“Um dia” (27/03/2012)

Que saudade do profundo deste céu
Levando os pensamentos para longe daqui
O desenho de nuvens esparsas
Sobre esta realidade acinzentada
A janela do trem chorava
Outras vezes se abria
Sobre o mesmo caminho passava
Sem desvios ou rimas
O corpo andava estático
Por impulso do mundo
Em uma espera infundada
Fechava os olhos na saída do túnel

Entre os prédios rachados
Os carros sem rumo
As luzes apagadas
Os corações vazios
Olhava o horizonte
Achava um sorriso

A esperança é o improvável sentimento
Da felicidade que ainda não existe

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Leito” (16/03/2012)

Fecha os olhos e a janela
Vem ver o Sol nascer
A meia luz de um coração
Que espera por você
Não corre não
Amor não precisa de hora
Apenas um abraço e uma canção
Façamos de cada aurora
Um novo alvorecer
Se ponha nas minhas costas
Madrugue nos meus lábios
Dance seu corpo nas notas
Que derrubam teu silêncio casto
Deflagre o interior do sonho
E lembre que no caminho da realidade
Vais me encontrar risonho
Na alvorada dos teus olhos

Hoje dorme tranquila a felicidade
Sob uma garoa de outono

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Novo compasso” (15/03/2012)

Fecho a janela com um sorriso
A felicidade ficou dentro
Já tenho quatro cantos de mágoa
Precisava pendurar essa alegria
Há romance em todas as prateleiras
Agora a vida saiu do armário
Estou vestindo sonhos renovados
Sento na cadeira sem imaginações
A realidade encosta nos desejos
Meu suspiro preenche esperanças
O tudo também é aqui
Confessei tanto nessas paredes
Preciso contar as boas notícias
Assim quando me voltar ao íntimo
Também encontrarei minha paz
Quando ser feliz é possível
É sempre possível voltar a sê-lo

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O primeiro eu” (12/03/2012)

Juro que foi aqui
Entre essas mesmas grades
Enxerguei a vida
Respirava um ar de chuva
Sonhos suspiravam no asfalto
E ao céu rogava minhas aflições
Abracei inúmeros silêncios
Havia alguma paz na imensidão
Ali ancorei-me
Coisas que jamais me deixaram
Não eram verdades imutáveis
Não eram princípios conservados
Foram caminhos que escolhi
Destinos que voltei a mudar
Partindo dos sinais daquelas noites
Adiando o fechar da janela

Aquele parapeito não é tão longe daqui
Não penso que sobrevivi
Apenas me criei

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sereno” (06/03/2012)

A palavra pode precipitar
Morar nos desejos
Esquecer-se do corpo
Querer sem conquistar
Posso em toda inocência
Propor o que é do amanhã

A palavra pode ser tardia
Deixar a vida virar a esquina
Esperar o sonho acordar
Decidir depois do outro
Posso na inexperiência
Ver o agora partir

A palavra pode ser silêncio
O olhar de bom dia na cama
O sorriso na plataforma do trem
A mão que se entrelaça na madrugada
Posso com o passar do tempo
Não amanhecer longe daqui

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Antiga morada da paz” (28/02/2012)

Conheço muitas terras distantes, fictícias ou não, onde vagam corpos inóspitos. Lugares que passei procurando vida, que me juntei aos outros, que fugi de tudo. Há lugares, assim como o mar, aparentemente homogêneos, mas cheios de imensidão submersa. Caminhei, por muitas vezes, sem ser o único, o primeiro ou o último. Todos partimos para longe quando crescem nossas inocências, quando uma primeira parte de nós não pode mais acreditar. Vivi a esmo entre sonhos e passos. Acima de tudo, o incerto ficou companheiro e o resto virou uma tentativa de voltar. Não é fácil. Não posso dizer exatamente que sofri. Abracei solidões. Apaziguei dores. Acho que todo corpo encontra lugar nesse mundo, sozinho. Só depois de estabelecermos o “eu”, podemos pensar no “nós”. Foi em terras distantes que amadureci, em amores longes dos meus, em sonhos efêmeros, em sentimentos em construção. Só assim pude de encontrar completo. O mais surpreendente foi nos encontrar. Voltei.

 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Tangência” (27/02/2012)

Estavam todos ali
Num canto de vida
Espremidos na sombra da fuga
Igualaram diferenças
Apertaram seus silêncios
Jogaram os olhos no horizonte
Uma esperança fortuita
Um destino paliativo
O outro voltaria a incomodar
Sua brevidade era aliada
Mesmo assim preferiam-se estranhos
O que há de tão desesperador
Na palavra que alcança o outro?
Nossas faces são os avessos da alma
Espantalho de tudo que é curioso
Escapam todas as peculiaridades
Vistas a olho nu do espaço
Distorcidas na ponta de nosso ego
O mundo é turvo para confianças
Assim permanecemos intactos
Trocando o mal da espera ao sol
Pelo mal da espera amontoados
Somos capazes de nos espremer
Num pedacinho de vida
E não tocá-la

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Filtro” (26/02/2012)

Respiro
Insistência poética
Acreditamos na inspiração
Que o ar condensa sentimentos
Que a vida pode escapar em um suspiro

Inspiro
Na busca do não dito
A palavra que veste silêncio
Um amor nas penumbras dos olhos
Um querer nos contornos dos sorrisos

Expiro
Abro mão
O real se completa na liberdade
A posse não cabe no abraço
O dever seca os lábios dos beijos

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Filosofia” (18/02/2012)

Poderia voltar a desenhar todo universo
Seria incapaz de dizer o que mudou
Uma parte de mim tomou vida
Mas ninguém consegue lembrar da tua ausência
Nem mesmo as fotografias lhe ignoraram
Só meu olhar te desviava
Levou-me a ti com calma
Deixou em paz tudo que não foi
Girou a moeda e aprendi a deixar partir
Sobrou-me a liberdade de caminhar só
Não sei exatamente quantos
Nenhum deles foi simples
Até que um dia acordou comigo
No canto da boca, discreto
Agora não sei o que nasceu primeiro
O sorriso no meu rosto
Ou você no meu coração
Os dois parecem uma parte eterna de mim

Ass: Danilo Mendonça Martinho