“Sentimentos Nômades” (14/02/2012)

Faz tempo que os pássaros voltaram do sul
Retomaram o canto entre as árvores
Penso no que encontram por lá
Mas hoje, quem repara no caminho?
A vida parece ser um lugar comum
Pano de fundo de rotinas
Ainda sim há frestas entre as folhas
Sei que ali as asas suspiram
Lembrando de um mundo com sonho de voar
Acredito que tudo perderá em breve a cor
Pois existem olhos que insistem em reparar
Se voltaremos a percorrer distâncias
Há o que buscar no horizonte
Se a manhã volta a nos acordar
Talvez seja o acaso superestimado
Façamos um rumo com propósito
Há mais do que calor em outro lugar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sensações a segunda vista” (08/02/2012)

Na penumbra da madrugada
Abraço uma dor incomum
Recostada no meu peito
Entrelaço meus dedos no labirinto
Sinto a pele que passa para alma
Perco a possibilidade da razão
Um sonho invadido
O olhar a recortar o inseparável
Penso até onde carregarei
Mas abro mão do tempo
Ela libertou meu pensamento
Dissipou meus quereres
Uniu tudo em um único lugar
O corpo que me envolve
Repousa contra o meu
O melhor peso que já senti
De uma paixão real

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Solidão Pública” (01/02/2012)

As portas ainda fecham
Penso no que ainda é segredo
As fronteiras são pros outros?
Nos muros somos paradoxos
Seguros de tudo que não nos toca
Incertos de tudo que se poderia sentir

Essas trancas sem chave
Castidades aos corações
Nosso pedaço ainda livre
Que palavras só vivem em diários?
Quais cartas não podem ter destino?
Que almas deixam de respirar?

Arrombei todas as fechaduras
Nem o vento me agrediu
Como se o mundo tivesse espaço
Descobri que a multidão é outro esconderijo
Despi-me das dores e cicatrizes
Entendi que por aqui, a vida só passa

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Rotina” (31/01/2012)

Pensei acordar sob os mesmos céus ao enquadrar todas as manhãs o horizonte da minha janela. Olhei nuvens, tons de azul e pingos de chuva. Do outro lado tudo me pareceu estático, prédios, árvores, pessoas…principalmente pessoas. Assim desenhava meus dias, nos moldes ultrapassados do ontem, de cores cada vez mais desbotadas. Não há nostalgia que aguente. Não há espelho que não mofe encarando o mesmo rosto perdido, de olhos fundos sem quereres. Uma vida de paisagem para um corpo figurativo. Sem cena, sem ato, sem mão que se estenda. As portas já não se fechavam, não tinham o que deixar para trás, não havia surpresa, nem alguém para chegar. Pelas ruas vacantes, vagava, nesta aliteração que tenho certeza que também repito, e se nem o verso é livre como poderá ser o amanhã? Todo mundo quer este agora, vive-lo plenamente mesmo sem os controles dos segundos. Pois o que fazem os que querem tudo que está além do aqui? Beirando o desejo não há glória, bonitos são apenas os sacrifícios. Eu, crente da rotina, não pude pular, ao imaginar que minha escolha já estava marcada em algum passo de um tempo remoto. Ao verificar as marcas percebi que nenhuma era igual a outra, e que esta prisão do tempo, era minha ilusão.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Apesar” (26/01/2012)

Impressiona-me os pesares da vida
Ancoramos em todo cansaço
Carregamos a mágoa na carteira
Nos tornamos sempre sobreviventes
Um olhar além da lágrima
Um sorriso depois da palavra
Um verso a ignorar o ponto final
Inadvertidamente somos um corpo que insiste
Abraçados a motivos frágeis
Acreditando que não nos sobrará apenas
Mas seguimos a excluir nossos pedaços
Sentimentos de nossa história
Ignorando que também nos fazem parte
Carregamos este fardo à toa
Não podemos viver com ressalvas
A liberdade é, apesar de nada.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sexta Passada” (20/01/2012)

