“Abraço de Adeus” (09/07/2012)

Tardes frias não são em vão
O mundo sente
Contorce, espreme…chove
Marcas da partida
Fica o humano sem a essência
Espalhada como confete em lembranças
O vento sopra para levar
Alguém encontrou sua paz
Nós teremos que reencontrar a nossa

Tardes frias se despedem
Pois tudo merece um adeus
Toda lágrima precisa escorrer
Os destinos e seus encontros
O coração agasalhado de abraços
A certeza do insubstituível
Doerão como o Amor
A vida não pulsa por apenas um

Eu vivi madrugadas inconcebíveis
Amanheci em um gelado dia de outono
Conforme se dissipava a presença
Descobri o quanto existia em mim
Ponderei sobre a estação fora de época
Não saberia imaginar algo melhor
A última lição foi sentir com o mundo
Sorrir pela vida…mesmo quando se vai

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ímpares” (04/07/2012)

Completar-se é apenas uma peça do quebra-cabeças neste mundo. Construímos nosso lar, preenchemos seu vazio. Mas do outro lado da janela do trem, na plataforma dos sentidos opostos seguem os desencontros. Almas que seguram mãos sem saber porque. Rostos que não se tocam, pessoas que se conformam. Não canso de ver desembarcar desilusões, trocando lugar com a solidão. A espera pelo sonho. Constante, cruel, fria, rotineira. Corpos recostados pelo tempo, olhos perdidos no fim do túnel. Há tanto sentimentos aguardando pelo encontro errado. Gostaria de vê-los embarcar sem destino, livres de dúvida. Mas essa liberdade é utopia. Eu parti, mas na procura de me reencontrar. Todos queremos um par.

Em algum nível o mundo sempre permanece aos pedaços.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ensaio sobre o romance” (20/06/2012)

Tudo para voltar ao mesmo velho canto do travesseiro, com a mesma tempestade caindo lá fora. A alegria reserva o mesmo leito da infelicidade, dorme ao lado da tristeza e acorda no frio de um inverno. Por todos os passos de nossas dores, ela existiu. Nos encolhemos vezes demais, e ela é dessas que se alcança.

Tudo começa quando se abre os olhos, cansado de seu inchaço e vermelhidão. Resolvemos olhar para o mundo nem que seja sem cor, nem que apenas sobre rancor. O olhar é um lugar de intempéries. Reside nele nossa intenção, já de muito frustrada, acolhida pelo medo. Em segundo plano tudo que queremos ignorar, como se pudesse impedir a beleza de uma flor. A vida te encara. No fundo dos olhos dela, como se fosse teu primeiro encontro, alguém olha de volta.

É quando abrem-se os braços. A esperança de prontidão que vence por pouco nossas resalvas. Mas o humano guarda essa vontade de se completar na vida. Mesmo que seja um vulto, mesmo que passe sem notar-te, mesmo que a estadia seja breve, mesmo que no fim a mão volte vazia…Não há como não estender-se a chance de que aquele próximo, seja seu único.

É quando se abrem os sorrisos. Seja um instante, seja a eternidade. Sabemos que nesse gesto tudo ficará bem, independente da palavra, da presença ou mesmo do amanhã. Basta este sorriso a cada novo encontro e tudo nesse mundo tem ao menos o sonho de ser feliz. Basta estar de olhos abertos.

O amor verdadeiro te faz chorar. Afinal a felicidade que finalmente preencheu aquele vazio, é digna de uma lágrima no velho travesseiro.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Volta e meia” (06/06/2012)

Faz tempo que não visito as palavras que condensam as dores em gotas de chuva. Tem me passado em silêncio a melancolia. Como se o amor pudesse realmente sobrepor a todo resto. Mas os céus ainda choram e as folhas ainda despencam. O concreto pode até não invadir a chama, mas revoga inúmeros abraços. Essa vida dói e contrai nosso âmago seja felicidade, sejam as tristezas. Ela está aqui para te fazer sentir sem meios termos. Nada menor que seu melhor te fará sobreviver aos invernos. Sem o amargo não se reconhece o doce e esse caminho poderá lhe parecer, mais de uma vez, o errado. Apenas faça da escolha algo teu. É provável que o outono venha despetalar teus amores. Uma raiz falsa só trará mais dores para arrancá-la. Meu conselho aos olhares que contemplam a vida escorrer melancolicamente pelo mundo gelado, é: plante bem esta tua solidão e , com um pouco de sorte, não haverá espinhos na primavera.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sentimento Inerte” (03/05/2012)

