“Um dia de cada vez” (10/09/2012)

Perdoa se o alvorecer parte
A felicidade é perene
Os caminhos que se desenham
Sempre voltam

A primavera pode ser a primeira
Mas os espinhos já feriram
O que vinga nesse jardim
É vida que desconsidera o tempo

O fim de tarde guarda a cor da memória
O mundo gira em nostalgia
O sonho recria o encontro
Acordar é sempre um novo desejo

Perdoa se a noite volta solitária
Não é preciso nenhuma aurora
O sentimento é a eminência
Do que já existe fora de si

Dorme com a certeza
O futuro é um lugar desconhecido
Mas para onde viajamos com a alma
Levamos quem a gente quiser

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O sorriso da palavra” (05/09/2012)

A palavra deixou de doer
Perdeu assim, sua companhia
A alegria figurou como desconhecida
Indigna de um comentário
Se fosse melancolia falando de felicidade
Reuniriam-se todos para aplaudir
Mas é apenas a verdade descrevendo realidades
O que é o amor se não derrama?
Nota pé de um jornal qualquer

Ninguém quer as palavras doces
O coração amargo não acredita
Mas compra tudo que é utopia
Cercando-se de um vazio
Como é difícil olhar em frente
Ouvir dizer que o sonho existe
E nem poder ver o teu desenho
Que triste fim à palavra sorriso
Descobrir-se solidão como o inimigo

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Amor é parte”

O mundo existe sem amor
A madrugada faz companhia
A penumbra suspira
O Sol se levanta
O horizonte colore
Os olhos resguardam
A alma ainda é profunda
A natureza respira
Entre cantos e sopros
A chuva vence o concreto
Alimenta vida
O passo segue em frente
O desejo continua doce
O abraço aconchega
A mão estende
O céu vira brigadeiro
O amigo dá risada
Nada vem de graça
Tem patrão, tem horário
Sorvete na praça
Jogo de futebol
Tem pôr-do-sol
O cansaço do final
Um lar para voltar
O pensamento que se perde
A esperança ainda vive
Tem sonho, tem reza
As estrelas brilham
A felicidade é possível

Viver com amor
É uma escolha

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Refeição a meia-noite” (21/08/2012)

Sobre a mesa o silêncio
À meia luz de um pensamento
Na penumbra da palavra
A paz suspira

Entre paredes inertes
Reverbera a falta nos ouvidos
A chance de fuga essencial
Para os meandros do que é próprio

Sento-me neste cômodo
Sirvo-me de calma
Desfaço-me por pedaços
Sou apenas um despercebido

Raros seriam os indivíduos
Que ao jantarem sós
Enxergariam na solidão
A grandeza de ser nada

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Amanheceres” (14/08/2012)

A madrugada ainda não nos deixou os olhos, mas os pássaros cantam anunciando o dia. A aurora parece nos perseguir ao longe e ficamos espremidos entre a manhã e a noite. O tempo nos é tão escasso que escapa enquanto precipitamos nossas mãos até a janela. Um gesto ainda meio sonhado que ao término já encontra as nuvens brancas do seco inverno. Sábios são os pássaros.
O humano acostumou-se a construir-se e viver sobre a natureza. Mas a conformidade não faz das coisas uma verdade. Não conheço flor que seja pano de fundo. Se pudesse dormiria de fronte ao horizonte para que o raiar viesse me lembrar da vida, e o encontro entre o sonho e a realidade não fosse tão súbito.
Penso que talvez se não invadisse a madrugada, o Sol me revelaria meus desejos e seria então só dar bom dia para a felicidade. Mas é provável que tudo permaneça na penumbra do amanhecer. Uma chance, como todo dia o é.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Endereço” (07/08/2012)

As paredes são de abraços
As janelas de memórias
Os armários guardam amores
Debaixo do travesseiro escondo desejos
Na cama deita a paz
A felicidade deita ao lado

O meu lar caminha junto
Basta fechar meus olhos
E me aconchego na melhor poltrona
Diante um horizonte improvável
Tudo se torna possível
Quando a vida passa por dentro

Peguei pedaços do caminho
Desenharei um imaginário
Erguido de palavras amigas
Coberto de sonhos
Quem sabe para onde voltar
Pode ir onde quiser

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Domingo a tarde” (20/08/2012)

Guardo sobre meus olhos uma esperança que você fique e amanhã bem cedo possa lhe separar os cabelos e beijar-te um bom dia silencioso quando sair para trabalhar. Deixarei a mesa posta e um verso para alegrar tua manhã. Se me faltar inspiração direi que te amo, e ele dispensa rimas. Falarei que ainda não aprendi a acordar anjos para me defender caso me cobre os carinhos matinais. Ah, como desejo lhe encontrar para o almoço, trocar palavras ou abraços nos dias mais difíceis. Imagino um futuro como se fosse agora e as rotinas fossem assim atemporais. Mas não fosse também, nossos mimos seriam outros e só me importa saber que ao final do dia encontrarei teus olhos e o amor que deixei contigo.

Hoje vivemos nestas beiradas de sonho com intensos dias que invariavelmente se acabam. A semana separa nossos corpos, mas nossos pedaços já foram trocados. É curto, as vezes insuficiente, mas acredito no amor como completo, que preenche uma hora da mesma forma que uma vida. Você é o norte de minha alma e com isso fico em paz com a distância. O sentimento que guardo na minha esperança é o mesmo que guardo contigo todo fim de domingo e você sempre traz de volta.

Nosso mundo ainda vai crescer um bocado até que nossos dias se cruzem como um só. O segredo que descobri é que domingos acabam, já nossa vida juntos continua. Logo a esperança desembarca nestas nossas beiradas de sonho…

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Para as Tardes Vazias” (31/07/2012)

Me faz companhia nas tardes frias, um amanhã. O sol vence o horizonte como que num carinho nos cabelos e levanta os olhos com uma brisa. A estrela solitária que brilha intensamente e sombreia o amor que dorme ao meu lado. A felicidade me preenche como o ar que respiro, mas ao contrário dele, não me deixa. A casa tem tons avermelhados como de uma memória viva. São os tons da alegria. Levanto-me para preparar o café e de longe observo no quarto dos fundos a criança que dormiu mais uma vez com os pés para fora das cobertas. Um filho é completar uma vida. Descer as escadas com estes amores repousando em paz é a certeza de um lar. Compro o pão fresco, enfeito a mesa. Logo os passos correndo da criança vão avançar sobre o corpo da mãe, ambos vão se matar de rir. E eu que por tantas vezes ouvi de longe pessoas se divertindo e me senti mal, distante, à parte; Desta vez vou chorar sem me conter, pelo maior presente que poderia ter nesse mundo. De olhos marejados beijarei minha esposa, abraçarei meu filho e nada me faltará.

Um homem com um sonho, não é um homem só.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Escola” (30/07/2012)

O nosso espelho envelhece
O sonho já não dorme
As paredes agora falam
A alma tranca a porta

Quando a dor arranha a pele
É preciso que sempre chova
Somos muitas coisas antes da cicatriz
Somos irreconhecíveis depois dela

O amor vai suspirar lá fora
A felicidade esmaecer na lembrança
O olhar adotar o silêncio
Viremos a velar a palavra

Num mundo desprovido de cor
O sorriso se confunde na paisagem
Como acreditar no horizonte
Sem diferenciar a tristeza da alegria

O sonho é como o vento
Não se vê, mas se sente
As vezes fica sem soprar
Mas ele sempre volta

É preciso se reeducar a chance
O coração as vezes azeda
Mas jamais estraga
A vida é sempre possível

Ass: Danilo Mendonça Martinho