“Contornando” (18/11/2018)

A vida é cheia de limites
Não é mesmo
Os sentimentos no caso
São os contornos da alma
Eu também queria aprender a fugir
Do que se carrega no olhar
Mas no fim só me resta confessar
A esperança não é minha
Essa é a mais nova fronteira
O ímpeto, a coragem, a felicidade
São visitantes que se esgotam
O cansaço que se projeta no corpo
Não se compara com o que esconde a face
Neste oceano que é viver
Ninguém escapa das tempestades
Trancado aqui dentro
O sonho esmaece em um suspiro
A alegria não equilibra o peso
O tempo escorre como se fosse findar
Por que não jogar as âncoras?
Por que não se entregar ao mar?
Mas quem superou os limites
Quem continuou mesmo avisado
Quem amou mesmo sem carinho
Que fez pela primeira vez
Descobriu na insistência
Temos que ser mesmo depois da esperança

Ass: Danilo Mendonça Martinho


“Desatado” (17/11/2018)

Quero ser leve, como a gota de chuva que nunca chega ao chão. Desfeito em milhares de prismas, construir o arco-íris, abrir mão do sonho, das esperanças e das expectativas. Um vôo pleno, sem me preocupar com depois. Diluído na tempestade, mas único no propósito. Uma vez ser todo, respirar sem passado na garganta, sem lágrima embargada, viver como se fosse acabar. Quero a paz e silêncio deste céu, sorrir….e em um relâmpago esquecer. Só quero sentir a inocência de abraçar a vida sem receios, uma essência no ar, uma verdade sem desvios. Quero mais que o fim, quero a intensidade desta queda e, se ela é livre, por que qualquer outra coisa não seria. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho


“Será?” (05/10/2018)

Talvez seja isso
Uma cordialidade de fachada
Uma imagem pro vizinho
Uma risada para o chefe
Um carnaval de máscaras
Construímos aparências
Sem construir caráter
Talvez seja isso
Nos movemos pelo ódio
Gostamos de dar rasteira
Do gosto do sangue do inimigo
A sociedade do desprezo ao próximo
O que pensamos ser bolha digital
É provável que seja retrato fiel
Somos essa força primitiva
Agindo para sobreviver
Temos o privilégio do pensamento
Mas não sabemos combater o instinto
Só justificamos o animal em nós
Então que seja isso
Na cabine encontre teu reflexo
Encontre tua raiva e teu medo
Liberte tua vergonha e silêncio
Seja cru e real
Quem sabe diante nossa verdadeira face
O horror nos faça mudar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Dividido” ( 02/10/2018)

Eu tenho procurado palavras
Algo bem no meio do bom senso
Diferenças são personalidade
Somos comuns no desejo
Mas antes do amor somos contra
Sabemos onde colocar nosso ódio
Só que estamos perdidos com a esperança
Quando não é a paixão que nos move
Quando respondemos violência com opressão
Insegurança com medo
Opinião com censura
Diálogo com ignorância
Respeito com indiferença
O que construiremos sobre o alicerce da raiva?
O que chamaremos de nação?
Desisti dos versos nesse deserto
O meio do caminho
Virou uma completa solidão
Um silêncio ensurdecedor
A única palavra que resta é liberdade
Meu lugar é ao lado dela
E só não me calo
Para não perdê-la também

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Urbana” (31/08/2018)

Um amigo me disse
Que a poesia devia permanecer à margem
Talvez por isso combine com os muros
Nossos limites diários
Nossa ilusão de segurança
Mas a poesia segue nesta margem
Pois ignoramos nossas cercas
Nos cercamos de verdades farpadas
Acreditando estar a salvo da solidão
A poesia na parede fria
Recebe olhares desenganados
Ela encara e não desiste
Não importa o sentido desde que o faça
Ele embarcou para Barra Funda
Muita gente, muito tempo
Muita realidade que vem de dentro
Caem os filtros, caem as máscaras
E na borda da loucura
Quem resiste é o verso
Cru e sem açúcar
Coloca teu pé no chão
Lembra que há vida na próxima estação
Mesmo que seja apenas poesia

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Tudo que tenho” (03/05/2009)

Sábio foi meu amigo a ponderar:
O Amanhã está longe demais
Eu mal recordava disto
Dias que duram semanas
Esta dor aguda prolongada
As horas me pareceram um deserto
Eu sem muitas forças para lutar
Instalei-me neste inferno
Mais hora menos hora descanso
Um sonho me leva daqui

Mas a promessa do amanhã
Esta é de alto risco
Algumas vezes incalculáveis
Não posso por no papel
Nenhuma dessas palavras
Não posso subtrair significados
Não posso somar sentimentos
Se amanhã permanecer promessa
Saberei que simplesmente perdi

Mesmo assim não reajo
Não é medo do passo em falso
Apenas decidi que não quero
Precipício abaixo já conheço
Hoje almoço o cru e concreto
Não alimento esperanças
Quero apenas respirar
Se lhe parecer muito pouco
Tente tirar meu fôlego

Ainda consciente quero lhe falar
Esta areia que escorre entre os dedos
Isto é o mais concreto que tenho
Isto é tudo que é real agora
Não há miragem suficiente
Nada que possa me dizer
Nada que possa abraçar

Insensato sou eu a esperar
Mas na impossibilidade do real
Tenho que sobreviver o dia
Se for necessário uma verdade
Que você não existe meu amor
Que não exista então
Nem hoje, nem amanhã!

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Vil” (26/04/2009)

Nos meus braços
Ao alcance de uma sutileza.
Insinuações desesperadas
Mas ignorei com crueldade
Tudo parecia bom…
Não seria verdadeiro.

O que fazer, como reagir?
Tem jeito certo para acordar alguém?
E se ela não sair deste sonho?
E se tiver que cair da cama?
Este chão é frio
Esta realidade o pesadelo,
Mas cumpri o papel
O diretor me apontou vilão.

Esqueci algumas rimas
Adiantei algumas deixas
Dei as costas e sai
O ato final não era meu.
Ao longe ouvi o choro
Distante senti a angústia
Na escuridão apertei o peito
Fechei o quarto vazio.

Ass: Danilo Mendonça Martinho