“Anti-herói” (14/09/2011)

Rasgam mais algumas palavras
Sentimentos largados no chão
Toda voz parece embargar
Mais infâmias sobre o amor
O coração anda sofrendo
Facilitaram as distâncias
Subiram-se paredes de concreto
O tempo virou efêmero

Olho ao redor nas entrelinhas
Há tantos porta-vozes do sentir
Tanta alma em carne viva
O amor escapa pelas entranhas
Invade toda prosa
Vira arma na mão do rancor
Razões de uma emoção
A verdade de um passado
Dissipada no presente

Somos o século do absoluto
Uma geração cheia de certezas
Que definiu o amor
Decidiu tudo que é justo
Sabe apontar o dedo na cara
Desaprendeu a olhar no espelho
Reflexos do que negamos

O amor sofre em nós
Mas jamais foi nosso
Não faça dele um mártir
Vítima das nossas expectativas
Como tudo que aqui nasce
Ele tenta…e também falha
Nobre é admitir-se vil

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Telha de Amianto” (16/08/2011)

Eu lembro quando a chuva vinha ensurdecer meu universo. Estava sempre a imaginar no meu quintal entre os soldados e as corridas disputadas entre os vales e montanhas das caixas sobre o balcão embaixo da janela da cozinha. Era tudo revestido de um azulejo laranja que não escondia sua idade. Foi entre essas mesmas caixas que encontrei um de meus cágados que fugiu enquanto limpava o aquário. Nessa época meu mundo já tinha diminuído e os sonhos já não podiam correr livres, faltava-me espaço no box do chuveiro, na escrivaninha. Fiquei exposto aos olhares que esperavam deixar para trás minha infância. Mas corri outras vezes naquele quintal, mais vezes do que posso me lembrar. Fiz guerras, joguei bola, lamento não ter deitado mais vezes naquele chão. No quartinho dos fundos tinha uma mesa de botão. Tinha também uma saída lateral para o corredor que recordo sempre em tons avermelhados, desses finais de dia engraçados de primavera. Era um calor debaixo daquelas telhas, mas quando chovia era mágico. Isolava todo som, toda vida. As gotas e aquele barulho sempre me confortaram. Mas que problemas tinha? Lá fui criança. Eu lembro do contra-luz na janela da cozinha que fazia de tudo sombra enquanto a chuva insistia lá fora.
Hoje meu quintal é ao ar livre e não consigo decidir se é melhor assim.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Condenado” (09/08/2011)

É uma pena
Deflagrar a verdade
Numa única palavra
Amor é uma conseqüência
A qual voltarei
Como se fosse um erro
Inebriado pela promessa
Embebedo minhas páginas
Sem pudores racionais
Despido de consciência
Perco-me na rima
Preso ao universo
Aquém da paixão
Vazio de realidade
Romanceio a esperança
Um sentir em exagero
Deixaram-me rasgar o peito
Disseram que era longe demais
As feridas se multiplicam
Fiz de tudo uma chance
Sem saber que tinha medida
Sobrou-me ser réu
Perpetuar
Crimes de romantismo
Desculpe se me entrego
Fecho os olhos para o mundo
Mas é preciso preencher os espaços
Até que me tomem a palavra
E a solidão cobre minha pena

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sob medida” (27/07/2011)

A solidão me veste
Quando as portas fecham
Quando o dia amanhece
Quando a noite cai
O suspiro marca o silêncio
O infinito invade os olhos
O mundo vira apenas possível
A vida conforta
O passo já não pesa
Longe de pressões sociais
Perto do que sinto
Sou apenas um pulso
A mesa já foi preenchida
O convite ficou aquém
Meu vazio tem outro gosto
Encontro com nostalgia
Boa parte da vida está dentro
Não me julgue se me afasto
Não perturbe se me calo
Nem tudo que me serve, completa
Fico sem o brinde
Hesito nos abraços
Guardo minhas palavras
Prefiro o som dos meus passos
A esse caminhar sem ritmo

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Consciente” (17/07/2011)

Ainda não sei o que aconteceu. As palavras nunca foram tão leves, o desapego tão real. Mesmo falando de meu âmago não parecia machucar. Senti perturbar a outra consciência, desestabilizar uma emoção, mas vejo que nem me importei. Falei as palavras contidas no peito, não procurei eufemismos e vi na verdade o único caminho. Pela primeira vez estive resolvido e absoluto. Parece que amadurecer tem suas vantagens. Jamais desistirei das paixões, mas que não me cobrem também. A certeza do que não será também abre horizontes. Desprovido de tudo aquilo que não havia dito o passo já é mais certo, o talvez não desvia a direção. Um sorriso volta a clamar independência. Não abandonei a palavra. O você mudou.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Feriado” (27/06/2011)

Estava a espera da solidão
O todo resumido ao nada
Um vento que tudo arrasta
Uma alma mais próxima da vida

Foi quando acordei no silêncio
Entre janelas abandonadas
Entre corpos apenas vacantes
O concreto a se esfriar do movimento

Pé ante pé arrisquei-me
A urbanidade era inofensiva
Sem as peças de seu caos
O mundo cabia no meu quintal

Estufei o peito de puro desejo
Fiz do silêncio meu sonho
Fiz do vazio meu lar
Construí no feriado minha paz

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Estudo sobre a Alma” (16/06/2011)

O que nos faz diferentes? Aparências enganam, e a imagem é produto alheio. Um olhar de lamento ainda pode amar. O que nos leva ao âmago. Trilha final de cada simples ação. Acreditava que bastava um sentir para nos separar de todo resto. Todo mundo magoa, todo mundo sofre, a dor é inevitável como tudo que se propõe a promessa de sentir. Há lugares aonde não vamos, mas não quer dizer que não se alcance. Iludi-me com princípios, adotei os mais nobres, tratei-os como filhos, bastava almejar o melhor. Todo mundo é vil, todo mundo mente, a mudança é inerente a qualquer pessoa que propõe a caminhar. Só por que a bússola aponta para o norte, não quer dizer que permanecemos na mesma direção. Sobrou-me o sonho. A idealização trabalhada nos detalhes. Cada sorriso, cada abraço, cada palavra a orquestrar um plano, a simular uma felicidade. Todo mundo acorda, todo amor acaba, o fim só existe a partir do começo. Não é porque conseguimos imaginar que resistiremos à realidade.

Nada te salvará de ser, humano.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Deserdo” (16/06/2011)

Tenho palavras
Mas abdico
Não importam suas verdades
Jamais soarão sinceras
Não quero prolongar a dor
Nem me acostumei a ser mágoa
E isso basta
O argumento sempre será vão
Quando perante o sentimento
Entrego-me ao tribunal
Podem julgar o corpo
Esquecer-me num canto escuro
É simplesmente justo que o façam
Não tenho defesas
Chega de apelos e eufemismos
Cansei de discutir o ponto.
Não há nada mais aqui
Que me desculpem as palavras
Mas ficarei com o silêncio

Ass: Danilo Mendonça Martinho