“Acomodação de Alma” (21/10/2014)

Recosto minha cabeça na parede enquanto espero
Perco meu olhar de tudo que acontece em minha volta
Deixo escapar sem remorso os minutos que faltam no dia
Lá se vai mais um passageiro que quase não se conta
Há uma impressão de estagnação neste agora
Talvez seja a falta dentro de si de um sonho concreto
Só que é normal passar por lugares não familiares
Locais onde aprendemos, mas jamais ficamos
O corpo tem sentimento, e sentimento tem lar
Todos nós sabemos quando estamos em casa
Tudo para mim neste momento é extremamente normal
O suspiro que alivia a insatisfação que faz parte
A esperança de que a mudança esteja sempre na próxima esquina
A compreensão que a vida tem um tempo, geralmente, bem certo
Por um milésimo de segundo o metrô cruza a ponte
O olhar desconexo cabisbaixo vê a chuva refletida no asfalto
O coração voluntário reage e me escapa um sorriso
Uma certeza sem razão que tudo vai ficar bem

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Alforria” (09/06/2009)

Livre, palavra que lateja
A cada fio de esperança

Liberdade de todos os sonhos
Respirar sem faltar fôlego

Livre dessas traições mentais
Para definitivamente fugir

Liberdade nas palavras
Sem mais vícios ou considerações

Livre de peito aberto e alma limpa
Cara lavada , sem vergonha

Liberdade de atitudes
De um sono tranqüilo

Livre para versos sem rimas
Estrofes disformes.

Liberdade de lhe dizer sem pudores
Não negar amores.

Livre para tomar pelos braços.
Liberdade pra viver conseqüências

Cada vez mais
Cada espelho que me repara
Cada dia que me passa
Cada olhar alheio
Cada pensamento
Cada gesto
Cada reação…

Livre ecoa mais forte.
Liberdade é mais sensata.
Livre vende separadamente?
Liberdade tem para baixar?
Livre enquanto pode
Liberdade enquanto ideologia.
Livre antes de mais nada
Liberdade antes de tudo.
Livre, em essência
Liberdade, uma palavra

Tudo que hoje peço
Um dia confesso
Despido de limites
Dizer ao transeunte
Sou livre
Livre.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

"Noite enfim"(30/05/2009)

Quando a noite tiver luz própria
Vier penumbrar nossos rostos
Seja gentil e não acenda luz
Não procure pelo meu sorriso
Não peça minha aprovação
Não julgue minhas atitudes
Muito menos espere um sinal.

Quando meu corpo estiver esgotado
Seja gentil e vá embora
Antes que reaja sem pensar
Antes dos erros da madrugada
Antes de qualquer desculpa para ficar
Deixemos-nos assim…livres.

Quando virar as costas e partir
Seja inteligente e siga seu caminho
Não questione razões
Não procure motivos
Guarde aquilo que tem
Satisfaça-se com o último sorriso.

Quando subir as escadas
Rumo a última escala
Deixe me perder na escuridão
Deixe-me a paz do final
Em uma última gentileza
Não acenda a luz do corredor
Pois não vou voltar.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Anjo Caído” (23/05/2009)

Não acreditava no que ouvia
Um dia imaginei que me destruiria
Vi então tudo que temia
Acontecer diante meu coração
A alguém que nada daquilo merecia
Paralisei enquanto lutava
Tentei por quadras infinitas
Uma frase de conforto
Tentei convencer do que não sabia
Todos meus esforços foram em vão
Um buraco abriu diante nossos pés
Nada pudemos fazer para escapar
Nunca antes me senti tão emudecido
Dividia culpa com a causa conhecida
Causa que não podia defender
Queria ter feito muito mais
Tomado lugar debaixo daquele fardo
Auxiliar aquele corpo cansado
Era uma luz que se apagava
Uma tristeza que doía sem fim
Algo destruído além de reparos
Era angústia, sofrimento e lágrimas
Todas em silêncio, bem guardadas
Mas juro que as ouvia
Senti em me afastar de tudo aquilo
Senti por ser humano
Por ter plena consciência
Que existe em mim essa capacidade
De provocar tamanha ferida em outrem
Quando me coloquei a pensar
Não sabia muito bem como dizer

Foi assistir um sonho morrer.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sem Saber” (09/05/2009)

O céu as vezes me parece um capricho
Enfeitado de um véu branco
Cada vez mais espesso próximo de sua origem.
A estrela está imponente hoje
Não há quem venha refutar
Eu mesmo continuei em frente.
Espiei para trás com toda prudência.
Reparou-me por certo.
Diariamente testando limites,
Entre esse concreto e o infinito azul.
Hoje digno de exposição.
Quem vai assinar este?

