“Força” (27/11/2017)

Sempre soube o que fazer
A teoria é uma falta de prática
O difícil é o propósito
A recompensa depois do truque
A preguiça sempre vence
O prazer do ócio

É preciso demonstrar mais vezes
Chegar onde a palavra não alcança
É preciso independência
Felicidade como recompensa
É preciso perseverar
Vencer é resistência

A força se constrói aos poucos
Na surdina dos pensamentos
Transformando lentamente a rotina
Como fazer a barba diante o espelho
Assim quase como um reflexo
Se convencer que é possível

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Crônico” (30/10/2017)

Me embrulha o estômago
Talvez sejam pedras no rim
Ou tumor na garganta

A palavra não sai
A vida está no meio do caminho
Entupindo as veias dentro de mim

Não há cura para indecisão
A escolha é curativo
Quantas gotas até a alma?

Falaram que o amargo é angústia
Todo resto vem da solidão
Passo mal como passa o tempo

A surdez é seletiva
Só ouve crítica
Distorce a visão

Até dói, mas é indiferença
Músculos voluntariamente parados
Inspira esperança, exala espera

Sentimento é sintoma
E o que ninguém quer aceitar
A vida é crônica

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O três e o um” (17/10/2017)

O um que vem depois do zero não se compara com o nove que veio antes. Ao mesmo tempo o passado solidificado nesses números não te preparam para o abismo adiante. São bobagens de um escritor, são aflições humanas, são conceitos sociais, é a idade. A perspectiva da falta de conhecimento, falta de controle, distância do sonho. Meu suspiro é pouco, minha alma é profunda, por isso meu silêncio. As frestas entre esses números ainda precisam ser preenchidas.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Final de Filme”(16/10/2017)

A vida não é feita de finais felizes. Ela é uma contínua montanha-russa cheia de picos e vales. Sempre tem o depois do agora. E quando não tiver, ambos não farão diferença. Então depois dessa felicidade plena temos alguma dor, e tão importante quanto aproveitar cada segundo destes sorrisos, é lembrar que a tristeza não será eterna.
Final feliz é coisa de filme. Já vi uma boa cota de filmes românticos. Alguns mais idealizados, alguns mais reais, outros extremamente crus. Em todos podemos identificar algo que passamos, principalmente nas tristezas, nas rejeições, no amargo das palavras. É impressionante como uma ficção pode nos representar tão bem, pode imitar a realidade nos seus detalhes mais íntimos, como se tivesse sido feito sob medida. As mágoas são mais abundantes e fáceis de encontrar reflexo. Só que pensando nisso, pensando em tudo que nos identificamos em um filme e como os escritores sempre trazem a realidade para o plano da imaginação, passo a acreditar que é possível. O fim é mais raro, mas não menos real. Se é possível uma dor de cinema, é possível um amor que vai além dos créditos finais.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Insolúvel”(14/09/2017)

Eu adoraria dizer que sim
Que encontrei solução
Que me trouxe paz

Meu olhos podem contar mais
Minhas memórias são felizes
A expectativa foi errada

A gente esquece de ser
No meio desse negócio de procurar
A gente não sente o sabor
Sem se deixar levar

Eu sou um traçador de planos
Em uma vida sem programação
Na cidade onde chove e faz Sol

Queria um mero propósito
Queria me dar sentido
Queria uma bússola de sonhos

As escolhas vivem na liberdade
Além dos limites desenhados
A verdade reside no inconsciente
Na espera que possa aceitá-la

A vida não é só reagir
A vida não é só planejar
É um agora misturado com depois

É preciso dividir céu e maré
Manter o desejo em vista
Sem tirar o olho do que pode chegar

Eu não posso dizer que sim
Mas posso apontar o começo
Cada um tem um caminho para sair
O meu é o verso

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Continuum” (06/07/2017)

Fim de semana
Fim de ano
Fim de namoro
Para que tanto fim numa vida só?
Para que nos despedaçar pelo caminho?
Viver não é fácil tomando as atitudes certas
Ainda arranjamos todos estes conceitos
De tempo, dor e alívio
Ficamos aqui desmentindo verdades
Para que tantas pedras no caminho?
É difícil evoluir quando repetimos o passado
Pois chega de ponto final e tudo de novo
Perceba as vírgulas da sua história
Acumule tudo que puder no coração
Amontoe os anos e os amores
Construa-se dos mais diversos sabores
Não dê fim, dê continuidade
Nessa sequência aleatória de dias
Somos tudo em um só
O fim represa seus sentimentos em um lugar
E precisamos deles o tempo todo
Mais que completo, seja infinito

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Dia de frio” (01/06/2017)

Eu queria voltar para cama e deixar a vida passar bem devagarinho. Não que minha alma não esteja ansiosa para seguir em frente, para que o tempo necessário finalmente passe e as coisas aconteçam. É que os deveres que se acumulam em meus pés não tem muito gosto e realizá-los sem ver o porquê os torna em fardos. É tudo um processo de fé. Daquilo que somos, daquilo que queremos, do que acreditamos. Eu não acho que sonhamos com o impossível. Sonhamos proporcionalmente a força de nossa alma. O que martela na nossa cabeça é esse potencial, as conquistas dentro do nosso alcance. Então talvez se ficar um tempo suficiente debaixo desse cobertor, deixando o frio soprar pela janela e a garoa escorrer sem pressa pelo vidro; Talvez eu possa fechar os olhos bem forte e enxergar como se fosse agora a felicidade que desejo, e talvez sentindo o que ainda não existe, saboreando essa realidade sublime, eu teria a força para não voltar mais para essa cama.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Para um Amanhã” (05/05/2017)

