“Ensaio sobre o romance” (20/06/2012)

Tudo para voltar ao mesmo velho canto do travesseiro, com a mesma tempestade caindo lá fora. A alegria reserva o mesmo leito da infelicidade, dorme ao lado da tristeza e acorda no frio de um inverno. Por todos os passos de nossas dores, ela existiu. Nos encolhemos vezes demais, e ela é dessas que se alcança.

Tudo começa quando se abre os olhos, cansado de seu inchaço e vermelhidão. Resolvemos olhar para o mundo nem que seja sem cor, nem que apenas sobre rancor. O olhar é um lugar de intempéries. Reside nele nossa intenção, já de muito frustrada, acolhida pelo medo. Em segundo plano tudo que queremos ignorar, como se pudesse impedir a beleza de uma flor. A vida te encara. No fundo dos olhos dela, como se fosse teu primeiro encontro, alguém olha de volta.

É quando abrem-se os braços. A esperança de prontidão que vence por pouco nossas resalvas. Mas o humano guarda essa vontade de se completar na vida. Mesmo que seja um vulto, mesmo que passe sem notar-te, mesmo que a estadia seja breve, mesmo que no fim a mão volte vazia…Não há como não estender-se a chance de que aquele próximo, seja seu único.

É quando se abrem os sorrisos. Seja um instante, seja a eternidade. Sabemos que nesse gesto tudo ficará bem, independente da palavra, da presença ou mesmo do amanhã. Basta este sorriso a cada novo encontro e tudo nesse mundo tem ao menos o sonho de ser feliz. Basta estar de olhos abertos.

O amor verdadeiro te faz chorar. Afinal a felicidade que finalmente preencheu aquele vazio, é digna de uma lágrima no velho travesseiro.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Volta e meia” (06/06/2012)

Faz tempo que não visito as palavras que condensam as dores em gotas de chuva. Tem me passado em silêncio a melancolia. Como se o amor pudesse realmente sobrepor a todo resto. Mas os céus ainda choram e as folhas ainda despencam. O concreto pode até não invadir a chama, mas revoga inúmeros abraços. Essa vida dói e contrai nosso âmago seja felicidade, sejam as tristezas. Ela está aqui para te fazer sentir sem meios termos. Nada menor que seu melhor te fará sobreviver aos invernos. Sem o amargo não se reconhece o doce e esse caminho poderá lhe parecer, mais de uma vez, o errado. Apenas faça da escolha algo teu. É provável que o outono venha despetalar teus amores. Uma raiz falsa só trará mais dores para arrancá-la. Meu conselho aos olhares que contemplam a vida escorrer melancolicamente pelo mundo gelado, é: plante bem esta tua solidão e , com um pouco de sorte, não haverá espinhos na primavera.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O segredo da Areia” (04/06/2012)

Sussurrou-se
Como se fosse sagrado
Seguiu-se ao pé do ouvido
O sonho de um poeta

Desenhas-te na areia
Grandes acontecimentos
Postos sobre um soneto
Metricamente dramatizados

A maré tudo levou
Mas a rima ainda ecoava
Repetia a si as palavras
Caminhando para aldeia

Ao despertar os olhos
Era seguido aos milhares
Balbuciavam os mesmos lamentos
Exaltavam as mesmas glórias

Ó poeta do mar
Deixaste teus sonhos na areia
Eis a onda que levou-o
Para que todos pudessem sonhá-lo

O que mais quero eu
Do que uma reza
Se minha felicidade é procissão
Seu lugar é nas ideias

Os versos ficaram sem nome
A verdade sem papel
Uns lembravam de um conto
Outros ainda buscam os sonhos

Sussurrou-se….


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Vai e Vem” (02/06/2012)

Coloquei-te em um frasco
Atirei ao mar
Veio então ancorar-te
Na areia do meu cais

Trilhaste o caminho para casa
No calçado trinta e três
Deixaste teu cheiro na varanda
E o café pronto ao pé da cama

Embrulhei-te no travesseiro
Para nunca mais te perder
Amanheceste um romance
Possível de se viver

Lembro-te ainda pequenina
Sonho flutuando na imensidão
Voltaste para minha alegria
Estrela guia desta canção

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Aqui” (02/06/2012)

O aqui é este lugar na beira da madrugada onde o sono não me importa. Quando imaginaria deixar o sonho em segundo plano? Já chorei nesse travesseiro, passei uma tarde muda ao pé da cama. Dormi em desespero por uma resposta, lamentei a distância, acordei vestindo o inimigo. Mais ninguém entrou neste quarto, só essências e contornos das vozes e corpos que impregnaram na alma os cheiros apenas para depois evaporar. Não houve poema, nem lembrança que se agarrasse as paredes. A realidade cansou de substituir a imaginação sem êxito. Flores murcharam e palavras envelheceram. Não posso negar a esses cantos que cheguei sim a desistir. Agarrado as grades da janela profanei. Silenciei todos meus pedidos. Dentro de mim moram cicatrizes e as mais puras verdades. O cru e nu. A face sem intérprete e o sentimento sem voz. Tudo nesse lugar já sorriu, tudo nesse lugar já sofreu, sem que ninguém jamais soubesse. Onde a vida mora, quase ninguém visita. Quantas vezes acabei só…

