“Uma Lenda” (05/04/2012)

Há muito tempo atrás existiu um sonho. Era de uma vida que deixava de ser só. Uma troca de um mundo por uma única companhia. Nesta existência se completavam os corpos, as almas, as palavras. Neste lugar havia espaço para se construir de tudo, até mesmo um futuro. Era uma imensidão preenchida com uma natureza sem fim. Existiam limites irrelevantes e regras ignoradas pelo olhar destes dois que figuravam distantes do comum. Tudo era diferente de dentro daquele jardim que criavam. O sol uma alegria e a chuva uma bênção, o vento uma necessidade e o frio um alívio, o sorriso espontâneo e o choro inevitável. Não existiam pormenores. Tudo era franco, aberto e possível. Nunca construíram uma rua sem saída se quer. Viviam uma continuidade sem esperanças de eternidade. O fim sempre fez parte. Mesmo assim o amanhã jamais invadiu o hoje e cada passo foi escolhido ao seu tempo. Encheram de cores sua história, fizeram do tesouro um invisível. Guardaram no outro toda força, toda paciência, todo carinho, sentimento por sentimento que os faziam crescer. A confiança que o próximo não seria vão mesmo se decidisse partir. As intensidades eram ausentes de propósito, atitudes realmente livres. Como poucos podiam ser plenamente, pois na presença jamais poderiam ser pela metade. Não era uma mão completando a outra, eram dois inteiros que em si encontraram e decidiram compartilhar o mesmo pedacinho de vida.
Este sonho acordou nos lábios de um contador de histórias. Ganhou diferentes versões pelos locais onde passava a procura da realidade. O conto alimentava os pés dos ouvidos e sua existência se tornou tão crível quanto seu imaginário. O homem não descansou enquanto não terminou de percorrer o mundo atrás daquela utopia. Em diferentes línguas sussurravam essas entrelinhas. Cada pessoa levou consigo um pedaço e construiu seu próprio sentimento. A fala reinventava a vida um dia imaginada. Então em uma noite deitou-se ao lado de cada alma este sonho coletivo. Amanhecia pela primeira vez o amor e ninguém jamais esqueceu.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Um dia” (27/03/2012)

Que saudade do profundo deste céu
Levando os pensamentos para longe daqui
O desenho de nuvens esparsas
Sobre esta realidade acinzentada
A janela do trem chorava
Outras vezes se abria
Sobre o mesmo caminho passava
Sem desvios ou rimas
O corpo andava estático
Por impulso do mundo
Em uma espera infundada
Fechava os olhos na saída do túnel

Entre os prédios rachados
Os carros sem rumo
As luzes apagadas
Os corações vazios
Olhava o horizonte
Achava um sorriso

A esperança é o improvável sentimento
Da felicidade que ainda não existe

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Novo compasso” (15/03/2012)

Fecho a janela com um sorriso
A felicidade ficou dentro
Já tenho quatro cantos de mágoa
Precisava pendurar essa alegria
Há romance em todas as prateleiras
Agora a vida saiu do armário
Estou vestindo sonhos renovados
Sento na cadeira sem imaginações
A realidade encosta nos desejos
Meu suspiro preenche esperanças
O tudo também é aqui
Confessei tanto nessas paredes
Preciso contar as boas notícias
Assim quando me voltar ao íntimo
Também encontrarei minha paz
Quando ser feliz é possível
É sempre possível voltar a sê-lo

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Tangência” (27/02/2012)

Estavam todos ali
Num canto de vida
Espremidos na sombra da fuga
Igualaram diferenças
Apertaram seus silêncios
Jogaram os olhos no horizonte
Uma esperança fortuita
Um destino paliativo
O outro voltaria a incomodar
Sua brevidade era aliada
Mesmo assim preferiam-se estranhos
O que há de tão desesperador
Na palavra que alcança o outro?
Nossas faces são os avessos da alma
Espantalho de tudo que é curioso
Escapam todas as peculiaridades
Vistas a olho nu do espaço
Distorcidas na ponta de nosso ego
O mundo é turvo para confianças
Assim permanecemos intactos
Trocando o mal da espera ao sol
Pelo mal da espera amontoados
Somos capazes de nos espremer
Num pedacinho de vida
E não tocá-la

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Solidão Pública” (01/02/2012)

As portas ainda fecham
Penso no que ainda é segredo
As fronteiras são pros outros?
Nos muros somos paradoxos
Seguros de tudo que não nos toca
Incertos de tudo que se poderia sentir

Essas trancas sem chave
Castidades aos corações
Nosso pedaço ainda livre
Que palavras só vivem em diários?
Quais cartas não podem ter destino?
Que almas deixam de respirar?