Faz frio
Ainda não é madrugada
O que seremos noite adentro…
As estrelas são escassas
O concreto deixa tudo mais preso
Entre paredes escondemos a face
Deixamos para trás vazios
O vento gelado sopra
Sussurros de uma solidão
Não haverá cobertor que a cubra
Mas a alma sobreviverá ao inverno

Há um lugar em nós
Guarda um sentimento improvável
O desenho de nossa felicidade
O abraço mais profundo
Um sorriso para toda brecha
Vive no corpo uma chama
Seja ainda sonho ou realidade
Que faz do mundo aconchego
Todos plantamos amor a vida
Que engrandece quando nos encolhemos.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Virada no Tempo” (28/04/2012)

Tem dias que são assim. Enrolamos o corpo no cobertor, escolhemos o melhor lugar em frente a janela e deixamos chover. A vida ganha outra perspectiva no prisma das gotas que irremediavelmente tentam se agarrar no vidro. Eu prefiro recostar contra o parapeito, ficar à beira de tudo, sabendo que não farei nada. Podemos ser apenas retrato. Esses dias de frio deixam tudo na ponta do nariz. Um íntimo que te faz acreditar no resto, um aconchego que te traz paz. O asfalto se veste de natureza refletindo as árvores das calçadas. Tudo respira, se aproxima, aperta-se, como se fossemos só inteiros. Gosto de pensar assim. Largar esse papel de peça. O viver é tão moldável quanto os sonhos, a diferença é que um deles está nas nossas mãos. Ao olhar para fora o que está por dentro, ficamos mais possíveis. É encolhido na existência que descobrimos o total de nosso ser. É assustador, tanto que o dia deságua sem nem percebemos. Precisamos de um tempo para olhar para dentro e assumir os nossos sonhos. De tempos em tempos crescemos, enrolados no mesmo velho cobertor.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Paradoxos Existenciais” (18/04/2012)

Sou palavra
Entrelinha em fuga
Um subjetivo traço
Em um horizonte contínuo

Serei fiel ao verso
Mesmo que a ti tudo esconda
A verdade jazerá aqui
Impublicável e exposta

Posso ser um imaginário
Pura construção
A ficção também existe
Basta vestir a fantasia

Como ser humano
Passível de um fim
Livre nas escolhas
Incapaz de dizer o bom ou ruim

No futuro não sei
A consciência é viver
O passo não vai tão longe
O sonho faz o que quer

Indeterminado sujeito
Oculto minhas intenções
Postergo meu respirar
Num pretérito de palavras

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Um dia” (27/03/2012)

Que saudade do profundo deste céu
Levando os pensamentos para longe daqui
O desenho de nuvens esparsas
Sobre esta realidade acinzentada
A janela do trem chorava
Outras vezes se abria
Sobre o mesmo caminho passava
Sem desvios ou rimas
O corpo andava estático
Por impulso do mundo
Em uma espera infundada
Fechava os olhos na saída do túnel

Entre os prédios rachados
Os carros sem rumo
As luzes apagadas
Os corações vazios
Olhava o horizonte
Achava um sorriso

A esperança é o improvável sentimento
Da felicidade que ainda não existe

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sereno” (06/03/2012)

A palavra pode precipitar
Morar nos desejos
Esquecer-se do corpo
Querer sem conquistar
Posso em toda inocência
Propor o que é do amanhã

A palavra pode ser tardia
Deixar a vida virar a esquina
Esperar o sonho acordar
Decidir depois do outro
Posso na inexperiência
Ver o agora partir

A palavra pode ser silêncio
O olhar de bom dia na cama
O sorriso na plataforma do trem
A mão que se entrelaça na madrugada
Posso com o passar do tempo
Não amanhecer longe daqui

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Antiga morada da paz” (28/02/2012)

Conheço muitas terras distantes, fictícias ou não, onde vagam corpos inóspitos. Lugares que passei procurando vida, que me juntei aos outros, que fugi de tudo. Há lugares, assim como o mar, aparentemente homogêneos, mas cheios de imensidão submersa. Caminhei, por muitas vezes, sem ser o único, o primeiro ou o último. Todos partimos para longe quando crescem nossas inocências, quando uma primeira parte de nós não pode mais acreditar. Vivi a esmo entre sonhos e passos. Acima de tudo, o incerto ficou companheiro e o resto virou uma tentativa de voltar. Não é fácil. Não posso dizer exatamente que sofri. Abracei solidões. Apaziguei dores. Acho que todo corpo encontra lugar nesse mundo, sozinho. Só depois de estabelecermos o “eu”, podemos pensar no “nós”. Foi em terras distantes que amadureci, em amores longes dos meus, em sonhos efêmeros, em sentimentos em construção. Só assim pude de encontrar completo. O mais surpreendente foi nos encontrar. Voltei.

 

Ass: Danilo Mendonça Martinho