Constato mais uma vez
A razão não é minha
Desta vez de um amigo
Não importa meus passos firmes
Minha mente decidida
Invariavelmente o que vejo
O inconsciente toma partido,
Antes de qualquer reação.

Odiaria ser só mais um
Mas é complicado ser livre
Transparecer teus princípios
Viver tuas verdades,
Abraçar teus sonhos.
É preciso muita concentração
E a distração suficiente
Para uma invariável inconsciente.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

"Adeus" (08/04/2009)

Minhas últimas memórias tinham um tom de melancolia
Como quem falava do que nunca se teve
Breves arrependimentos
Tragédias puramente pessoais

Minhas últimas palavras foram jogadas a uma multidão [indiferente
Sufocaram-se sem audiência
Assassinadas aos olhares alheios
Os argumentos bateram em retirada
Não valia a pena mais nenhuma nova discussão
Um olhar que finalmente se irritou
Uma alma que se afastou e guardou bem suas verdades.

Fora nos últimos suspiros que me libertei
Palavras acumuladas na história
algumas já vazias e pela metade
Um armário colocado a baixo
Papéis queimados que tomavam o ar de todo ambiente
A nocividade pesava, espessa a ponto de se enxergar
Só não pude prever que não sobreviveria
Entre todas as mentiras
Todas verdades evitadas
Todos gestos não feitos
Não sabia que estava aqui entre meus erros
Não sabia que tinha sido tão simples assim
Não foram as melhores frases para se guardar.

Nos últimos momentos
Levo comigo todas as lembranças
Nos meus olhos levo uma última história
e um fim.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

"Dash…."(29/03/2008)

O nome ficou incompleto
Durante horas aguardou oculto
Pedia uma conversa corriqueira
Esperava uma palavra amiga
Mas ficou no silêncio
Enquanto brincavam lá fora
Ouviu algumas risadas
Poesias jogadas ao vento
Viu uma inércia impregnada
Nos olhos já sem rumo
Sentiu a mente escapando
Uma fuga da realidade
Assistiu noite adentro
Quem negava-se a ver
Quem martirizava sem razão
Um corpo cansado
Que abria janelas
Sem saber o que buscava
Escondendo o horizonte

Ali permaneceram as letras
Caprichosamente pela metade
Uma intenção sem conclusão
Uma proposta instigante
Uma prévia do que viria
Algo a ser deduzido anos daqui

Quando se deparou com a meia palavra
Lembrou da efêmera idéia
Tudo pareceu distante demais
Singelamente sorriu e se retirou
Como cavalheiro agradeceu
Não lhe pesou deixar para depois
Fechou os olhos e tranqüilamente
Dormiu sem saber

Ass: Danilo Mendonça Martinho

"Perspectiva" (29/03/2009)

Quando os olhos saíram da escuridão
O Sol já aguardava entre nuvens
Uma luz inconveniente na janela do trem
Uma verdade que atravessava
Uma alma em transparência
Tentando desaparecer
Em próprios desesperos
Um corpo que já não refletia
Uma noite vagando durante o dia.
Caminhava passos espaçados e ritmados
Alguma canção triste que a mente entoava.
Desistia em cada suspiro.
Os sorrisos eram mais alguns lamentos
Transpunham aquela face desgastada
Insistentemente iluminada.
Uma sombra que não se formava
Um ódio do que sentia
Um amor que amargurava
Uma vida que passeava vazia.

Quando os olhos saíram atravessados
O Sol já desaparecia entre nuvens
Uma luz transparente na janela do trem
Uma verdade inconveniente
Uma alma na escuridão
Tentando enxergar
Nos próprios reflexos
Um corpo já desgastado
Uma noite suspirando durante o dia
Caminhava passos vazios
Alguma canção triste que a mente formava
Desistia a cada desespero
Os sorrisos eram mais amargos
Transpunham aquela face vacante
Insistentemente reconhecida
Uma sombra mal projetada
Um ódio lamentável
Um amor sem ritmo
Uma vida que passeava sentida

Quando os olhos saíram iluminados
O Sol já transparecia entre nuvens
Uma luz atravessava a janela do trem
Uma verdade desgastada
Uma alma que refletia
Tentando se formar
Em seu próprio ritmo
Um corpo que já não sentia
Uma noite lamentando não ser dia
Caminhava passos vagos
Alguma canção triste que desaparecia
Desistia de suas amarguras
Os sorrisos eram mais espaçosos
Transpunham aquela face reconhecida
Insistentemente esquecida
Uma sombra na escuridão
Um ódio sem propósito
Um amor desproporcional
Uma vida que passeava sem destino

