“30º” (15/02/2017)

O calor que toca a pele
Apoia minha alma
Na frágil desculpa
Que o tempo se tornou escasso

Por mais que se dividam os dias
A inércia equilibra a balança
Nessa versão do mesmo tema
Culpa disfarçada de impossibilidade

São todas chances do mundo
Mas nenhuma escolha
Nenhuma paixão que leve adiante
Apenas repetindo para não desaparecer

O sol não me derrete
A esperança não esmaece
Tortura-me com a verdade
Sou protagonista da minha solidão

Falta-me pequenas coragens
Abandonar, admitir e acreditar
É a idade do cansaço
Ou cansaço da ideia

A noite ainda guarda o bafo
Um toque final no descompasso
Os planos de um novo amanhã
A certeza velada que não o será

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ensaio dos 30 anos” (07/02/2017)

Crescer me apequenou. Eu não tinha medo das minhas opiniões, eu abraçava com mais facilidade meus sonhos, eu tinha vergonha dos meus erros mas nunca os escondia, cresci errando. Eu acreditava nas minhas verdades e brigava pelo que parecia certo. Eu levantava a mão para questionar. Eu era mais livre nas minhas escolhas. Minha timidez inibia minha coragem mas não tirava sua força. Minha voz não embargava a qualquer momento. Eu tinha aprendido a me virar. Não congelar diante o desafio. Nunca me deu branco. Eu duvidava muito menos de mim, hesitava muito menos. Era mais cheio de palavras.
A idade está comigo, as responsabilidades, as contas, a casa para cuidar, o casamento para amar, o trabalho para cumprir, os sonhos para seguir. Mas ando esquecendo de tudo. Deixando o importante de lado, deixando acumular as ideias, fazendo apenas o necessário. Escondi-me tanto da realidade que hoje é quase um processo involuntário. Uso as complexidades de meu pensamento para algumas poucas bobagens. Culpo a rotina pela distância e os abraços que não dou são os mesmos que me faltam. O espelho ou não mostra ou me engana, pois não vejo nenhum adulto. Por dentro então tudo é um grande receio: falar, ser, opinar, acreditar, assumir, conquistar, sonhar, crescer.
Até um momento era tudo potencial e tudo se esvaiu como um rio diluído no mar. Irreconhecível e esquecido na imensidão sem norte. Entre tudo que eu poderia agarrar nesse naufrágio das idades da vida, como raios eu fui esquecer da vontade.
 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Tudo ao seu tempo” (04/01/2017)

Eu queria começar com boas notícias
Mas pouco aconteceu até agora
Posso dizer que o calor continua
Talvez por isso a esperança esteja no congelador
Será que é possível, congelar a dor?

A verdade é que deixei a onda passar
Não nadei contra a corrente
Não tentei atravessar punhos por paredes
Insisti em me vestir de coração
Sonhador, sincero e real

É o que posso ser diante o que se adia
Não sei o tempo que falta
Então vou deixar que ele sobre
Espalhado na frente do ventilador

A vida não é viral
Ela tem calma e tem propósito
De mim precisa apenas de perseverança
Ainda é cedo pra se encontrar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Perdão” (20/07/2016)

Pelas tuas costas vi meu sonho
Era tarde para o perdão
Não soube te alcançar
E agora sou eu que fico perdido

A humanidade é um conceito
A verdade é a distância
Nossa caridade tem limite
Nosso amor tem fronteiras

Minha reza não mudará tua vida
Minha penitência só resolve minha culpa
Mas tua partida carregou minha alma
E atrás dela poderei mudar um dia

Obrigado e que protejam teu caminho
Que não te falte a força e coragem
Que me falta todos os dias
Ao encarar a miséria e julgar não ser minha

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Miopia” (05/06/2016)

Caeiro falava sobre o que via
Falava das cousas sem mistério
Desconheceu o intransponível do concreto
As paisagens dos seus olhos
Se escondem do arranha-céu…
Opa! Onde já se viu palavra pregando o impossível
Aliás hoje tem mais significado que palavra
E sem dúvida muito mais ilusão
Não conseguiria falar o que vejo nem se abrisse os olhos
O homem construiu sobre as verdades
Mudou geneticamente as nossas manhãs
E o Sol que nasce hoje sobre seu rebanho
Tem a cor dos filósofos
Cheio de possibilidades e nenhuma definição

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Origens” (02/06/2016)

