“Desabafo Tardio” (29/08/2014)

Será que seríamos felizes se fôssemos mais simples
Sem a consciência de tudo que podemos
Sem a consciência de nossa liberdade
Sem consciência do nosso fadado fim

Será que seríamos mais livres
Se saíssemos sem ambição
Todo dia até o mesmo trabalho burocrático
Que sustentasse nossa vida fora dele
Nosso marasmo em frente a televisão
Nossos suspiros levados pela correnteza
Nossa casa sem saídas

Por que essa ideia de grandiosidade?
Por que não podemos deixar os dias passarem naturalmente?
Deixar a vida a cada noite apaziguar um pouco mais nossa alma
Deixar o tempo ser mestre do destino
Ir e vir nesse mundo sem escalas e sem sinais
Operário da humanidade, uma estagnação da evolução
Poder sentar a mesa e sentir-se inteiro sem nada que lhe falte
Sem nada lá fora que precise para se sentir bem

Uma vida humilde sem muitas regalias
Com um canto para dormir e outro para rezar
Com um dia para sair e muitos para ficar
Que possa respirar sem culpa de algo que esqueci
Uma vida não para marcar, apenas para viver

Divido-me entre a dádiva e o cansaço que a palavra me traz
Toda essa percepção sensível do mundo
Toda essa percepção do que sou e não gosto
Todos os sonhos que construo e não vivo
Todas ideias que não tenho coragem de ir atras
Todo potencial mal aproveitado
Essa vontade de se perder no supérfluo, no cotidiano, no banal

Vejo tanta felicidade em meus desejos
Mas em algumas madrugadas me pergunto
Será que seria mais feliz se desistisse

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“De um dia pro outro” (24/06/2014)

Meu rosto vai desaparecer
Eu mesmo vou esquecer
As companhias silenciosas
Que hoje me despeço
Só eu sei que vou partir
Reparo em todos os detalhes
Quando uma rotina muda
É provável que não vamos mais voltar

Então caminho sem pressa
Não evito mais olhares
O mais gentil que posso, sorrio
Quantas palavras nasceram aqui
Quantas vidas cruzei sem tocar
Observei mundos distantes
Que sentaram-se ao meu lado

Há uma nostalgia do presente
Tudo isso já é passado
Amanhã tudo se perderá
Já foram muitos caminhos
Distâncias se constroem rapidamente
Como se uma rotação da terra
Deixasse tudo do outro lado do mundo
O tempo é muito frágil

Nesta efemeridade dos dias
Digo adeus ao que não dura
As faces que não marcaram a minha
Ao caminho que permanecerá
Mas onde serei desconhecido
Basta dormir e a rotina será outra
Como se sempre tivesse sido assim

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Entre lá e aqui” (27/05/2014)

Fico com a impressão de que há algo do lado de lá
Muitos já partiram e começamos a questionar este aqui
Acredito que não é preciso cumprir nenhuma missão
Mas não conseguiria ir sem deixar algo para trás

Talvez tenha uma ligação forte com o passado
É difícil encontrar quem reconheça o que já estava aqui
Sinto-me parte do antes tanto quanto agora
Aproveito os contemporâneos mesmo que não sejam

Mesmo assim o lado de lá fica mais bem freqüentado
Seria egoísmo pedir para ficar mais do que precisam
Agora é inevitável a comparação na ausência
Depois que se cresce, por que, é uma pergunta que não se faz

É um disparate o que estão fazendo com o lado de cá
Que já não tinha Tom e Elis agora está sem Jair
O que podemos esperar do amanhã?
Seremos apenas nós e o que será que podemos ser?

Não sei há tempo para gravar um nome na história
Somos pares do efêmero na espera que a vida também passe
Ou tudo está apenas ficando longo demais
Como se mede daqui até lá?

