“Fada” (04/10/2012)

Os dentes que deixei debaixo do travesseiro deram lugar para um sorriso. Não há uma vez que o degradê do horizonte não me deslumbre. O cheiro da chuva preenche minha alma. O vento que bate suspira esperança. Os olhos que não desviam me dão alegria. Os abraços que me envolvem constroem um lar. A tristeza nas calçadas me revoltam. A negligência no poder me amargura. O sonho ainda me dá forças e a verdade proteção. O conformismo me deixa inquieto e a divergência me cria opinião. O outro pode ser companhia eterna. Ninguém precisa significar exclusão. O laço que une uma sociedade é compaixão. Respirar nos dá uma chance. O mundo nos dá uma escolha. A vida pode ser mágica.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Entre Corpos” (03/10/2012)

Há coisas que só digo para mim. Não que precisasse dizê-las, já que posso apenas pensar. É que falar formaliza as coisas de um jeito para poder organizá-las e então entender. Mas é provável que se me calasse, ainda sim me entenderia. O que digo para mim mesmo parece ser secreto, tem ares de sagrado. Desconsidera que qualquer um, mais disposto e atento, pode perceber o que não digo. Talvez muitos sem muito esforço conheçam o que chamo de segredo. Fico aqui a proteger palavras que são públicas, que podem encontrar um par. O que digo no meu silêncio, guardo para quem? O que são essas coisas que ninguém pode saber? Parece que são exatamente as coisas que nos diferenciam, tudo que nos é único, escondido em palavras ditas na solidão. Quem sabe todo diário exista para ser lido e que façam isso a tempo para descobrirem a pessoa maravilhosa que podemos ser.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

"Deserto de Alma" (01/10/2012)

A secura dos dias chega na alma
São os goles de água que não completam a vida
Os corpos que endurecem sem afeto
O coração que arranha forçando desejos

Não há tempo bom em um mundo vazio
Para preencher uma vida é preciso vontade
Sonho se inspira no ar, mas o que fica por dentro?
No que exatamente a gente se transforma?

Que volte por favor o sentimento
Há espaços demais entre as palavras
Construindo abismos entre as pessoas

Basta um dia de esperança
Um olhar levemente atento
E a alma deixará de ser silêncio

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O tanto que me completa” (28/09/2012)

Um tanto de mim pode ser dor
Contrair os desejos até sufocá-los
Um tanto de mim pode ser desespero
Agarrar-me ao dia como se fosse o último
Um tanto de mim pode ser saudade
O suspiro que preenche o vazio
Um tanto de mim pode ser ilusão
A princesa presa no moinho de vento
Um tanto de mim pode ser sonho
O reflexo do sorriso no outro
Um tanto de mim pode ser esperança
A alma que insiste em dar o passo
Um tanto de mim pode ser cansaço
O gosto amargo que não sai da boca
Um tanto de mim pode ser concreto
Fechar todas as portas e janelas
Um tanto de mim pode ser cruel
Viver indiferente perto de ti
Um tanto de mim pode ser lamento
Olhar para vida como se fosse passado
Um tanto de mim pode ser solidão
Contemplar o teto somente meu
Um tanto de mim pode ser sorriso
A alegria que não cabe em mim
Um tanto de mim pode ser indefinido
A chance de mudar de opinião
Um tanto de mim pode ser realidade
O chão que me impedirá de cair
Um tanto de mim vai ser omissão
Tudo aquilo que apenas sinto
Um tanto de mim pode desistir
Porque nada permanece igual
Um tanto de mim pode ser amanhã
Os encontros que esperam a hora certa
Um tanto de mim pode ser a chuva
O beijo velado no véu transparente
Um tanto de mim pode ser partida
Para que aprenda a abrir mão
Um tanto de mim tem de ser abraço
Para que o coração tenha abrigo
Um tanto de mim pode ser o suficiente
Deixar uma marca no mundo
Um tanto de mim pode ser plena felicidade
O fim de tarde bem acompanhado
Um tanto de mim sempre será paz
Enquanto permanecer fiel as minhas escolhas
Um tanto…

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Pertencer” (25/09/2012)

O corpo pode correr em círculos
Saborear o amargo mais de uma vez
Abraçar a dor no travesseiro
Respirar fundo sem escapar
O nosso corpo aguenta
A alma é o nosso limite
Lá a vida perde a cor
A vontade dissipa no ar
Toda alegria fica escassa
Todo passo vira abismo
A alma grita
O corpo pode ser indiferente
Conviver sem amizades
Silenciar sem sufocar
Atravessar o dia sem ser notado
O corpo pode vagar vazio
A alma precisa do que a complete
Pede um propósito para vida
Coloca um sonho no horizonte
Insiste na felicidade que não conhece
O corpo não sabe seu lugar
A alma tem endereço

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Não há regras” (25/09/2012)

Era um sinal de boa sorte
A chuva na manhã do encontro
Escolheu sua melhor roupa
Não tirou o sorriso nem no banho
Abriu a porta para esperança
O passo incerto e o resto do corpo coragem

A mesma chuva o outro não sonhou
Estragava seu penteado e planos
Pensou em não ir, saiu na última hora
Não conseguiu disfarçar a insatisfação
Abriu a porta do carro para partir
A mão certa lhe segurou e o resto do corpo se entregou

