“Portos e Tempestades” (22/06/2012)

Despencam os raios sobre a vida
Tudo parece tão longe
Nosso passado se mistura na chuva
É sentir sem lembrar
Eu sei o quanto doeu
Só não sei descrever seu lugar

Certas coisas viram paisagem
Presas numa parede inerte
O mundo agora só passa
Desde quando ancoramos nossos pés
Hoje a maré só traz
Aprendeu o caminho de casa

Não voltarei a navegar sozinho
O norte será nosso
Enfrentaremos o futuro revolto
Descobriremos outras felicidades
Abraçaremos o amanhã incerto
Faremos do coração morada da alma
Não voltarei a soltar tua mão

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ensaio sobre o romance” (20/06/2012)

Tudo para voltar ao mesmo velho canto do travesseiro, com a mesma tempestade caindo lá fora. A alegria reserva o mesmo leito da infelicidade, dorme ao lado da tristeza e acorda no frio de um inverno. Por todos os passos de nossas dores, ela existiu. Nos encolhemos vezes demais, e ela é dessas que se alcança.

Tudo começa quando se abre os olhos, cansado de seu inchaço e vermelhidão. Resolvemos olhar para o mundo nem que seja sem cor, nem que apenas sobre rancor. O olhar é um lugar de intempéries. Reside nele nossa intenção, já de muito frustrada, acolhida pelo medo. Em segundo plano tudo que queremos ignorar, como se pudesse impedir a beleza de uma flor. A vida te encara. No fundo dos olhos dela, como se fosse teu primeiro encontro, alguém olha de volta.

É quando abrem-se os braços. A esperança de prontidão que vence por pouco nossas resalvas. Mas o humano guarda essa vontade de se completar na vida. Mesmo que seja um vulto, mesmo que passe sem notar-te, mesmo que a estadia seja breve, mesmo que no fim a mão volte vazia…Não há como não estender-se a chance de que aquele próximo, seja seu único.

É quando se abrem os sorrisos. Seja um instante, seja a eternidade. Sabemos que nesse gesto tudo ficará bem, independente da palavra, da presença ou mesmo do amanhã. Basta este sorriso a cada novo encontro e tudo nesse mundo tem ao menos o sonho de ser feliz. Basta estar de olhos abertos.

O amor verdadeiro te faz chorar. Afinal a felicidade que finalmente preencheu aquele vazio, é digna de uma lágrima no velho travesseiro.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Vai e Vem” (02/06/2012)

Coloquei-te em um frasco
Atirei ao mar
Veio então ancorar-te
Na areia do meu cais

Trilhaste o caminho para casa
No calçado trinta e três
Deixaste teu cheiro na varanda
E o café pronto ao pé da cama

Embrulhei-te no travesseiro
Para nunca mais te perder
Amanheceste um romance
Possível de se viver

Lembro-te ainda pequenina
Sonho flutuando na imensidão
Voltaste para minha alegria
Estrela guia desta canção

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Imperfeições” (25/04/2012)

Vivemos a procurar os nuances de um amor, as suas delicadezas idealizadas que o fará nosso e único. Pois cabelos encaracolados todo mundo tem, mas só o seu cai pro lado direito, arrepia de pertinho e me deslumbra andando na rua. Olhos bonitos todo mundo tem, mas amendoados recheados de chocolate e grandes para caber uma alma, só você. Teu sorriso é centralizado, discreto, tímido e sincero, meio que pede mais. O rosto tem outras miudezas como lábios finos e o nariz todo perfeitinho. Tua nuca tem um rabo de cabelos lisos como de bebês. Já teus braços levam as mãos firmes de dedos compridos com um dedão um pouco desviado. A silhueta não é igual das outras. Tem um corpo proporcional, vistoso que você sabe valorizar. Tuas pernas arrepiam e teus pés são pequenos como de um anjo. Abraço todo mundo tem, mas só o seu me fez ficar.
Talvez não ser o outro, seja o melhor que possamos ser.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Uma Lenda” (05/04/2012)