Sei que meu lugar é aqui
Ainda é meu tempo e sou feliz de ser agora
Há tanto que já lutaram por mim
Quem sabe exista um exemplo para ser deixado para depois

O lado de lá vai sempre existir, só podemos mudar este aqui
Que todos encontremos um bom propósito
Para embarcarmos para Pasárgada sem receio
Enfim deixar toda saudade para trás

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Bença” (22/04/2014)

No mar de decisões maiores que nós precisamos de algumas garantias. Tentamos por todos os lados descredenciar o sonho e conforme a vida nos fazia seguir em frente o medo se diluia na vontade, no desejo, na estranha incerteza de sentir que estávamos certos. Pelos dias que se seguiram a Chuva caiu sobre estes pensamentos. De forma doce para que desistisse do guarda-chuva. Fazia tempo que não encontrava ela assim. Ao pensar na decisão não tive dúvidas e com um sorriso sussurrei: Bença Chuva.
Não lembro bem quando, mas não muito tempo depois, os questionamentos ainda seguiam dentro de mim, embora mais silenciosos. Entre as árvores surgiu aquele brilho intenso do sol quase que de propósito na minha direção. O mesmo Sol que me acordava na infância quando dormia na sala de minha avó. Até hoje é uma das minhas sensações favoritas acordar assim com esse raio de luz preguiçoso, que mal toca seu rosto. Meu corpo ficou em paz e falei sorrindo: Bença Sol.
Na janela confessionário onde debrucei com melancolias, aflições e filosofias adolescentes eu resolvi voltar. Minhas conversas hoje são mais esporádicas, não menos importantes. Agarrado contra as grades sentindo o vento e o céu azul minha palavra não precisa de pressa. Abro o peito para o universo que me criou e tento descrever o gosto dos sentimentos. Mas acima de tudo agradeço, pelo encontro, pela chance, pela felicidade. Bença Céu.
Pela manhã caminhei entre os eucaliptos sobre o chão de cascalho. Posso muito bem seguir pelo asfalto, mas são raras as chances de respirar este ar misturado de nostalgia. A vida parece mais presente em nós, como se tudo pertencesse. Todos acabaram me visitando para dar certezas e eu retribui. Bença Natureza, bença.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Inquietação” (24/03/2014)

Minha mente está querendo fugir
E não é uma questão de endereço
Adio tudo e tanto quanto posso
Conjugo as ações do tempo preciso
A sensação do dever me afasta
Mas a negligência é amarga e sufocante
E se todo dia for só responsabilidade?
Será que soube como crescer?
Permaneço insuficiente na inércia
Sem satisfazer a alma
Sem me empenhar nas obrigações
Não há metodologia que organize a vida
Pois não há tempo determinado
Apenas correndo

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sobre o que não passa” (19/03/2014)

Nossa alma é uma extensão do corpo a arrastar e tropeçar em tudo ao nosso redor. As almas sensíveis acabam por se deixar levar e se envolvem na dor ou na felicidade do próximo. Os solidários são a prova que o sentimento é eterno. Tudo que transcende o corpo foge de nosso controle, o que sentimos ficará nesse mundo muito depois de nós. A escolha é até quando, até onde estamos dispostos a carregar tudo que nossa alma guarda. O tamanho do sentir é uma questão de perspectiva e quanto certos valores acabam sobrepondo outros. Por isso amores podem virar vilões. Qualquer palavra que busque dar um fim é apenas a razão tentando dar sentido a emoção. A noite e o dia não mudam ninguém, mas o olhar é sempre diferente. É assim que um dia acordamos e descobrimos que aquela paixão já não nos move mais. Abandonar isso é abandonar um sonho. Nunca é fácil para ninguém quando sobra apenas realidade. A busca vira pelo estrago, pela justificativa. Você pode dizer que acabou e que já não sente mais nada, mas o amor há muito transcendeu seu corpo e está a influenciar todo seu redor. Para encontrar paz é preciso entender e ter a coragem de abrir mão. Nada termina sem motivo e nenhum sentimento desaparece. Aquilo tudo simplesmente deixa de te motivar, será sempre uma parte de você e do seu universo, mas que só cabe no passado.
Um dia encontramos esse sentimento recíproco do qual não sabemos viver sem, os outros temos que deixar para eternidade. A alma move o corpo. Uma alma em paz move o mundo.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Na falta da tempestade” (05/02/2014)

