“Crônicas de um diário inconstante – A paixão”

A paixão é uma força avassaladora. Algumas vezes foge do limite do ponderável, do possível e até mesmo do aceitável. Mas ainda sim é uma força que precisa ser respeitada. Ela toma o melhor de nossas atitudes, ela nos leva a ignorar os outros, os conselhos, as verdades. É preciso compreensão aos apaixonados, é apenas impulso, apenas a natureza agindo, é preciso paciência. Veja por exemplo essas milhares de pessoas que encontramos no transporte público todos os dias, tão dedicadas, fiéis, e comprometidas. Sem medo de demonstrar seus sentimentos, sem pudor nenhum, sem mesmo a percepção da proporção que sua paixão toma. Entram nos trens e ônibus e sem titubear agarram-se ao suporte. A paixão funciona assim como um imã. De frente, de lado, costas com costas, o envolvem, as vezes até mesmo retiram outras pessoas e tomam todo para si. Aqueles que estavam ali querendo se segurar, querendo algum amparo depois de um dia de trabalho precisam enxergar e buscar no coração a solidariedade com essas pobres almas que não controlam suas atitudes e precisam se atracar com os canos suportes. Ocupam o lugar onde caberiam quatro, cinco talvez, mas o que é o espaço no transporte comparado com a importância dessa paixão. Poderiam ser menos possessivos, dar lugar, mas muito de nós não aceitaríamos ninguém nem perto do nosso amor. Por isso muitas vezes o abraçam que parecem que vão arrancar de tanta força, pele com metal em uma simbiose única. Um conto de fadas do mundo urbano moderno, ah…as pessoas e os suportes, que coisa mais linda. Eu nunca tinha reparado de perto as nuances desse sentimento até alguns dias atrás quando distraído dentro do meu próprio mundinho tive a fútil preocupação de dar sinal para descer do ônibus, erros de alguém ainda muito inexperiente nessa vida, e o casal que estava contra o suporte (sim os suportes algumas vezes têm uma relação a três, e muitas vezes um relacionamento aberto) me fuzilaram com o olhar e eu senti todo poder dessa paixão, como pude me intrometer em um momento tão sagrado, prejudicando a união de almas gêmeas. Por isso peço paciência com essas pessoas, paixões precisam queimar até o fim. Agora devo confessar que fico com dó dos suportes, sempre a mercê, sempre presos nessa união e agora com a tecnologia colocando em risco suas relações. É verdade, podem reparar. Seus amantes lhe entrelaçam a perna, contornam com o braço, mas lhe desviam o olhar e os dedos incessantes teclam no celular. Nem mesmo os suportes estão livres das mazelas das redes sociais.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Força” (27/11/2017)

Sempre soube o que fazer
A teoria é uma falta de prática
O difícil é o propósito
A recompensa depois do truque
A preguiça sempre vence
O prazer do ócio

É preciso demonstrar mais vezes
Chegar onde a palavra não alcança
É preciso independência
Felicidade como recompensa
É preciso perseverar
Vencer é resistência

A força se constrói aos poucos
Na surdina dos pensamentos
Transformando lentamente a rotina
Como fazer a barba diante o espelho
Assim quase como um reflexo
Se convencer que é possível

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Passageiro” (13/11/2017)

Tempo, para quê me dividir assim?
Nesse pedaço sem sonho
Nessa rotina sem avanço
Repartindo as horas sem sobras
Sempre eu que fico para trás

Tempo, para quê me separar?
Das conquistas e ambições
Me largou no meio sem vida
Longe é perto demais
A solidão desta multidão
Cheia de certezas para minha indecisão

Tempo, você é só castigo?
Louça e conta pra pagar
Trabalho e ônibus lotado
Ou você tá escondendo o depois
Nesse sorriso de olhos fechados

Tempo, passa e fica
Diz que não falta muito
Promete que é para sempre
Me deixa um momento para esquecer
E uma vida para lembrar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“(H)êxito” (10/11/2017)

É difícil não ser cético
Pois a fé é muda
E no silêncio vem a dúvida
Hemorragia interna do sonho
Paradoxo de acreditar
Ou esquecer para acontecer
Perseverar……

Calada a noite
Ensurdecem as verdades
No ponto final da esperança
Na inércia da vontade
Na crua realidade
Vencido debaixo do lençol
Insistir……

O espelho desconstrói
As palavras envenenam
Mas chorar é puro
A memória não mente
O abraço não falta
Fortalecer…..

No colo ausente
Na cama fria
Há espaço e tempo
Recomeçar é melhorar
Não há motivos para desistir
Antes do coração mandar
Amar…..

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Crônico” (30/10/2017)

Me embrulha o estômago
Talvez sejam pedras no rim
Ou tumor na garganta

A palavra não sai
A vida está no meio do caminho
Entupindo as veias dentro de mim

Não há cura para indecisão
A escolha é curativo
Quantas gotas até a alma?