Sexta-feira minha amiga
Acordaste-me num século distante
Onde os cavalheiros e damas
Cortejavam-se por cartas
Sou uma noticia que tarda
Ainda a vencer a estrada
Meu papel a esmaecer nas intempéries
A palavra a resistir pelo destino
Quantos passos ainda nessa eternidade?
Em que vale tu me escondes?
O sol voltou a se por longe
Acreditei em você em última instância
Conceder-me-ia o encontro anunciado
Mas me fará desbravar-te inteira
Empunharei minha espada por ti
De você sexta arcaica
Espero que me leve de volta
Aos braços que jamais de partiram

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Cangote” (19/01/2012)

Faço morada junto aos cabelos mais rentes
Respiro pele sem essências artificiais
Aqui meu corpo encontrou encaixe
Na cabeceira dos teus sonhos
Vejo as colinas até teus lábios
A planície até teus seios
Mapeio teus jeitos no olhar
Sinto todas as suas expressões
Minha mão corre suave
Envolve a cintura e descansa
A posse se entrelaça nos dedos
A alma liberta-se no amor
Aninho-me nesta penumbra
Enquanto ainda não somos amanhã
Moro em um pedaço do eterno

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Duas Unidades” (18/01/2012)

Eu criei um sentimento dentro de mim. Destes que a gente não cria para si. Alimenta, dá carinho, idealiza nos mínimos detalhes. É fato que o tamanho é apenas uma estimativa, é preciso colocá-lo no mundo e ver até onde. Acreditamos e esta é a primeira semente. A dúvida é sempre se acreditaremos sozinhos. Tem planta que só germina a dois. Guardado dentro de mim estava isto que ainda não tinha sentido. Alegre, completo, recíproco, sincero, disposto. Era raro demais meu querer, confesso. Mesmo assim não somos nada sem nossas escolhas. Passei por ilusões, sentimentos que não voltaram, até mesmo forcei-me a acreditar que seria possível ter, sem ver ou tocar. Tudo me venceu. Permanecia comigo a chance e nada mais. Caminhei por muitas outras almas e algo além do que a palavra traduz me chamou para perto de quem hoje rega a mesma roseira que eu. Diferente de tudo que poderia esperar, a semente vingou e cresceu por lugares ainda mais profundos, e o melhor, não nasceu só em mim.
São complicados estes sentimentos que se cria para os outros, que se enfeita e veste a espera que em alguém também sirva. Tudo baseado numa concepção, sem garantias da realidade. Sim, pode ser vão, podemos ter que recomeçar, é um desejo ao acaso, uma tentativa que nem sempre cicatriza. Insistimos por nós, e tudo que criamos é por si, um pedaço que seja. Há muitos horizontes para nascer até a estação certa. Não me peça por certezas, tudo pode vingar nesta vida com as condições favoráveis.
Eu senti, e seguia ouvindo o que sentia, até que um dia me disseste: “gosto tanto quanto”. Foi a primeira vez que tive a noção do tamanho do amor por mim. Não sei o que pode dar certo, basta-me a medida do coração.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sintomas do Amor” (17/01/2012)

A brisa é de ar quente na nuca
O horizonte recorta uma silhueta
Dedos deslizam como gelo na pele
Um aninha-se no peito
Outro encontra abrigo nos cabelos

A manhã que brilha em outro corpo
A proximidade embaralha a vista
O rosto que reflete na vida
Um abraço que completa
Um beijo que não quer acabar

O sonho que não acorda
As cartas que encontram destino
O olhar que não se desvia
Um corpo que deita na cama
Outro que deita ao lado

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ensaio sobre o perdão”

Dote dos grandes
Dom dos raros
Humanidade em gestos
Teu coração cabe?

Aprender a ser dor
Tirar o pedaço que não é teu
Fazer paz de feridas
Viver do retalho
Dar abrigo as sobras
Será que satisfaz?

Diante teu opressor
Apagada a ilusão do sonho
Servido o cru dos corpos
Abre-se mão do querer?
Ou dissipa-se o interesse?

Penso que perdôo
Pelas virtudes que vencem
Mas não posso fechar os olhos
A tudo que não me importa
A culpa e o rancor
São laços de união
E a ausência do perdão
O que te mantém no aqui

Ass: Danilo Mendonça Martinho