Quando me encontrar aqui neste sofá me perguntando como tudo aconteceu, muitos dos meus sonhos já serão verdade e a melancolia, que por hora mora, se tornará outra angústia que ainda não sei o gosto. Nada nessa vida é instantâneo, o que acontece é que quando estamos vivendo nossos planos não conseguimos reparar nas horas que passam e quando tudo se completa parece que foi rápido demais, como se tudo tivesse acontecido ontem. Basta olhar para o coração para entender isso. As solidões parecem ter durado muito mais do que as presenças, por mais que o calendário desminta. Envolvidos vivemos, sozinhos contamos os minutos que se arrastam pelo tempo. Por isso ao observar a chuva amiga da preguiça que escorre pelo vidro, quero me lembrar que este agora foi há muito tempo. Tenho certeza que anos nos separam e que a vida te trouxe mais do que posso imaginar. Foram sequências de aventuras, desafios, tristezas e uma felicidade perene. Talvez nada disso tenha levado ao lugar que por hora sonho. É provável que tenha mudado bastante. Mas tudo bem, não quero falar sobre sucesso ou fracasso, só quero te dar a perspectiva de tudo que passou, que cresceu, aprendeu, que foram anos bem vividos e que pode fazer tudo isso outra vez. Se tudo estagnou e nossas verdades se tornaram dúvidas, aproveite. Sente-se e olhe a chuva cair mais vezes. Aproveita para reparar nos anos que passaram correndo. Perceba enquanto é tempo o que realizou depois de mim. A vida tem diferentes belezas, o que precisamos reparar é se estamos em movimento ou parados, para então reconhecê-las. Saiba você que está tudo bem.

 

Temos uma casa, um amor, uma família, um trabalho. Temos muitos sonhos e nenhuma certeza. Alguns dias é preciso um suspiro maior que outros. Há um pouco de vazio, a palavra não vem com tanta frequência e o futuro está embaralhado. Mas continuamos seguindo com a calma possível até achar o caminho que levará até você.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Deixa estar” (04/05/2017)

Em alguns momentos você precisa deixar as coisas serem. Isso não tem nada a ver com derrotismo, com desistir, com aceitar fracassos, com conformismo ou inércia. É na verdade deixar a vida ao seu redor tomar forma, crescer, criar oportunidades, amadurecer e que você possa encontrar as saídas, os caminhos por onde seguir. Eu sei que se pode estar totalmente longe dos sonhos, do que queremos ser, do que queríamos para vida. Mas ela, a vida, também está longe do seu final, tem muita coisa para nos ensinar e mostrar que vão alterar totalmente a nossa perspectiva deste arredor. Por isso deixe as coisas serem. E enquanto isso, o que fazer? Viver. Aproveitar o que se tem, fazer o que se gosta. Ler um livro, ver um filme, cozinhar, jogar um videogame, sair, escrever. Viver seus dias, viver com as pessoas. E não colocar nessas atitudes a pressão do sucesso, da grandiosidade, como se fossem as grandes soluções dos nossos problemas. Não colocar no teu trabalho toda esperança de crescimento, não ficar almejando que seu freela se torne o grande ganha pão, não ficar esperando teu hobby, teu talento para as artes ou algo parecido se torne um viral da internet, que você seja descoberto. Isso tira totalmente a chance de aproveitar as coisas, de compreender os momentos, de saborear o que vida te trouxe. Deixe as coisas serem. Por último, talvez o mais difícil e amedrontador disso tudo seja entender que não há nada para ser feito. Nada. Não adianta bagunçar a rotina, inverter prioridades, lamentar o tempo perdido, se martirizar pela não realização do sonho. Haverá o tempo de agir, se mantenha preparado, será claro, líquido e certo. Até lá não há nada que possa ser feito que esteja nas suas mãos a não ser viver bem, em paz e manter teus sonhos vivos. Chegará o momento de ser grande. Por mais que te doa ou pareça que a vida está passando por seus olhos, na verdade é apenas o ponto de vista, o rio está seguindo sua direção e por mais que pareça incoerente é preciso deixar as coisas serem para que o caminho tome forma e possamos ver com mais clareza o mar. Não há culpa, não há pressa, não tem nada perdido, muito pelo contrário você acabou de se encontrar. Agora permita-se apenas ser.


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Deserto” (20/04/2017)

Me fogem as palavras certas
Embaça o rosto no espelho
Sonhos se confundem com bobagens
Imagino enquanto não sei se vivo

Olhei para fora, dentro e para cima
Mas tudo continua em silêncio
A espera desequilibra a esperança
A fé fica sem lugar

Por que é tão difícil saber?
É apenas uma única escolha
O que me falta fazer?
Para que a alma siga em frente

Nunca conheci um lugar tão vazio
Nenhuma gota de vontade
Nenhuma ideia vinga
Vencido por uma imensidão solitária

Eu caminho pelos versos
Para largar um pouco dos pesos
Suspirar sobre algumas verdades
Manter a insanidade de não saber desistir

Ass: Danilo Mendonça Martinho