É por causa deste aqui que valorizo o corpo que por hora dorme ao meu lado. Mudaste meu reflexo no espelho, levaste as dores das paredes. Entrou sem invadir, abraçou sem ameaçar, amaste em reciprocidade…decidiste ficar. Agradeço a cada canto deste quarto, sorrio a cada novo momento marcado. Nem sabes com tudo que convives, mas você destoa e dá novas cores a todo resto. O passado sustenta nossa verdade. A realidade fortalece o nosso amor. Onde a minha vida mora, você também vive.


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Subterrâneo” (28/05/2012)

Aqui a vida passa
Não carrega nem leva
Passa
Comboios de destino
Sugados de vontade
Ausente no espaço
Presença não é só corpo
Murmúrios de lamentação
Mas nenhuma voz se levanta
Passivos do que os guiam
A luz não ilumina o horizonte
Todos satisfeitos com esse agora
Histórias nos reflexos dos vidros
Namoros de olhos desencontrados
A investigação sobre o outro
A surpresa de ser, também, observado
Cabeças a meia altura
Fogem do resto como de si
Ombros arqueados pelo tempo
O verdadeiro cansaço te acorda
Venceu teus sonhos
Como é difícil nascer nesse concreto
Mas se não há alma que tente
A vida passa sem desembarcar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Confiança” (20/05/2012)

A manhã nasce
O sol deita sobre nosso rosto
E antes que os olhos precipitem
A mente imagina
Na efemeridade do segundo
Somos somente esperança
Desfeita a fantasia
Somos o cru do que tocamos

Um dia insisti
Voltei a fechar os olhos
Abri os braços e caminhei
Mas o mundo tinha se perdido
Os passos eram incertos
A alma não podia partir

Presos a realidade
Os corações ficam inertes
Os sonhos suspensos
Se coubesse nossa vida
Naquele milésimo de promessa

Pois foi em um desaviso
Que meu corpo recostou no próximo
Ancorou-se pelos dedos
E se viu livre para acreditar
Desenhou universos inteiros
E ao abrir os olhos
O sorriso ainda estava lá

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“No limite da mágoa” (17/05/2012)

Pereceu hoje pela manhã a última gota de lágrima. Seca contra o vidro. Sua marca virá a esmaecer em tons de bege ao lado de outras memórias. Sujeiras que se limpam como o canto de um olho. O corpo que foi levado na maré da tristeza repousa sobre a areia, devolvido a mercê dos próprios passos. O sol não o acorda, o vento não o incomoda, a chuva lhe é indiferente. O sentimento perdido aleijou-lhe de vontade. Assim diariamente nega o horizonte que nasce. Ninguém é cego de paixão, apenas depois dela. Pela janela passaram prazeres, atrás da porta do quarto ficaram os desejos e a casa permaneceu fechada. Guardado no fundo da cama o humano por trás da vida.

Tudo que se sente está do outro lado. Fechando os olhos para o mundo, passam também as alegrias.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Expirando-se” (14/05/2012)

A carapuça serviu
Como máscara de baile
Acostumou-se com a fantasia
As paixões que ardem
Os contos que acordam
Veste-se esse sorriso barato
Despe da realidade vigente
As verdades e a razão
O lógico e o possível
O só se tornou todo
Como se não pudesse ser mais nada
Abandonou a si no espelho
Saia com a roupa de outro
Abria jornais os quais não lia
Dormia sobre sonhos desconhecidos
Passos sem caminho
Mandava cartas para si
Nunca chegaram
Mudou-se de alma
A existência lhe ficou vacante
A insensatez é humana
Que ao sentir abdica do “eu”
Mesmo fazendo parte do “nós”

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Despetalando Nuvens” (07/05/2011)

Rasgam entre as sombras do outono sorrisos amornados. Invejam aqueles que passam perenes sem proposta de destino. O inverno será uma prova, mas não o fim dos solitários. O sentimento é o tronco da árvore que por hora se desfaz, resistindo ao vento, encolhendo-se diante o mundo. Ninguém duvida que se manterá viva. Pois os rostos sem felicidade guardam na alma forças inconscientes. Essas se farão presentes quando faltar o abraço. A verdade é que contamos muitos invernos até começar a contar primaveras. A vida é um céu entre nuvens. As vezes plena, outras ausente. Quando olho para estes sorrisos a meia luz, passo a pertencer a uma esperança de que muito em breve eles amanhecerão plenos.

Deixe o outono passar. Deixe o inverno ser. Os nasceres ainda hão de nos levar até as flores.


Ass: Danilo Mendonça Martinho