Falaram que o amargo é angústia
Todo resto vem da solidão
Passo mal como passa o tempo

A surdez é seletiva
Só ouve crítica
Distorce a visão

Até dói, mas é indiferença
Músculos voluntariamente parados
Inspira esperança, exala espera

Sentimento é sintoma
E o que ninguém quer aceitar
A vida é crônica

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Nuvens Escuras” (20/10/2017)

A tempestade é um bom sinal
Dá um novo sentido ao que temos
A nau bem construída
O guarda-chuva na mochila
A imperfeição que admitimos

Agora que o medo levanta ondas
Que as dúvidas inundaram certezas
Temos âncora, temos raiz, temos abraço
Em nós encontramos abrigo
No amor que dá sentido

Assoviarão muitos ventos
Vai balançar até enjoar
O plano pode vir a falhar
Mas terminaremos como cúmplices
Jamais deixaremos de tentar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O três e o um” (17/10/2017)

O um que vem depois do zero não se compara com o nove que veio antes. Ao mesmo tempo o passado solidificado nesses números não te preparam para o abismo adiante. São bobagens de um escritor, são aflições humanas, são conceitos sociais, é a idade. A perspectiva da falta de conhecimento, falta de controle, distância do sonho. Meu suspiro é pouco, minha alma é profunda, por isso meu silêncio. As frestas entre esses números ainda precisam ser preenchidas.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Final de Filme”(16/10/2017)

A vida não é feita de finais felizes. Ela é uma contínua montanha-russa cheia de picos e vales. Sempre tem o depois do agora. E quando não tiver, ambos não farão diferença. Então depois dessa felicidade plena temos alguma dor, e tão importante quanto aproveitar cada segundo destes sorrisos, é lembrar que a tristeza não será eterna.
Final feliz é coisa de filme. Já vi uma boa cota de filmes românticos. Alguns mais idealizados, alguns mais reais, outros extremamente crus. Em todos podemos identificar algo que passamos, principalmente nas tristezas, nas rejeições, no amargo das palavras. É impressionante como uma ficção pode nos representar tão bem, pode imitar a realidade nos seus detalhes mais íntimos, como se tivesse sido feito sob medida. As mágoas são mais abundantes e fáceis de encontrar reflexo. Só que pensando nisso, pensando em tudo que nos identificamos em um filme e como os escritores sempre trazem a realidade para o plano da imaginação, passo a acreditar que é possível. O fim é mais raro, mas não menos real. Se é possível uma dor de cinema, é possível um amor que vai além dos créditos finais.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sóbrio” (04/10/2017)

Tenho medo das minhas esperanças. Elas me machucaram demais por diversas vezes. Boa parte, sem dúvida, dependeu do amor, mas não foi só isso. O meu ceticismo vem do cansaço. Foi muito sorriso em vão, foi muita fé na certeza que se dissolveu. Teve céu e inferno separado por segundos. Teve silêncio, teve não, teve jogos com requintes de maldade. Sem falar na maior parte da esperança, a espera. Parece que ela me deixou aqui e toda vez que me sugerem seguir é por uma janela e não uma porta. Só assisto passar. São sonhos lindos, com tempo até mesmo imperfeitos, mas que encantam, comovem, enchem o coração e me preocupam. Passaram muitas chances e não sai do lugar. Não teve brecha pela qual não tenha tentado escapar, chegando sempre mais perto e mesmo assim longe demais. Engraçado como o doce enjoa e o amargo acostuma. Lágrimas, suspiros, indiferença. Tudo só adia e a gente insiste quase sem vontade, apenas por saber que não existe outra maneira de chegar. Não tinha ideia do tamanho dessa pedra do caminho. Até que ontem me abriram mais duas janelas, me preparei no automático, então uma alegria me abraçou comemorando a oportunidade e eu, mesmo sem espelho, vi e senti minha face plana, sem destaques, sem relevos. Uma expressão que poderia se confundir com nervosismo, cautela, mas que eu sabia que era ausência dela, era o sonho inundado pela razão. Gostei, foi o que pensei. Gostei da ausência da ansiedade e do mar de imagens invadindo a mente. Teve um susto, mas fez sentido, porque agora seria diferente? Recuso outra ferida, recuso acreditar antes do fim. Posso me enganar, pois me colocar indiferente é a esperança que agindo de forma oposta as coisas possam dar certo. Mas faço isso também pela fatiga, pelo limite do espírito de quebrar. Não tinha percebido esse desgosto, só que não posso negar que o sinto necessário. Quando me sobem ideias eu fecho a cara. Espanto a esperança e a dor que pode acompanhar. Não me nego tentar, só que vou precisar muito mais para voltar a sorrir.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Insolúvel”(14/09/2017)

Eu adoraria dizer que sim
Que encontrei solução
Que me trouxe paz

Meu olhos podem contar mais
Minhas memórias são felizes
A expectativa foi errada

A gente esquece de ser
No meio desse negócio de procurar
A gente não sente o sabor
Sem se deixar levar

Eu sou um traçador de planos
Em uma vida sem programação
Na cidade onde chove e faz Sol

Queria um mero propósito
Queria me dar sentido
Queria uma bússola de sonhos

As escolhas vivem na liberdade
Além dos limites desenhados
A verdade reside no inconsciente
Na espera que possa aceitá-la

A vida não é só reagir
A vida não é só planejar
É um agora misturado com depois

É preciso dividir céu e maré
Manter o desejo em vista
Sem tirar o olho do que pode chegar

Eu não posso dizer que sim
Mas posso apontar o começo
Cada um tem um caminho para sair
O meu é o verso

Ass: Danilo Mendonça Martinho