Uma cidade que não chove não tem bueiros assim como um coração que não sente não tem cicatrizes. Precisamos de tudo, especialmente da dor. Nossas alegrias nos completam, nos dão força, esperança……nossas dores nos moldam. Acho realmente difícil de acreditar que seu caráter não tenha se formado por uma angústia se quer. Embora improvável não seja impossível. Caso acredite fielmente nesta teoria quer dizer que a vida ainda te reserva uma mágoa para apontar a direção. Não me veja, por favor, como algum melancólico pessimista, na verdade sou bem feliz. Apenas estaria sendo no mínimo desonesto com todas aflições da minha vida, adolescente e adulta, a não creditá-las nada do que sou hoje. Mudei para não me sentir mais assim, mudei para encontrar o bem estar de minha alma, mudei e continuo mudando em busca do meu melhor. Lembro claramente das dores e vitimização dos meus sentimentos. Aprendi que só vivendo o outro lado da moeda poderia crescer. Nem toda dor tem culpados, apenas participantes. O fato é que a perda, a ferida, mexem conosco. A inércia perante este incômodo vai te consumir, te fazer até mesmo desaparecer. A solução é agir em busca deste lugar onde possa encontrar paz para tudo que te inquieta. É um erro pensar que vai passar ou que vai partir. Tudo que é nosso fica, principalmente a dor. Precisamos nos resolver para estarmos preparados para viver e sempre há muito por viver. Esteja disposto a sentir pois não há lugar no mundo que não chova, o pouco que seja.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sobre o depois” (01/01/2014)

O futuro não começa sem você
Nenhum passo existe sem a decisão
Todo sonho precisa de uma oportunidade
Para tudo é preciso coragem

Seja um pouco mais o que deseja
Se faça dos seus sentimentos
Espelhe o que há de mais sincero
Olhe o mundo nos olhos

Algumas coisas ficarão pelo caminho
Certezas serão questionadas
O desvio faz parte de qualquer rio
A vida sabe por onde ir

A busca é pelo nosso melhor
Nem sempre uma questão de mudança
A transformação é no mundo
Que ainda pode ser um bom lugar

Faça este acordo consigo
Reúna atitudes e palavras
Encha esta vida de sonhos
E ela trará esperança

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ideal” (17/11/2013)

Minha descrição, minhas adivinhações sempre estiveram erradas. A única coisa que sabia é que a vida me mostraria muito mais. Ela não deixou por menos. O que sinto ainda é indiscritível. Curioso algo que vive dentro de nós ser tão desconhecido. Só poderia descobrir isso contigo, minha alma jamais revelaria esse gosto se não fosse diante do amor verdadeiro, se não fosse na presença do que jamais a deixará. Quando coloco este sentimento nesta medida de eterno é que já não ligo ele necessariamente aos nossos corpos, muito menos a esse tempo. A impressão de já estar aqui antes de nós talvez não seja tão distante da realidade. Hoje ele toma partido em todos os meus planos de futuro. Não é invasão, eu não saberia o que fazer sem ele, não saberia o que sonhar. Vivi sem este sentimento e poderia seguir sem ele, mas é escancarado que não quero. Cada dia olho em frente e antecipo em meu coração todas as coisas que ainda passaremos nesta vida e a perspectiva deste amanhã faz este agora tão mais feliz. Desvendo mais de mim quando estou com você e sinto que sou melhor quando somos dois. Sem somar, apenas completando. Não sei o que a vida trará diante outros desejos, mas sei com quem enfrentarei todos os desafios. O que sinto ainda é só meu, mas é o mais próximo que já pude definir o amor, completo e atemporal.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Depois das Estrelas” (30/10/2013)

Nos jogos de sombras da madrugada ficamos a completar os espaços vazios e fugir dos nossos medos mais sinceros. Daqui tudo nasce, de cada penumbra e cada esquina um horizonte aparece por mais que as vezes nos pareça improvável. E eu que acordei meu corpo aguardo para também levantar minha alma. Ninguém nunca está só, mas por mais conhecidos que sejam os rostos eles são paisagem. A véspera da manhã é sempre a hora mais fria. Contra todo o bom senso é no meio de toda escuridão que a gente se encontra. A chuva que cai no chão quase sem vontade é a única coisa que quebra o silêncio da espera, logo a gente repara nas folhas levadas pelo vento e em um suspiro longo e profundo traz para dentro um pedaço da natureza. Sinto o gosto da estação e relembro como se fosse agora todas sensações que me esperam. As pessoas definitivamente mudam, o mundo talvez mude, mas a essência permanece. Não há segredo que é esse princípio conquistado há muito tempo que me desperta todo dia. É o que chamo de vida.


Ass: Danilo Mendonça Martinho