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O Coração e O Amor” (18/09/2012)

Há muito tempo atrás, aqui nessa mesma palavra, viviam muitas outras. Declarações, loucuras e tragédias. Nunca pareciam ser o bastante, partiam sem chegada, tinham uma pesada bagagem, creio que jamais foram livres. Eram alguns gritos, outros quase apenas pensamento, que rodeavam o mundo sem sucesso de lhe chamar a atenção. Pobre palavras frustradas, queriam apenas servir seu destino. Eram abismo sem resposta, não importa onde tentassem chegar. Até onde vai uma palavra? O mais fundo que já haviam ido era no mergulho de uma lágrima e desta conquista não podiam sorrir. Pois as palavras tinham um plano.
Rima por rima desmontaram-se os versos e pelo silêncio perdiam a formalidade das métricas. Elas que já tinham pulado de precipícios, foram caladas sem motivo, desconsideradas como se fossem ilusão; Agora se retiravam, sem protestos ou vinganças, mas por escolha. Sabiam de alguma forma que não precisavam encontrar o caderno apenas nas tristezas, pois afinal tudo que vive respira, nem que seja um pouco, de alegria. Já passava da meia-noite quando o encontraram de braços abertos. Foi uma verdadeira festa. Cada palavra lançava um verso que rimava com felicidade e tinham para si, em suas certezas, que haviam encontrado seus propósitos, e assim descreviam vidas maravilhosas. E mesmo assim o Amor andava cabisbaixo.
Sentia falta do Coração e todas suas loucuras, todas as suas emoções, até mesmo a tristeza tinha deixado saudade. Ele não se incomodava com o eterno sonho, ou com os desejos que não se completavam. Sentir era suficiente. Mas quem lhe daria ouvidos? As palavras estavam alegres, livres, falando de borboletas e nasceres do sol. Sem melancolias, entrelinhas, ou coisas do tipo. Eram claras, objetivas, uma só. Ninguém queria voltar. O Amor tinha consigo a esperança, que as outras palavras tinham deixado para trás. Esperança que essa felicidade também existia por lá. Mas não havia argumentos, foram anos de procura, agora elas queriam a vida.
Foi no fim de um inverno, depois de muito falatório, avisos e das palavras se repetirem em suas histórias, que o Amor partiu. Levou consigo a esperança e mais nada, era só silêncio. O caminho era longo, mas ele não olhava para trás, seu destino era sentir e para isso não precisava das palavras. Depois de dias e noites com a esperança que não lhe deixava nem nas intempéries, ele ouviu e reconheceu de imediato aquele ritmo, quase que como uma música que o estava chamando. Abriu os braços, beijou o chão, fez juras e uma única promessa: de jamais voltar a partir.
Hoje não há palavra que encontre o Amor e olha que muitas delas tentam. Todas sabem onde ele mora, lhe mandam recados, mas não saberiam descrever o seu caminho. Hoje o amor vive de olhares e esperança, e também dizem que volta e meia, a felicidade visita seu abrigo.


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Contexto” (17/09/2012)

O que aqui escrevo está condenado
Retrógrado, antiquado, parcial
Censurado e perseguido
Pelas causas que não nasceram

A palavra está sujeita ao futuro
Contextos mudam significados
Interesses pedem pontos de vista
Não há meio termos, apenas lados

O consagrado pode se tornar grotesco
Como um dinheiro que perde valor
Uma interpretação que desfaz uma obra
Quem serão esses donos da verdade?

Ninguém está aqui nesta escrivaninha
Como garanto que ninguém esteve lá
O passado não vai moldar o futuro
O poeta registra sua época
O homem constrói sua história

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Não Ainda” (15/09/2012)

A brisa ainda sopra entre os raios de Sol
O inverno permanece como pano de fundo
Insistente em reinar por toda sua época
Ele gela as madrugadas
Esconde o mundo na cerração enquanto puder
Raramente ainda consegue unir negras nuvens
Ele sabe que seu tempo é escasso
Mas não desiste em vivê-lo na plenitude
Pega desprevenidos os que olham, mas não abrem as janelas
O horizonte engana, ele ainda está aqui
Não é uma simples questão de nostalgia
É entender qual lugar pertencemos
O inverno não vai se importar de partir
Mas vai soprar esse vento gelado até lá
Todo mundo tem seu propósito na vida
Não há porque desistir antes do fim
Abri a porta e deixei a estação entrar
Contar para mim seus últimos segredos
Ainda há tempo de um abraço
Ainda existe melancolia no fim de tarde
Ainda sopra um vento virtuoso na alma
O inverno ainda há de convalescer os corações

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Manchete” (13/09/2012)

A palavra se precipitou
Entregou a verdade
Nas mãos da ilusão
Passou seca pela garganta
Desaguou em desespero
O sentimento mora perto

A tragédia é diária
Corpos alheios do contato
Ruas cheias de objetos
Mas nenhuma revolta
Tudo já virou paisagem
Desde a alegria até a miséria
A palavra também abriu mão

A fé no que é humano
Sobrevive ao jornal na TV
Ao tiroteio no cruzamento
À fome do concreto
À sede pelo poder
Até que a última voz se renda
E não exista mais porta para bater

Ass: Danilo Mendonça Martinho