Quando os olhos apareceram vazios
O Sol já amargurava entre nuvens
Uma luz sentida na janela do trem
Uma verdade que não se formava
Uma alma iluminada
Tentando desgastar
Em próprios lamentos
Um corpo que apenas suspirava
Uma noite entoada durante o dia.
Caminhava passos espaçados e ritmados
Alguma canção triste que vagava na mente.
Desistia em cada reflexo.
Os sorrisos eram mais algum desespero
Transpunham aquela face que desaparecia
Insistentemente transparente.
Uma sombra que atravessava
Um ódio inconveniente
Um amor que aguardava
Uma vida que passeava na escuridão.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

"Noite Fria" (17/03/2009)

Através da janela no ônibus
Nunca a vida me pareceu tão nítida
Como se tivesse foco e perspectiva
Como se tudo pudesse ser tocado e agarrado
Nunca a vida me pareceu tão minha
Nunca tudo me pareceu tão fora das minhas mãos
O ônibus acelerou e a vida passou
Em um filme sem necessidade dramática
Em palavras sem necessidade poética
Em memórias atrás de uma janela
E se os sonhos realmente morreram?
E se os anjos realmente se foram?
E se a próxima opção for pior que a anterior?
Tudo isso me pegou em uma terça-feira
Uma noite sem Lua, sem estrelas
Uma estrada sem destino
Meus passos ecoando no escuro
O vazio já ecoava dentro de mim
Como se eu fosse parte das ruas
Sem diferenças do asfalto e do concreto
Um corpo desnecessário
Suportando uma mente saturada
Um mundo de peso nas costas
A vontade de abrir mão
Deixei tudo vagarosamente cair
Mas nenhum socorro veio a tempo
Mas nenhuma voz desesperada se fez presente
Respirava por alguma teimosia
Suspirava por pura constatação
Sorria, sem dúvida, por pirraça
Ao esquecer meus sentimentos
Ao deixar inimigos sem palavras
Ao me dar satisfeito pela noite

Abri os olhos em último esforço
Percebi que já era hora de descer…

Ass: Danilo Mendonça Martinho

"Desabafo"(16/03/2009)

Até quando poderei chamar isto de meu?
Quais sonhos ainda me pertencem?
Como proteger o que só existe na mente?
Como representar o que nem se ousa falar?
Quem pode me garantir segurança?
Quem pode me evitar os riscos?
Quem em sã consciência me daria crédito?
Não criei essas palavras, não criei essas letras
Sirvo de alguma forma um outro propósito
Não entendo porque isto não pode ser meu.
Coloco desejos que em breve me parecem distantes
Como ideais que não pude realizar.
O quanto ainda tenho que esperar?
Que paciência é esta que insistem em me pedir?
Que calma é essa que não consigo ter?
Que pensamentos são esses que ninguém detém?
Perturbado pela memória
Querendo que tudo não vire,
Uma história num papel qualquer.
Não quero mais desculpas, mais nada para mim mesmo.
Uma última fiel sinceridade,
Uma cara de pau, uma coragem,
Algo disto vive em alguém aqui?
Quem vai me impedir de pular dessa janela?
Quem vai me impedir de tentar?
Quem honestamente tem argumentos válidos?
Quem honestamente qualquer coisa?
Eternas sombras de nossas escolhas que nos policiam
E se quisesse cometer os mesmos erros?
E se apenas ali fosse encontrar o que queria?
Não posso agüentar mais esta gritaria
Não posso mais agüentar estes desaforos
Não posso agüentar mais esse silêncio
Quero uma resposta, quero uma única verdade que seja.
Alguém me prometeria esta sinceridade?
Há no mundo quem não tenha visto
Promessa que não fosse quebrada.
Eu ainda quero acreditar.
Existem no mundo as poesias, breves, de passagem, de andar.
Existem pessoas carregando o que não posso traduzir
Os versos que a vida vai trazer e não poderei escrever
Não enquanto for verso e estrofe de algum romancista entediado.
Creio que logo encerrará, se dará por satisfeito.
Eu poderei então contar alguma maravilha.
Mas antes de pontos finais, antes de precipitadas conclusões
Não queria deixar de lembrar que na vida,
Sempre há espaço para mais algumas páginas.
Não faria mal nenhum terminar ao menos esta história de amor.
Não me deixe aqui escrevendo sobre algum vazio.

Ass: Danilo Mendonça Martinho