Arrombei todas as fechaduras
Nem o vento me agrediu
Como se o mundo tivesse espaço
Descobri que a multidão é outro esconderijo
Despi-me das dores e cicatrizes
Entendi que por aqui, a vida só passa

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sintomas do Amor” (17/01/2012)

A brisa é de ar quente na nuca
O horizonte recorta uma silhueta
Dedos deslizam como gelo na pele
Um aninha-se no peito
Outro encontra abrigo nos cabelos

A manhã que brilha em outro corpo
A proximidade embaralha a vista
O rosto que reflete na vida
Um abraço que completa
Um beijo que não quer acabar

O sonho que não acorda
As cartas que encontram destino
O olhar que não se desvia
Um corpo que deita na cama
Outro que deita ao lado

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Segredo” (15/12/2011)

O sentimento não é um limite
Não posso esboçar tua face
Não saberia descrever sua alma
Pois você pode ser tudo
Tenho medo de construir este Tu
Há muitas palavras em silêncio
Posso seguir linhas sem rima
Na tradução imperfeita do olhar
Tenho que insistir enxergar-te
Você não dá dicas como o vento
Visto palavras tão aleatórias
Nem sempre aportam em outros corpos
O que navega por ti, tem destino?
Minha chance é que seja alma
Um coração há de guardar teus segredos
O sorriso revelará sua morada
Poderei finalmente ser verso
A palavra que nunca disse
Penso apenas se de posse do sonho
Resolverei então calar-me

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ensaio sobre o improvável” (03/12/2011)

A vida é um encontro insensato. Somos tantos, perenes, distraídos, algumas vezes desesperados. Temos diversas línguas e outras tantas linguagens. Almas que carregam imensidões de sentido e um pulsar único que dá ritmo ao passo. O encontro é exatamente quando tudo desacelera, quando finalmente há um chão debaixo dos teus pés, e o tempo vira um pouco mais nosso. Eis então toda nossa improbabilidade, nossa fórmula sem resultado, a soma mais complexa da humanidade. Como juntar dois?
Foi quando a vida me acordou envolvido em um abraço, inebriado pela essência na minha pele. Ao olhar para trás é impossível determinar um quando, é como se o agora tivesse sempre existido. Poderia dar outras voltas no mundo e não voltaria aqui. Tem dias que são brechas inteiras de um universo onde com sorte podemos levar. Assim, contra todas as chances, nos encontramos, e encontrar a vida é raro.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Anti-herói” (14/09/2011)

Rasgam mais algumas palavras
Sentimentos largados no chão
Toda voz parece embargar
Mais infâmias sobre o amor
O coração anda sofrendo
Facilitaram as distâncias
Subiram-se paredes de concreto
O tempo virou efêmero

Olho ao redor nas entrelinhas
Há tantos porta-vozes do sentir
Tanta alma em carne viva
O amor escapa pelas entranhas
Invade toda prosa
Vira arma na mão do rancor
Razões de uma emoção
A verdade de um passado
Dissipada no presente

Somos o século do absoluto
Uma geração cheia de certezas
Que definiu o amor
Decidiu tudo que é justo
Sabe apontar o dedo na cara
Desaprendeu a olhar no espelho
Reflexos do que negamos

O amor sofre em nós
Mas jamais foi nosso
Não faça dele um mártir
Vítima das nossas expectativas
Como tudo que aqui nasce
Ele tenta…e também falha
Nobre é admitir-se vil

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Solidão Paulistana” (08/09/2011)

Como a raiz vence o concreto?
As ruas são frias
As almas são vacantes
Os olhares distantes
As verdades obscuras
Os passos escusos
E a palavra um abismo

Tudo por aqui passa
A multidão é vazio
Os abraços casuais
Um céu sem estrelas
Um chão sem sonhos
Inúmeras luzes acesas
Mas nenhum convite para entrar

Somos apenas cicatrizes do asfalto
Rachaduras que ainda respiram
Edifícios de corações
Poluição de sentimentos
Trânsito de silêncios
Becos de esperança
Que o corpo não seja vão

É desta terra inóspita
Onde a rosa crava o espinho
Desabrocha sua vida
Cria raízes na cidade
Acredita no seu lado bom
Nesta solidão…
Encontra companhia.

Ass: Danilo Mendonça Martinho