“Simples” (17/03/2015)

Que o dia passe
Mas não me traga esperanças
Apenas me leve
Como folha de outono libertada
Que a vida preencha
Os passos os quais não sei seguir
Me conceda um sinal
Para que o horizonte não seja infinito
Que me tome pela mão
As palavras que não devia abandonar
Nas noites frias
Quero apenas um cobertor sem sonhos
Dormir com o peso do corpo
Deixar a alma ir para onde quiser
Que seja feliz
Acabar com a busca sem propósito
Hoje sou pleno
Amanhã poderei ser tudo
Natural é ser livre
Cair no outono….renascer numa primavera qualquer

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Agenda” (28/02/2015)

Não consigo evitar de ver a chuva caindo lá fora
A cada lembrança do que preciso um raio me ataca
E permaneço inerte tentando achar o que mudou
Quando toda essa alma virou um fardo
Minha razão grita por uma liberdade que desconhece
O vento que passa é o vento que sopra…..sem resposta
Sinto que quero negligenciar minha vida por completo
Deixar de ser tantos para ser nenhum
O ônibus que passa e volta…..e se deixa levar
Querer me impõe escolhas que não me cabem
Sou insuficiente de vontade para ser o tempo todo
A decepção cotidiana do espelho me destrói
Não há um passo nessa vida que eu posso planejar
É necessário ignorar o que preciso para me distrair
Ou ignorar o que eu quero pelo que preciso
Abandonar minha liberdade para controlar o que faço
Chuva, quem te manda cair?
Vai acabar o dia e deixarei alguma parte de mim de lado
Quero seguir naturalmente como suas águas
Aceitar a cada segundo sem saber do próximo
Um querer sem planos, um relógio sem pressa
Para que nenhum final de dia eventualmente me mate

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Voltar” (03/02/2015)

No mais escuro da noite
Entre ruas desertas
Lugares ainda não familiares
Encontro a paz no meu destino
Vou olhar a caixa do correio
Entrar no que construí
Checar todos os cômodos
Lavar os olhos do cansaço
E por fim, os teus braços

Sob as raras estrelas
O silêncio reina sobre os olhares
O onde é comum e diferente
A alegria é particular
E embora as vezes doloroso
É um privilégio voltar

Não saberia viver sem dizer adeus
Que parto com um olhar por mim
Caminho com um coração completo
O mundo pode ser imenso
Mas eu só preciso de um abraço
E estarei em casa

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Porto” (20/10/2014)

Foi como chegar de uma viagem sem precisar partir. Descarregar nossas roupas, nossas coisas e nossa vida. Tons de felicidade que não conhecia. Não era simplesmente o sorriso, nem era o abraço, era algo mais interno, completo e pleno, um encontro com o futuro, a sensação de viver um sonho, de ser feliz sem nenhum esforço. Estávamos em casa, pela primeira vez. A noite não era a mesma, as luzes ligadas davam um tom de permanência e ouvia o chuveiro ligado do sofá, via a cidade no horizonte e ajeitava nossos pertences, arrumamos a cama e na penumbra da sala olhava pela janela todos meus próximos dias. Faz alguns dias que não me sinto bem, que desenvolvo um pouco de frustração e melancolia, que a realidade me fatiga e me arrasto, o alívio me era raro. Mas quando chegamos meu coração se encheu de esperança, viu todos motivos para seguir. Guardei na minha alma o lugar que poderei fechar os olhos e lembrar toda vez que precisar fugir. Amor, somos um lar.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Notícias de um passado” (17/10/2014)

Foi em uma viagem sem propósitos e com uma noite mal dormida que se encontrou preso no banheiro. Do lado de fora sabia que já se resguardava acordada a mulher de qual a razão queria distância, mas que o corpo e suas necessidades afloradas pela manhã lhe atacariam sem forças para evitar. Por um mero instante esperou e conscientemente deu descarga nos seus pudores e teve primeiro a certeza de ter chamado atenção, para depois sair cheio de libido e encarnar os sonhos que nem eram seus. Seria uma escolha de um caso de uma noite que provavelmente não afetaria em nada teu agora, mas foi evidenciado claramente a marca de uma vida naqueles lençóis, uma dobra, uma fenda, uma decisão profunda, uma construção de caráter, um tornar-se, uma mudança.
Nesse mesmo lugar, tempos depois, alguém vulnerável, disposta a deixar, por um instante, seus princípios, gostos e vontades. Pronta para ser sugestionada a aceitar a ideia de que o diferente era a saída para seus pensamentos ligados a quem não estava ao seu lado. A proposta de experimentar uma alternativa para ser feliz. Deixar tomar seu corpo meio apagado pela tristeza e quem sabe poder se esquecer enquanto o outro pudesse se enganar. Num acordo velado de almas que precisam, e até uma mentira serve para sobreviver. Um dia a verdade estaria ali como a única coisa que sobraria, uma dor que talvez até não fosse tão grande já que não houve entrega, mas, ainda assim, uma dor suficiente de envergonhar olhar na cara. Aqui não saberia dizer o tempo que isso duraria, mentiras tendem a ser altamente autossuficientes, encontrando palavras e meios de seguir de uma forma cômoda e imperceptível. Essa lembrança tem contornos mais fortes de mudança, e talvez uma que te levasse para sempre longe desta agora tão mais real, tão mais verdadeiro, tão mais completo. A verdade é que mesmo com todo este potencial, aquilo jamais pareceu uma opção.
Há muitos outros momentos por aqui. A garota que comentava com amiga, e nunca teve a coragem de perguntar o que era. Aquela pergunta inconveniente no ônibus vazio. As pessoas que te acuaram e as quais você nunca prestou atenção. No fim deste tempo sempre beira uma única coisa, consciente ou não, emoção ou razão, tudo foi sempre uma escolha, e escolhas são o puro resultado do que somos, ou éramos. As notícias que te trago jamais poderiam fazer parte de quem você é. Siga em paz, pois tudo aqui já está.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sobre o que não passa II” (14/10/2014)

Sinto ser eu a lhe dizer, mas o tempo não vai esquecer a sua dor. A marca debaixo da pele é perfeitamente visível no espelho. Não há como apagar o que faz parte de quem você é. O sentimento tem intensidade, tem gosto e algumas vezes até mesmo forma, mas não tem cura. O tempo só pode te dar distância e por mais que possa ficar longe daquele momento não há como separar de si. Somos profundamente entrelaçados as nossas escolhas e somos, em maior ou menor quantidade, os seus resultados. A dor é um componente da alma humana que só podemos equilibrar. E aqui, antes que desista de ouvir as minhas palavras eu te aviso: há sim uma escolha. Você pode deixar a cicatriz te guiar por completo ou fazer dela apenas uma parte. A lembrança pode ser um tormento ou apenas um suspiro lamentando o que já não é mais. Saber que não há nada que te preencha por completo, não importa o tamanho do que sinta, a vida tem espaço para tudo. Sinto em te dizer que sempre terá essa dor, mas me apresso em te dizer que lhe cabe uma felicidade ainda maior.

Ass: Danilo Mendonça Martinho