“Intersecção”

No semáforo onde a vida que não espera, pode também se perder. Seu Nelson tentava segurar os quatro netos enquanto seus olhos perdidos no horizonte diziam mais que qualquer palavra. A filha havia sumido faz tempo, ele mal lembrava o que era descanso. Seu Nelson fez o que era preciso, fez o melhor que podia sabendo que no máximo seria o bastante, só não fez escola, não teve estudo, não teve escolha. Este senhor visivelmente fatigado pelos anos, por um caminho que não lhe demonstrou bondade mesmo com toda sua perseverança, enxergava agora na ponta de seu cigarro uma metáfora de sua existência. O pouco prazer que tinha era o mesmo que lhe trazia o fim.

Ao seu lado, embaixo de um terno preto e gravata impecável estava Doutor Clóvis. Distinto em todos aspectos, parecia vir de outro planeta quando colocado ao lado de seu Nelson, mas compartilhavam a mesma calçada. Doutor Clóvis estava sozinho, deixara a pouco tempo o Fórum onde defendeu mais um cliente em troca de muitos trocados. Formado na melhor instituição pública do país, capa de revista, sua família não conheceu necessidade. Para ele o tempo lhe servia e aquele semáforo era um desafio a sua paciência, e soltava fumaça pelas narinas como um touro encarcerado.

Eis a única outra semelhança entre “seu” e “Dr”, fumavam a mesma marca e assim que o farol abriu sem titubear, duas bitucas se encontraram na sarjeta, sujando a mesma cidade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s