“Pesadelo”

As pupilas dilatadas procuram saída
Mas o corpo é inerte diante a palavra
O amargo envolve a língua
Goela abaixo a notícia do adeus

A tempestade cai junto com a noite
Sem chance de pedir a nenhuma estrela
Nosso desencontro é completo
Desejo, destino e alma

O silêncio aguarda meu consentimento
Que direito tenho sobre sua escolha?
Que suplica poderia mudar o fim?
Anulaste o que sou e o que sinto

Deito na cama que me sobrou
Meus olhos não sabem para onde ir
Sabem que estão em um pesadelo
Também sabem que já estão acordados

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ideal” (17/11/2013)

Minha descrição, minhas adivinhações sempre estiveram erradas. A única coisa que sabia é que a vida me mostraria muito mais. Ela não deixou por menos. O que sinto ainda é indiscritível. Curioso algo que vive dentro de nós ser tão desconhecido. Só poderia descobrir isso contigo, minha alma jamais revelaria esse gosto se não fosse diante do amor verdadeiro, se não fosse na presença do que jamais a deixará. Quando coloco este sentimento nesta medida de eterno é que já não ligo ele necessariamente aos nossos corpos, muito menos a esse tempo. A impressão de já estar aqui antes de nós talvez não seja tão distante da realidade. Hoje ele toma partido em todos os meus planos de futuro. Não é invasão, eu não saberia o que fazer sem ele, não saberia o que sonhar. Vivi sem este sentimento e poderia seguir sem ele, mas é escancarado que não quero. Cada dia olho em frente e antecipo em meu coração todas as coisas que ainda passaremos nesta vida e a perspectiva deste amanhã faz este agora tão mais feliz. Desvendo mais de mim quando estou com você e sinto que sou melhor quando somos dois. Sem somar, apenas completando. Não sei o que a vida trará diante outros desejos, mas sei com quem enfrentarei todos os desafios. O que sinto ainda é só meu, mas é o mais próximo que já pude definir o amor, completo e atemporal.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sobre o amor” (17/11/2013)

Não é preciso pedir a ninguém para falar sobre o amor. Ele é um imaginário coletivo, um silêncio, uma reza de todos olhares. O corpo que hesita e espera a vez do próximo, o abraço que dura aquele segundo a mais, o sorriso da piada alheia na rua, a empatia quando se vê um segurar de mão. Os amigos a bater e gritar na mesa, as festas de fundo de quintal. O beijo de pai, de irmão, de mãe, de namorados, de casados, ou simplesmente de felizes. O grito da torcida, o choro no final do filme. O degradê do Sol, o balanço das árvores, o tilintar da chuva, a imensidão do céu azul. E cada vez que olho pela janela de casa poderia identificar mais inúmeras formas de amor.
A tristeza traz suas lágrimas, a saudade seus suspiros, a felicidade sua plenitude…já o amor não precisa nem de palavra, vive de qualquer silêncio até qualquer infinito. Ninguém fala sobre o amor, a gente sente e ele vive.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Olho de Vidro” (13/11/2013)

O vidro rachado range
Remendos não alteram sua natureza
A cada estalo um grito de liberdade
Foi-lhe negado o fim

Ele esta exposto ao tempo
Em uma fileira que parece infinita
Se repetem as marcas da chuva
Impregna os sabores das cinzas

O sol não é o mesmo deste lado
O mundo quase não gira
Um tom envelhecido e cansado
Os pesos de uma eternidade

Tudo que assustava lá fora
Hoje vive nas fissuras
Um dia não vai mais aguentar
Esperança também quebra

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Depois das Estrelas” (30/10/2013)

Nos jogos de sombras da madrugada ficamos a completar os espaços vazios e fugir dos nossos medos mais sinceros. Daqui tudo nasce, de cada penumbra e cada esquina um horizonte aparece por mais que as vezes nos pareça improvável. E eu que acordei meu corpo aguardo para também levantar minha alma. Ninguém nunca está só, mas por mais conhecidos que sejam os rostos eles são paisagem. A véspera da manhã é sempre a hora mais fria. Contra todo o bom senso é no meio de toda escuridão que a gente se encontra. A chuva que cai no chão quase sem vontade é a única coisa que quebra o silêncio da espera, logo a gente repara nas folhas levadas pelo vento e em um suspiro longo e profundo traz para dentro um pedaço da natureza. Sinto o gosto da estação e relembro como se fosse agora todas sensações que me esperam. As pessoas definitivamente mudam, o mundo talvez mude, mas a essência permanece. Não há segredo que é esse princípio conquistado há muito tempo que me desperta todo dia. É o que chamo de vida.


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O não cumprimento” (23/10/2013)

Por um momento quis desdenhar sua figura muito menos confiante, certa e soberba. Quis independente de conhecer sua realidade esbanjar meu bem estar, minha felicidade, meu sucesso. Vi em seus olhos a oportunidade de uma vingança, ou de simplesmente dizer que meu caminho era o certo e você foi uma das primeiras a recusar me seguir. Juro que tudo isso passou pela minha cabeça naquela fração de segundo. Usei todo resto de tempo para te observar. Sobretudo, caderno envolvido em um abraço, uma bolsa preta, olhos incrivelmente humildes, talvez pelo tom cansados. Parecia sair de um escritório estafada por mais um dia. Parecia que tuas pálpebras também guardavam o choro do dia anterior. Pareceu-me mais justa com as lições aprendidas. Talvez sua aparição tenha sido algum recado para o meu rancor, o que preciso melhorar em mim. Talvez um pouco mais de ousadia e coragem de minha parte tivessem te colocado no meu caminho. Todos enxergavam meu coração, menos meu espelho. Ainda sim penso que terminaria e hoje sei que minha história reside bem longe desta outra estrada. Acho que nosso encontro foi mais uma questão de paz, não que isso nos incomode hoje em dia, mas é rara a chance de saber que uma escolha sua foi boa. Meio que nos agradecemos neste reconhecimento sem palavras. Sabíamos muito bem quem éramos e resolvemos deixar passar, pois não somos mais.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O dilema de um bom dia”

