“Cangote” (19/01/2012)

Faço morada junto aos cabelos mais rentes
Respiro pele sem essências artificiais
Aqui meu corpo encontrou encaixe
Na cabeceira dos teus sonhos
Vejo as colinas até teus lábios
A planície até teus seios
Mapeio teus jeitos no olhar
Sinto todas as suas expressões
Minha mão corre suave
Envolve a cintura e descansa
A posse se entrelaça nos dedos
A alma liberta-se no amor
Aninho-me nesta penumbra
Enquanto ainda não somos amanhã
Moro em um pedaço do eterno

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Testamento” (18/11/2011)

Vou levar comigo todo amor
O lençol, o travesseiro e o cobertor
A foto na cabeceira e a 3×4 da carteira
Estou levando os casacos e o cheiro do armário
O reflexo atrás de ti no espelho do quarto
Não vai encontrar a escova e o aparelho de barbear
Levei a tolha que roubei do hotel com vista pro mar
Rasguei-me também de todas as fotografias
Não deixei nenhum presente que te dei
Coloquei na mala todo meu pedaço de vida
Destruí, uma por uma, nossas fitas
Desfiz sem dó, laço por laço
Não ficou imagem, som, nem palavra
Não se engane, carreguei o silêncio porta afora
Chave de fenda, martelo, prego, parafuso
Suor, saudade, sorriso e abraço
Pode olhar, não tem meus CD’s na prateleira
O livro do Manuel de Barros não está no criado mudo
Eu lavei e guardei toda louça
Coloquei no lugar a poltrona da sala
Desprogramei a secretária eletrônica e a televisão
Não guardei nenhum filme que planejamos ver
Já mudei as datas das minhas férias
Minuciosamente apaguei meu nome da tua agenda
Desmarque o florista, levei tudo que plantei
Rosas, lírios e as azaléias
O violão que aprendi apenas tua serenata
Ao cozinhar não procure minhas receitas
Não terá mais na boca nem meu beijo, nem meus sabores
Não passearemos no parque
A comunhão das nossas mãos será apenas desejo teu
À noite, a sombra no corredor não será minha
Pode amassar o travesseiro, não marcará minha presença
Perca o costume de parar nas lojas de esporte
Não volte ao restaurante da primeira vez
O jeito que gosto do café foi comigo
Jamais gostei de pizza fria
Levei a cópia da chave e fechei a porta
Não há ninguém além de você na casa
Passará dias me buscando entre as cortinas
Nem mesmo minhas cartas chegarão
Ficará sem meu olhar de adeus
Deixo-lhe somente nossa memória
Assim será tua escolha, me esquecer.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Fato Consumado” (13/10/2011)

Duas almas na incerteza do amanhã
A beira da impossibilidade do “nós”
Tatearam as saliências de seus corpos
Salivaram desejos por toda pele
Descobriram os limites do prazer
Para abandonar todos os pudores
Mergulhados na satisfação mundana
A simplicidade da nudez
O primitivo instinto de querer mais
Abstinência do tempo pelo eterno
As marcas dos arranhões nas costas
A paixão maior que a razão
Saciar a chama até o último fôlego
Traíram as certezas do futuro
Ao consumar a vida com o agora

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Se puder…” (30/10/2007)

Esquece-me mente, em um breve momento de piedade
Sei sofrerei as conseqüências, só que mais tarde
Poupai meus passos deste peso a toa
Se existe em mim, como grita tão alto?
Se existe em mim, por que simplesmente não te calo?

Esquece-me hoje, e se possível amanhã também
Sua possibilidade diária me assusta
Insistindo nas minhas contrariedades
Por que não sussurra e me põe a dormir?
Por que não se senta, e apenas descreve meus sonhos?

Lembra-me mente, em um breve momento de saudade
Permita-me um leve vôo de liberdade
Pouco importará o que se faz real
Queime minhas asas se for tolo o suficiente
Queime minhas asas se eu ousar mais

Lembra-me hoje, só posso agora
No momento que me enxergo fora da razão
Aproveita que esqueci de proteger o coração
É impreterível que me tome pelos braços mais uma vez
É impreterível que não me deixe escapar para sempre

Ass: Danilo Mendonça Martinho

Você pode ouvir este poema no próximo dia 22 de Setembro na “Noite de Autógrafos+ Sarau” do livro “Poeta da Colina – Um Romântico no Século XXI”. Para ganhar o seu autógrafo basta levar o seu exemplar.

Conto com vocês.