“Por trás do pano” (04/10/2011)

Não é teu olhar perdido no infinito
Nem o contraste em preto e branco
Não é teu jeito discreto de andar
Nem o mundo que esvazias sem notar
Não é tua pele, teu sexo
Não é a imagem que construo de você
Nem a essência que deixa ao passar por mim

Perturba-me são teus lábios cerrados
O medo envolto neste selo já umedecido
Brinca de desenhá-los com o dedo
Belisca-os em repreensão ao desejo
Mas jamais eles partem
Seja falta de aprendizado ou esquecimento
Teu sorriso não valeria ao menos um ensaio?

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Véspera de Primavera” (22/09/2011)

Estamos todos contra o parapeito
Esperando a madrugada se dissipar
Abrimos mão das esperanças e medos
Tudo por um amanhã

Poderemos preencher nossa alma de novos aromas
Poderemos preencher nosso coração de novos sabores
O sol entrará por todas as frestas
Acharemos um espaço para sermos

Acreditamos cegamente em nós
Nessa chama que mantemos viva
Nesse sorriso que manteremos aberto
Na vida que sempre floresce

Estamos todos aqui reunidos
A espera do desabrochar da primeira rosa
Ela será nossa prova definitiva
A felicidade, sempre volta a ser possível.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Um ensaio sobre o amargo” (21/09/2011)

O telefone já não toca. São as sutilezas do silêncio que esvaziam aos poucos a presença. Não dá para negar o suspiro de liberdade, sentimentos também pesam. Descobri recentemente as fissuras em meus princípios. Não me angustia minha decisão, nem seus motivos. Mas abandonei uma relação, não foi sem feridas. Em uma inocência acreditei que jamais criaria uma mágoa, uma tão bem acabada, tão marcante, tão longe de minhas verdades. Inocências crescem. Não sinto falta de nada neste quarto, não porque esqueci, mas na verdade nunca coube. Não olho para isso como falha, desperdício, penso que assim é a vida. No mais apenas me incomoda que a única alternativa ao amor seja a dor. As cicatrizes são mais necessárias do que digo e imagino. É, não há alternativa quando se admite que não se ama. Por isso nesta penumbra de fim de dia sobra este gole seco, cheio de realidade, esperança, dores, pesares, verdade e duramente sincero. Prefiro esta dose aos paliativos humanos.
Um brinde.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Anti-herói” (14/09/2011)

Rasgam mais algumas palavras
Sentimentos largados no chão
Toda voz parece embargar
Mais infâmias sobre o amor
O coração anda sofrendo
Facilitaram as distâncias
Subiram-se paredes de concreto
O tempo virou efêmero

Olho ao redor nas entrelinhas
Há tantos porta-vozes do sentir
Tanta alma em carne viva
O amor escapa pelas entranhas
Invade toda prosa
Vira arma na mão do rancor
Razões de uma emoção
A verdade de um passado
Dissipada no presente

Somos o século do absoluto
Uma geração cheia de certezas
Que definiu o amor
Decidiu tudo que é justo
Sabe apontar o dedo na cara
Desaprendeu a olhar no espelho
Reflexos do que negamos

O amor sofre em nós
Mas jamais foi nosso
Não faça dele um mártir
Vítima das nossas expectativas
Como tudo que aqui nasce
Ele tenta…e também falha
Nobre é admitir-se vil

Ass: Danilo Mendonça Martinho

"Trilogia"

“Amor de Praia”

Ah, se todo amor fosse assim a beira-mar
Molhasse os pés, sem arrastar na correnteza
Subisse a maré, sem afogar as esperanças
Refletisse o céu, sem roubar as estrelas
Ah, se todo amor beirasse meu mar.

