abençoado” (25/02/2010)



Só havia uma estrela no céu
Quando a liberdade me visitou
Me tirou amarras e conceitos
Desnudo finalmente adormeci
Na paz sem adjetivos
Cheguei aos meus sonhos
Olhei em volta para ter certeza
Respirava, enfim, respirava
Esqueci do meu corpo
Descontrolei minhas feições
Fui intensamente feliz
Nem sei por quanto tempo
E já não importava mais
Tinha encontrado meu melhor
Pude simplesmente ser
E agora não quero mais partir
Agarrado a única estrela no céu.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“A conquista” (22/02/2010)



Uma imagem
Uma essência
Um sorriso
Uma verdade
Um poema
Uma memória
Um gesto
Um encontro
Um olhar
Um engano
Uma ideologia
Uma promessa
Um sonho
Uma utopia
Uma viagem
Uma casa
Um dia de chuva
Uma briga
Uma palavra
Um inconsciente
Uma decisão
Um suspiro
Uma insanidade
Uma coragem
Um abraço
Um carinho
Uma música
Um adeus
Basta se apaixonar
Uma vez que seja
O motivo não fará diferença

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Quando o dia esclareceu” (15/02/2010)



Foi uma caminhada fria
Cheia de perigos sentimentais
Não sabíamos onde estávamos
Falaram através de sussurros
Arriscaram alguns segredos
Os destinos chamavam
Mas negligenciamos os rumos
Estendemos a experiência
A vida se apresentava
Um novo bit de cores
Mas logo tudo partiu
Estreitaram laços de amizade
Cruzando suas experiências
Boas verdades e um cansaço
Maior que imaginado
Há quem ainda lute
Tínhamos a certeza em nós
O trem esvaziou-se
O sol invadiu as janelas
Era hora de voltar
Subi a trilha sem pressa
Já não queria mais pensar
O dia estava completamente claro
Como nunca havia antes

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sem Maquiagem” (12/02/2010)



Prefiro os rostos sem máscaras
Um par de olhos sinceros
Uma alma cheia de histórias
A decisão de ser única

Tem algo nestes seres
Peculiarmente interessante
Algo de mistério e de perigo
A mulher impossível

São sorrisos pontuais
Olhares oniscientes
Completa de certezas
Um coração protegido

Não querem atenção
Chamegos ou declarações
Apenas o silêncio ao saber
O amor nas entrelinhas

Estarei sempre despreparado
Mas insisto na conquista
Prefiro a nossa chance
Contra todas as outras

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sempre Ela” (09/02/2010)



Ela te coloca por maus bocados
Alegrias desenfreadas
Tempestades sem fim
Testa, duvida, descarta
Invariavelmente volta atrás
Confunde, brinca ou desconhece
Enlouquece qualquer razão
Toma tuas palavras
Não perde discussões
Ensina, desiste e não admite
Some sem explicação
Faz mudanças sem avisos
Bagunça o quanto for necessário
Adora uma surpresa
No último minuto, no fim de noite
Gosta de ter o controle
E de instigar tua decisão
Provoca de pirraça
Para ver se tem trapaça
Se o amor não é em vão
Esconde, foge, protege
Não tem a mínima paciência
Basta o primeiro sinal de maltrato
Brocha a flor, escurece o céu
Não volta jamais

Por isso todo cuidado
Não subestime
Não jogue fora
Não esqueça
A vida só quer teu bem
Trate-a com respeito
Pois não sabemos
O que a maré pode trazer
Ou resolver levar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sobras” (05/02/2010)



Não tem nenhuma lua cheia pela janela
Uma história no caminho pra casa
Algum vento noroeste
Alguma calçada rachada que seja

Não tem nenhum olhar profundo
Um beijo no meio da chuva
Um abraço de despedida
Algum desencontro distraído

Não teve nenhum sonho na madrugada
Nenhum âmago amargurado
Nenhuma mente em colapso
Algum desejo desenfreado

Não tem nenhum quadro na parede
Lençóis marcados de memórias
Um retrato no criado mudo
Alguma lembrança de um lar

Não restou nenhum papel rasgado
Uma prova de existência
Um resquício da verdade
Algum pranto solitário

A poesia partiu antes do amanhecer
Deixou a chave no chão e a porta aberta
Esvaziou o armário e uma vida
E jamais olhou para trás.

Ass: Danilo Mendonça Martinho