Ando pensando demais no que não ando fazendo
Ando fazendo menos coisas ainda
Deve estar sobrando poesia em algum lugar
Tantos são os pensamentos que evito
A verdade se esconde num fechar de olhos
A dor por outro lado não conhece saída
Alguma hora deixo tudo para trás para sobrar eu
E independente de qualquer felicidade
Confundir o silêncio com um pouco de paz
Depois que me ausento o mundo escurece
O chão está molhado e a noite fria
Foi num dia desses que não estava onde me deixei
Toda água da chuva volta para o céu
Quem sabe num dia de calor minha alma volte para casa
Cada verso que esqueço, me esqueço num canto da vida
Que da terra ao menos floresça o que faça sentido
Minha raiz sempre foi essa caneta
E mesmo o mais alto fruto, aqui há de voltar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Entre nós” (03/05/2016)

A paz, sem dúvida, está com quem partiu. Consciente da tarefa cumprida, da felicidade deixada, do aprendizado da alma. Ficamos satisfeitos de saber, o coração fica mais tranquilo, mas o âmago se contorce na saudade. É inquietante a ausência instalada de tudo que não vai mais voltar. Um quarto vazio, a porta que não abre, o doce que não se faz mais. Mas será a saudade apenas essa imensidão de outras vidas que ficaremos a carregar? Penso que ela não tem nada de falta. Sentimos, pois foi deixado dentro de nós as marcas das palavras e dos abraços. Os sinais daquelas pessoas que de coração aberto deixaram um pedaço de si para levarmos conosco. E não é qualquer pedaço, é o melhor que elas poderiam oferecer para nossas vidas. A saudade é esta constante presença desses sentimentos. Ela não está aqui para abrir um buraco no coração, mas lembrar as coisas que o une. Ela é a valorização dos presentes que foram dados para nossa alma. Ela quer manter vivo o que guardamos de mais importante. É verdade que ela não tem o calor do corpo, o carinho do gesto, o cheiro da roupa, ela não substitui, mas ela protege aquilo que as pessoas que partiram não gostariam que viéssemos a perder. É conforto saber que seguiram em paz, já a nossa paz de espírito depende em perceber que estarão para sempre em nós.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Admito” (18/03/2016)

Deus, eu tenho um sonho
Talvez não seja muita coisa
Se bem que nunca soube o que seria demais
É quase para ser feliz
É quase para ser para sempre
Mas tenho medo de sonhar acordado
Do desejo estar vestido de fantasia
Da vontade ser apenas uma questão de proximidade

Deus, eu sonho demais
Com sorrisos fáceis
Com dinheiro no bolso
Com família e esperança
Numa vida que é uma só
Mas não sei o que me cabe
O propósito do meu sentir
A verdade da minha alma

Deus, eu sei que tenho um sonho
Eu sei que ele é grandioso
Eu sei que ele me trará paz
Eu sei que ele fará sentido
O que serei daqui para frente
Apenas não consigo vê-lo claramente
Não consigo fazer dele uma escolha
Pois quero ser levado por ele

Deus,
eu espero pelo sonho
Qualquer um que avance
Qualquer um que me liberte
Uma ideia para abraçar
Uma dúvida para esquecer
Mas somos apenas um paradoxo
Eu preciso que ele venha para embarcar
Ele precisa que eu embarque para existir

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Pressa” (11/03/2016)

Ligereza sim
Pois a língua é viva
E a vida curta demais
Falta em mim a destreza
De complicar a palavra
Para fazer versos tais
Vivo num tempo de avareza
No espírito da poesia
Na cabeça formada de intelectuais
Não me sobram muitas certezas
O mundo mudou de muitas maneiras
E o romance vai chegar tarde demais

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“A distância deste agora” (17/02/2016)

Há mais tempo do que realmente possa lembrar me perguntaram sobre um depois que ainda me é distante.A imagem que escolhi estava esquecida, não saberia dizer a última vez que pensei nela, mas está intacta. O mesmo sabor, os mesmos tons de felicidade. Quando eu lhe contar vai te parecer uma das coisas mais comuns do mundo. Agora disso eu me lembro bem, foi impossível achar uma foto que representasse este momento. O desejo era mais real do que a verdade.
Quando a vida cansar do tempo e eu aceitar minha passagem por aqui, penso em uma paz soprando contra o rosto em um final de tarde azul cristal. Uma varanda branca de uma casa, uma cadeira de balanço feita com madeira escura e costas vazadas em um desenho igual à do sítio de minha avó. Lá descansarei meus pensamentos, observando o chão costurar o horizonte como as histórias que conhecem seu fim. Com os olhos cheios de lembrança me sobraria no ar uma sensação plena de dever cumprido e a felicidade seria minha redenção.

Não achei imagem.
Não sei cheguei lá.
Mas o que importa?

Ass: Danilo Mendonça Martinho