Há muito tempo atrás existiu um sonho. Era de uma vida que deixava de ser só. Uma troca de um mundo por uma única companhia. Nesta existência se completavam os corpos, as almas, as palavras. Neste lugar havia espaço para se construir de tudo, até mesmo um futuro. Era uma imensidão preenchida com uma natureza sem fim. Existiam limites irrelevantes e regras ignoradas pelo olhar destes dois que figuravam distantes do comum. Tudo era diferente de dentro daquele jardim que criavam. O sol uma alegria e a chuva uma bênção, o vento uma necessidade e o frio um alívio, o sorriso espontâneo e o choro inevitável. Não existiam pormenores. Tudo era franco, aberto e possível. Nunca construíram uma rua sem saída se quer. Viviam uma continuidade sem esperanças de eternidade. O fim sempre fez parte. Mesmo assim o amanhã jamais invadiu o hoje e cada passo foi escolhido ao seu tempo. Encheram de cores sua história, fizeram do tesouro um invisível. Guardaram no outro toda força, toda paciência, todo carinho, sentimento por sentimento que os faziam crescer. A confiança que o próximo não seria vão mesmo se decidisse partir. As intensidades eram ausentes de propósito, atitudes realmente livres. Como poucos podiam ser plenamente, pois na presença jamais poderiam ser pela metade. Não era uma mão completando a outra, eram dois inteiros que em si encontraram e decidiram compartilhar o mesmo pedacinho de vida.
Este sonho acordou nos lábios de um contador de histórias. Ganhou diferentes versões pelos locais onde passava a procura da realidade. O conto alimentava os pés dos ouvidos e sua existência se tornou tão crível quanto seu imaginário. O homem não descansou enquanto não terminou de percorrer o mundo atrás daquela utopia. Em diferentes línguas sussurravam essas entrelinhas. Cada pessoa levou consigo um pedaço e construiu seu próprio sentimento. A fala reinventava a vida um dia imaginada. Então em uma noite deitou-se ao lado de cada alma este sonho coletivo. Amanhecia pela primeira vez o amor e ninguém jamais esqueceu.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ser ou não ser” (30/03/2012)

Se um dia descobrir que não amo
Terei construído um jardim de inverno
Uma beleza presa em uma redoma
Verei a chuva escorrer no vidro
Incapaz de distinguir das lágrimas
Onde plantei a felicidade?
Prometa que mesmo sem o toque
A rosa seguirá seu curso
A dor é um sentimento que também nasce
O provável é que essa não tenha fim
Cultivarei ela como o amor
Preservando a parte viva de mim
Todo resto terá partido
No mesmo olhar que se fechou
Atrás da porta deixarei a lembrança
Partindo sem nada que não me pertença
O que se vive a dois jamais caberá em um
Um armário vazio de sentimentos
Um espelho vazio de sentido
Descobrirei o lado oco da alma
Sem amor não existirei em mim

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Leito” (16/03/2012)

Fecha os olhos e a janela
Vem ver o Sol nascer
A meia luz de um coração
Que espera por você
Não corre não
Amor não precisa de hora
Apenas um abraço e uma canção
Façamos de cada aurora
Um novo alvorecer
Se ponha nas minhas costas
Madrugue nos meus lábios
Dance seu corpo nas notas
Que derrubam teu silêncio casto
Deflagre o interior do sonho
E lembre que no caminho da realidade
Vais me encontrar risonho
Na alvorada dos teus olhos

Hoje dorme tranquila a felicidade
Sob uma garoa de outono

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Novo compasso” (15/03/2012)

Fecho a janela com um sorriso
A felicidade ficou dentro
Já tenho quatro cantos de mágoa
Precisava pendurar essa alegria
Há romance em todas as prateleiras
Agora a vida saiu do armário
Estou vestindo sonhos renovados
Sento na cadeira sem imaginações
A realidade encosta nos desejos
Meu suspiro preenche esperanças
O tudo também é aqui
Confessei tanto nessas paredes
Preciso contar as boas notícias
Assim quando me voltar ao íntimo
Também encontrarei minha paz
Quando ser feliz é possível
É sempre possível voltar a sê-lo

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Filosofia” (18/02/2012)

Poderia voltar a desenhar todo universo
Seria incapaz de dizer o que mudou
Uma parte de mim tomou vida
Mas ninguém consegue lembrar da tua ausência
Nem mesmo as fotografias lhe ignoraram
Só meu olhar te desviava
Levou-me a ti com calma
Deixou em paz tudo que não foi
Girou a moeda e aprendi a deixar partir
Sobrou-me a liberdade de caminhar só
Não sei exatamente quantos
Nenhum deles foi simples
Até que um dia acordou comigo
No canto da boca, discreto
Agora não sei o que nasceu primeiro
O sorriso no meu rosto
Ou você no meu coração
Os dois parecem uma parte eterna de mim

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sensações a segunda vista” (08/02/2012)

Na penumbra da madrugada
Abraço uma dor incomum
Recostada no meu peito
Entrelaço meus dedos no labirinto
Sinto a pele que passa para alma
Perco a possibilidade da razão
Um sonho invadido
O olhar a recortar o inseparável
Penso até onde carregarei
Mas abro mão do tempo
Ela libertou meu pensamento
Dissipou meus quereres
Uniu tudo em um único lugar
O corpo que me envolve
Repousa contra o meu
O melhor peso que já senti
De uma paixão real

Ass: Danilo Mendonça Martinho