“Previsão de Sentimento” (13/02/2013)

Comprei um pedacinho de céu azul. Pareceu-me prudente garantir um espaço em meio a imensidão do horizonte. Uma janela onde sempre pudesse olhar adiante, algum tipo de certeza sobre os amanhãs. Eu escolhi entre nuvens muito bem localizadas. Daqui ainda dá para ver os pássaros da árvore do vizinho, o arco-íris que se forma por cima do muro toda vez que chove. Se eu inclinar a cabeça eu vejo uma pequena casa, que daria para alcançar com os braços, mas é apenas uma ilusão de ótica. Ela permanece distante, em construção, com potencial para uma beleza única. Se olho para cima o Sol nasce e me franze o rosto, esquenta a pele, me abraça e me envolve. Sinto-me mais perto da vida, em contato com o mundo. É bom lembrar-se também como natureza. O vento bate na ponta do nariz e não importa muito a direção. Despeço-me com um sorriso sincero e saio com a certeza que no coração permanecerá tempo bom.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Não sei se é Natal” (26/12/2012)

O vidro trabalhado distorce o nascer do sol que me acorda. Desperto em uma memória muito viva. As cores da folhagem, do céu, das paredes e do sofá. Tudo está intacto. Queria poder trazer outras pessoas aqui. Não me recordo exatamente dos natais que passei neste lugar, mas jamais esqueço a melhor forma que a vida me acordou. O mundo preocupava menos é verdade, mesmo assim assim aquela natureza trazia uma paz inigualável. Já mudei tantas vezes minhas cama na busca deste raio magnífico, sem sucesso. Hoje quando a luz chega, meu corpo já está vagando há algumas horas. Talvez o importante é que o momento ainda é vivo.
Do outro lado da janela há um avarandado que cerca toda casa. Nos pilares de tijolos laranjas diversos ganchos para descansar as redes. O vidro do amanhecer, faz na verdade parte de uma porta, dessas que as casas tem para receber convidados sem passar pela cozinha. Jamais foi aberta. Mais adiante há um lago entre duas grandes árvores que costumávamos subir. Na esquerda o campo de futebol improvisado e na cerca os pinheiros enfileirados. A casa era um único silêncio. A sala da TV e os quartos ficavam no lado oposto das janelas. Um batente sem porta separava tudo da copa e da cozinha. Eu de olhos abertos, aguardava. Logo tinha o café em família, logo o quintal estava aberto e poderíamos todos se perder em mais um dia.
Não lembro se era natal, só sei que todo ano isto era meu presente, aquele que mais queria…a felicidade.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Natural” (13/10/2012)

A natureza respeita a chuva
Em silêncio os animais pastam
Os pássaros saem a caçar
Os insetos não dão sinal no meio do mato
Cachorros se aninham sob a copa das árvores
As flores seguem seu desabrochar
O papagaio engaiolado cochicha
As folhas passam recado pelo vento
Mas nada pára
Trabalhadores discretos
Fazem tudo atrás do véu branco
Deixando a chuva ter seu momento de paz

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Não Ainda” (15/09/2012)

A brisa ainda sopra entre os raios de Sol
O inverno permanece como pano de fundo
Insistente em reinar por toda sua época
Ele gela as madrugadas
Esconde o mundo na cerração enquanto puder
Raramente ainda consegue unir negras nuvens
Ele sabe que seu tempo é escasso
Mas não desiste em vivê-lo na plenitude
Pega desprevenidos os que olham, mas não abrem as janelas
O horizonte engana, ele ainda está aqui
Não é uma simples questão de nostalgia
É entender qual lugar pertencemos
O inverno não vai se importar de partir
Mas vai soprar esse vento gelado até lá
Todo mundo tem seu propósito na vida
Não há porque desistir antes do fim
Abri a porta e deixei a estação entrar
Contar para mim seus últimos segredos
Ainda há tempo de um abraço
Ainda existe melancolia no fim de tarde
Ainda sopra um vento virtuoso na alma
O inverno ainda há de convalescer os corações

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Manchete” (13/09/2012)

A palavra se precipitou
Entregou a verdade
Nas mãos da ilusão
Passou seca pela garganta
Desaguou em desespero
O sentimento mora perto

A tragédia é diária
Corpos alheios do contato
Ruas cheias de objetos
Mas nenhuma revolta
Tudo já virou paisagem
Desde a alegria até a miséria
A palavra também abriu mão

A fé no que é humano
Sobrevive ao jornal na TV
Ao tiroteio no cruzamento
À fome do concreto
À sede pelo poder
Até que a última voz se renda
E não exista mais porta para bater

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Um dia de cada vez” (10/09/2012)

Perdoa se o alvorecer parte
A felicidade é perene
Os caminhos que se desenham
Sempre voltam

A primavera pode ser a primeira
Mas os espinhos já feriram
O que vinga nesse jardim
É vida que desconsidera o tempo

O fim de tarde guarda a cor da memória
O mundo gira em nostalgia
O sonho recria o encontro
Acordar é sempre um novo desejo

Perdoa se a noite volta solitária
Não é preciso nenhuma aurora
O sentimento é a eminência
Do que já existe fora de si

Dorme com a certeza
O futuro é um lugar desconhecido
Mas para onde viajamos com a alma
Levamos quem a gente quiser

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Amanheceres” (14/08/2012)

