Ass: Danilo Mendonça Martinho
Categoria: Vida
“Um dia” (27/03/2012)
Que saudade do profundo deste céu
Levando os pensamentos para longe daqui
O desenho de nuvens esparsas
Sobre esta realidade acinzentada
A janela do trem chorava
Outras vezes se abria
Sobre o mesmo caminho passava
Sem desvios ou rimas
O corpo andava estático
Por impulso do mundo
Em uma espera infundada
Fechava os olhos na saída do túnel
Entre os prédios rachados
Os carros sem rumo
As luzes apagadas
Os corações vazios
Olhava o horizonte
Achava um sorriso
A esperança é o improvável sentimento
Da felicidade que ainda não existe
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Novo compasso” (15/03/2012)
Fecho a janela com um sorriso
A felicidade ficou dentro
Já tenho quatro cantos de mágoa
Precisava pendurar essa alegria
Há romance em todas as prateleiras
Agora a vida saiu do armário
Estou vestindo sonhos renovados
Sento na cadeira sem imaginações
A realidade encosta nos desejos
Meu suspiro preenche esperanças
O tudo também é aqui
Confessei tanto nessas paredes
Preciso contar as boas notícias
Assim quando me voltar ao íntimo
Também encontrarei minha paz
Quando ser feliz é possível
É sempre possível voltar a sê-lo
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Tangência” (27/02/2012)
Estavam todos ali
Num canto de vida
Espremidos na sombra da fuga
Igualaram diferenças
Apertaram seus silêncios
Jogaram os olhos no horizonte
Uma esperança fortuita
Um destino paliativo
O outro voltaria a incomodar
Sua brevidade era aliada
Mesmo assim preferiam-se estranhos
O que há de tão desesperador
Na palavra que alcança o outro?
Nossas faces são os avessos da alma
Espantalho de tudo que é curioso
Escapam todas as peculiaridades
Vistas a olho nu do espaço
Distorcidas na ponta de nosso ego
O mundo é turvo para confianças
Assim permanecemos intactos
Trocando o mal da espera ao sol
Pelo mal da espera amontoados
Somos capazes de nos espremer
Num pedacinho de vida
E não tocá-la
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Solidão Pública” (01/02/2012)
As portas ainda fecham
Penso no que ainda é segredo
As fronteiras são pros outros?
Nos muros somos paradoxos
Seguros de tudo que não nos toca
Incertos de tudo que se poderia sentir
Essas trancas sem chave
Castidades aos corações
Nosso pedaço ainda livre
Que palavras só vivem em diários?
Quais cartas não podem ter destino?
Que almas deixam de respirar?
Arrombei todas as fechaduras
Nem o vento me agrediu
Como se o mundo tivesse espaço
Descobri que a multidão é outro esconderijo
Despi-me das dores e cicatrizes
Entendi que por aqui, a vida só passa
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Sintomas do Amor” (17/01/2012)
A brisa é de ar quente na nuca
O horizonte recorta uma silhueta
Dedos deslizam como gelo na pele
Um aninha-se no peito
Outro encontra abrigo nos cabelos
A manhã que brilha em outro corpo
A proximidade embaralha a vista
O rosto que reflete na vida
Um abraço que completa
Um beijo que não quer acabar
O sonho que não acorda
As cartas que encontram destino
O olhar que não se desvia
Um corpo que deita na cama
Outro que deita ao lado
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Segredo” (15/12/2011)
O sentimento não é um limite
Não posso esboçar tua face
Não saberia descrever sua alma
Pois você pode ser tudo
Tenho medo de construir este Tu
Há muitas palavras em silêncio
Posso seguir linhas sem rima
Na tradução imperfeita do olhar
Tenho que insistir enxergar-te
Você não dá dicas como o vento
Visto palavras tão aleatórias
Nem sempre aportam em outros corpos
O que navega por ti, tem destino?
Minha chance é que seja alma
Um coração há de guardar teus segredos
O sorriso revelará sua morada
Poderei finalmente ser verso
A palavra que nunca disse
Penso apenas se de posse do sonho
Resolverei então calar-me
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Ensaio sobre o improvável” (03/12/2011)
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Anti-herói” (14/09/2011)
Rasgam mais algumas palavras
Sentimentos largados no chão
Toda voz parece embargar
Mais infâmias sobre o amor
O coração anda sofrendo
Facilitaram as distâncias
Subiram-se paredes de concreto
O tempo virou efêmero
Olho ao redor nas entrelinhas
Há tantos porta-vozes do sentir
Tanta alma em carne viva
O amor escapa pelas entranhas
Invade toda prosa
Vira arma na mão do rancor
Razões de uma emoção
A verdade de um passado
Dissipada no presente
Somos o século do absoluto
Uma geração cheia de certezas
Que definiu o amor
Decidiu tudo que é justo
Sabe apontar o dedo na cara
Desaprendeu a olhar no espelho
Reflexos do que negamos
O amor sofre em nós
Mas jamais foi nosso
Não faça dele um mártir
Vítima das nossas expectativas
Como tudo que aqui nasce
Ele tenta…e também falha
Nobre é admitir-se vil
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Solidão Paulistana” (08/09/2011)
Como a raiz vence o concreto?
As ruas são frias
As almas são vacantes
Os olhares distantes
As verdades obscuras
Os passos escusos
E a palavra um abismo
Tudo por aqui passa
A multidão é vazio
Os abraços casuais
Um céu sem estrelas
Um chão sem sonhos
Inúmeras luzes acesas
Mas nenhum convite para entrar
Somos apenas cicatrizes do asfalto
Rachaduras que ainda respiram
Edifícios de corações
Poluição de sentimentos
Trânsito de silêncios
Becos de esperança
Que o corpo não seja vão
É desta terra inóspita
Onde a rosa crava o espinho
Desabrocha sua vida
Cria raízes na cidade
Acredita no seu lado bom
Nesta solidão…
Encontra companhia.
Ass: Danilo Mendonça Martinho