“Amor de Campo”

Ah, se todo amor deitasse em uma varanda
Esticasse a vida na rede e um sonho na paisagem
Adiasse o segundo para fazer valer o minuto
Fosse como a brisa: um carinho sem levar
Ah, se todo amor dormisse na minha varanda

“Amor de Cidade”

Ah, se todo amor coubesse em um olhar
Uma presença que dispensasse a palavra
Uma verdade que não precisasse de provas
Um encontro que não terminasse efêmero
Ah, se todo amor não fosse apenas meu olhar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Solidão Paulistana” (08/09/2011)

Como a raiz vence o concreto?
As ruas são frias
As almas são vacantes
Os olhares distantes
As verdades obscuras
Os passos escusos
E a palavra um abismo

Tudo por aqui passa
A multidão é vazio
Os abraços casuais
Um céu sem estrelas
Um chão sem sonhos
Inúmeras luzes acesas
Mas nenhum convite para entrar

Somos apenas cicatrizes do asfalto
Rachaduras que ainda respiram
Edifícios de corações
Poluição de sentimentos
Trânsito de silêncios
Becos de esperança
Que o corpo não seja vão

É desta terra inóspita
Onde a rosa crava o espinho
Desabrocha sua vida
Cria raízes na cidade
Acredita no seu lado bom
Nesta solidão…
Encontra companhia.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Pleonasmo Vicioso” (06/09/2011)

Vivo nesse abismo
A beira de tantos corpos
Nos desencontramos
Busco um sinal do recíproco
Uma verdade no âmago
A utopia de ver além do corpo
Os outros buscam rotas de fuga
Ninguém quer ser sincero
Nem mesmo no silêncio
Somos almas labirinto
Presos em nossas seguranças
Sinto-me andando entre vazios

Não há coração que não pulse
Não há vida que não grite
Não há corpo que não reaja
Enjoa-me essas máscaras
O mundo raso nos condena
Incapazes de encontrar
Um olhar que veja

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Desejo Solitário” (29/08/2011)

Talvez seja coisa de paulistano admirar-se com uma estrela. Aqui elas são mais solitárias, distantes uma da outra, como se morassem no mesmo lugar, mas não conversassem. Nesse silêncio, nenhuma precipita em desejo. Há muito para se vencer nessa cidade antes da queda. É preciso contar com a sorte de uma noite que anteceda um dia escaldante, destes sem nenhuma nuvem no céu. Mesmo assim é preciso que a noite se mantenha comedida com umidade para dispersar nossos rastros de poluição. Ainda assim a estrela, antes de qualquer cadência, depende do humano. Todos sabemos o que é depender do humano. Um olhar sem pressa, sem medo, urgência, dúvidas, preocupações. Um olhar que se não essencialmente livre, que por um momento se perca nos céus. Um olhar quente de alimentar almas, e distante, capaz de ver através dos rastros de nossa solidão. Talvez seja demais por um desejo. Talvez sejam estrelas de menos para este céu. Penso também que talvez não exista humano livre.
Temo por você estrela, que venha a ser apenas decadente.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Telha de Amianto” (16/08/2011)

Eu lembro quando a chuva vinha ensurdecer meu universo. Estava sempre a imaginar no meu quintal entre os soldados e as corridas disputadas entre os vales e montanhas das caixas sobre o balcão embaixo da janela da cozinha. Era tudo revestido de um azulejo laranja que não escondia sua idade. Foi entre essas mesmas caixas que encontrei um de meus cágados que fugiu enquanto limpava o aquário. Nessa época meu mundo já tinha diminuído e os sonhos já não podiam correr livres, faltava-me espaço no box do chuveiro, na escrivaninha. Fiquei exposto aos olhares que esperavam deixar para trás minha infância. Mas corri outras vezes naquele quintal, mais vezes do que posso me lembrar. Fiz guerras, joguei bola, lamento não ter deitado mais vezes naquele chão. No quartinho dos fundos tinha uma mesa de botão. Tinha também uma saída lateral para o corredor que recordo sempre em tons avermelhados, desses finais de dia engraçados de primavera. Era um calor debaixo daquelas telhas, mas quando chovia era mágico. Isolava todo som, toda vida. As gotas e aquele barulho sempre me confortaram. Mas que problemas tinha? Lá fui criança. Eu lembro do contra-luz na janela da cozinha que fazia de tudo sombra enquanto a chuva insistia lá fora.
Hoje meu quintal é ao ar livre e não consigo decidir se é melhor assim.

Ass: Danilo Mendonça Martinho