A madrugada ainda não nos deixou os olhos, mas os pássaros cantam anunciando o dia. A aurora parece nos perseguir ao longe e ficamos espremidos entre a manhã e a noite. O tempo nos é tão escasso que escapa enquanto precipitamos nossas mãos até a janela. Um gesto ainda meio sonhado que ao término já encontra as nuvens brancas do seco inverno. Sábios são os pássaros.
O humano acostumou-se a construir-se e viver sobre a natureza. Mas a conformidade não faz das coisas uma verdade. Não conheço flor que seja pano de fundo. Se pudesse dormiria de fronte ao horizonte para que o raiar viesse me lembrar da vida, e o encontro entre o sonho e a realidade não fosse tão súbito.
Penso que talvez se não invadisse a madrugada, o Sol me revelaria meus desejos e seria então só dar bom dia para a felicidade. Mas é provável que tudo permaneça na penumbra do amanhecer. Uma chance, como todo dia o é.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Despetalando Nuvens” (07/05/2011)

Rasgam entre as sombras do outono sorrisos amornados. Invejam aqueles que passam perenes sem proposta de destino. O inverno será uma prova, mas não o fim dos solitários. O sentimento é o tronco da árvore que por hora se desfaz, resistindo ao vento, encolhendo-se diante o mundo. Ninguém duvida que se manterá viva. Pois os rostos sem felicidade guardam na alma forças inconscientes. Essas se farão presentes quando faltar o abraço. A verdade é que contamos muitos invernos até começar a contar primaveras. A vida é um céu entre nuvens. As vezes plena, outras ausente. Quando olho para estes sorrisos a meia luz, passo a pertencer a uma esperança de que muito em breve eles amanhecerão plenos.

Deixe o outono passar. Deixe o inverno ser. Os nasceres ainda hão de nos levar até as flores.


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Virada no Tempo” (28/04/2012)

Tem dias que são assim. Enrolamos o corpo no cobertor, escolhemos o melhor lugar em frente a janela e deixamos chover. A vida ganha outra perspectiva no prisma das gotas que irremediavelmente tentam se agarrar no vidro. Eu prefiro recostar contra o parapeito, ficar à beira de tudo, sabendo que não farei nada. Podemos ser apenas retrato. Esses dias de frio deixam tudo na ponta do nariz. Um íntimo que te faz acreditar no resto, um aconchego que te traz paz. O asfalto se veste de natureza refletindo as árvores das calçadas. Tudo respira, se aproxima, aperta-se, como se fossemos só inteiros. Gosto de pensar assim. Largar esse papel de peça. O viver é tão moldável quanto os sonhos, a diferença é que um deles está nas nossas mãos. Ao olhar para fora o que está por dentro, ficamos mais possíveis. É encolhido na existência que descobrimos o total de nosso ser. É assustador, tanto que o dia deságua sem nem percebemos. Precisamos de um tempo para olhar para dentro e assumir os nossos sonhos. De tempos em tempos crescemos, enrolados no mesmo velho cobertor.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“As antigas primaveras” (16/04/2012)

Tonia, Odete e Virgínia eram muito amigas. Meio fora de época exibiam seus azuis, brancos e grenás em grandes coroas nos cabelos armados e volumosos em um demodê quase que ultrajante. Os perfumes fortes eu conseguia sentir da minha janela toda vez que passavam. Mas também não posso negar a graciosidade de suas maneiras e como enfeitam o chão onde se encontram. Passa o vento e elas delicadamente balançam seus braços colocando tudo de volta ao seu lugar. Tomavam sorrisos desatentos, olhares apaixonados. Ah, quantos sonhadores estiveram sob suas vistas, elas até sussurravam alguns conselhos. Teimosas sem dúvida, coisas da idade, ninguém sabe bem ao certo quanto tempo vivem ali. Não sei quando comecei a observá-las, mas elas falam da vida muito antes de mim. Fofocam feito passarinhos que cantam entre os galhos, quando ouço algum chiado, já sei que as três velhas amigas se encontraram no jardim.
Um dia desses as encontrei desavisadas espalhando flores pelo chão da praça, já faz tempo que passou a primavera, mesmo assim, por capricho talvez, forraram o chão de pétalas coloridas: azuis, brancas, e grenás. Foi uma alegria especial a um casal de namorados que deitados se divertiam ao despetalar mal-me-queres agora que já não os importava mais. Um velha senhora alcançou uma flor azul turquesa e pôs em seus cabelos abrindo um sorriso que parecia vir de muito tempo no passado. Um poeta, em dúvida e conflito, se deparava entre as dores das flores tiradas de seus lares, e os amores conquistados pelos buquês. Assim eram estas velhas amigas que mudavam qualquer rotina com seus enfeites. Chegaram até um dia a competir para ver quem tinha o mais bonito, mas há muito tempo aprenderam a dividir o mesmo espaço. Agora depois de velhas, resolveram brincar com alguns distraídos que passam sem saber onde estão, achando que talvez ainda possa ser verão. Divirto-me, toda vez que abro a janela e ao vê-las dançar entre os ventos vendo minha atenção aos seus trejeitos e espero em silêncio a travessura, coisas de velhas malucas, coisas de crianças eternas.
Hoje abri minha janela para o canteiro da praça recortado pelas avenidas. Foi só isso que avistei. As formosas madames de outro dia que imperavam em pleno outono estavam irreconhecíveis. Galhos secos, tronco curvado, e o chão aparecendo a terra. A poesia de minha vista tinha se desfeito durante a noite. Mas sorri. Não é a primeira vez que isso acontece, e elas sempre me entregam em segredo que voltam. Elas sempre voltam e eu fico aqui a espiar.

Ass: Danilo Mendonça Martinho