A senhora que me disse bom dia o fez por costume, por educação, simpatia, tradição. Mas creio que na verdade o fez por ser natural, por acreditar ser a maneira correta de agir. O dia ainda era penumbra e chovia, ela estava acompanhada de uma ajudante e uma bengala, certamente gostaria de dispensar uma das duas, e disse bom dia a dois jovens desconhecidos que aguardavam algo no caminho, que tenho a impressão que refizera mais vezes que eu. Acenou e sorriu àqueles que frequentavam sua vila que hoje só é assim no nome, tudo é cidade concreta e são muitos os desconhecidos para que um bom dia seja distribuído sem critério. Mas à ela valia. O mundo podia tomar o rumo que fosse, era seu lar, seu caminho. Não desviou-se, não hesitou, não parou para admirar. A senhora era lúcida de seu destino e pura em suas intenções de desejar um belo dia aos outros. Ela não queria meu nome, nem atenção, talvez nem mesmo minha resposta. Admirei sua atitude e claro que pairou sobre minha cabeça a dúvida: Será que ela está certa nessa sociedade contemporânea? Será que a modernidade na verdade nos atrasou? Deu-me vontade de ter liberdade para um bom dia sem obrigação. Pareceu-me mais saudável o jeito daquela senhora sorridente para o mundo, e ele para ela. Receptiva ao perceber os que a rodeiam não como amigos, nem mesmo conhecidos, mas semelhantes. Somos, não é mesmo? Fiquei feliz com aquela perspectiva, aquela lembrança e não precisarei de armas, nem pedras, nem discursos, nem política. Minha revolução será um bom dia até que todos percebam que somos um só.
À senhora que me disse bom dia….disse bom dia, sem alterar minha espera, virar meu rosto, ou repelir sua presença. O fiz naturalmente, reconhecendo-nos como parte do todo.
 
Ass: Danilo Mendonça Martinho

 

“Preserve seus sonhos”

Nossos desejos mudam
Se transformam, crescem,
Se desviam
Mas que permaneçam nossos
Até mesmo secretos

Os atos mudam com cada verdade
Com cada conhecimento
Com cada informação
As vezes nem precisa ser verdadeira

O mundo é complicado lá fora
Causas são vencidas por interesses
Vontades são vencidas pela rotina
Sonhos são massacrados pela necessidade do dinheiro

Mas sua vontade de ser feliz
Pode mover o mundo em uma nova direção
Sejam quais forem seus planos, se forem justos,
Eles merecem uma chance
Os sonhos serão a diferença entre sobreviver e viver.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“A força desconhecida”

Eu mais do que ninguém tenho que tomar cuidado com as palavras. Sei que são armas, instrumentos, mensageiras, poços de possibilidades e interpretações. Ardilosamente dúbia a palavra pode lhe entregar por inteiro, ou pode carregar uma mentira a pessoas suficientes para ser irreversível. A palavra entra em qualquer alma, basta ser a certa. Somos rodeados por essas entrelinhas de desejos e verdades. Alguém aplicado o suficiente, atento, curioso e dedicado não deixará nada passar como comum e para estas seremos sempre um livro aberto. A nossa sorte ou azar é que essas pessoas são raras. Não acho que é preciso esconder sentimentos. Mas sei que tenho muitos planos que precisam ser maduros o suficiente para sobreviver neste mundo. Universo de vaidades, de olhares que tanto prestam atenção a ponto de atrapalhar nossos passos. Há muita força contrária, até mesmo dos que querem ajudar. Um sonho precisa ser forte, um desejo precisa ser completo, uma vontade precisa ir até o fim. Por isso há muito segredo em nossas palavras, é preciso olhar a quem. O conhecimento superficial do mundo moderno transforma todo nosso redor em uma frágil conexão de pessoas, de agenda escusa e própria. Mesmo sabendo disso o perigo ainda reside, pois há muitos os quais não definimos lado, nem opinião. Há certas coisas que devem permanecer no menor círculo de pessoas possíveis. As vezes é preciso se manter trivial. O coração precisa de segurança para falar, caso contrário faça de cada batida um silêncio, de cada pulso um olhar. Não entregue os pontos antes do necessário, antes de saber do que se fala. A conversa geralmente ajuda, mas não necessariamente porque te ouvem ou te aconselham, mas sim porque você se ouve, porque você alivia o peito. E já que é preciso falar, faça a quem te dê mais que ouvidos, faça a quem entenda. Seja breve nas palavras, a força do seu sonho está no inesperado, no desconhecido, no único, no que é só seu. Para qualquer outra pessoa escolhida sem a devida cautela, seu desejo será apenas uma informação privilegiada. Tome cuidado com a palavra.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Deixe Estar” (05/10/2013)

A vida precisa de uma fresta
Construa você suas muralhas
Vista suas armaduras
Ou aprisione as palavras

O coração precisa de uma migalha
O abraço que rejeita
O sorriso indireto
Até mesmo a promessa falsa

A alma precisa de um respiro
A lágrima que escapa a multidão
A verdade omissa
Declarar-se sem ser interrompido

Nos dias que são dor
Deixo minha janela aberta
Por lá tudo escapa
Enxergo um pedaço do horizonte
Misturam-se todos meus suspiros

Ass: Danilo Mendonça Martinho