“Previsão de Sentimento” (13/02/2013)

Comprei um pedacinho de céu azul. Pareceu-me prudente garantir um espaço em meio a imensidão do horizonte. Uma janela onde sempre pudesse olhar adiante, algum tipo de certeza sobre os amanhãs. Eu escolhi entre nuvens muito bem localizadas. Daqui ainda dá para ver os pássaros da árvore do vizinho, o arco-íris que se forma por cima do muro toda vez que chove. Se eu inclinar a cabeça eu vejo uma pequena casa, que daria para alcançar com os braços, mas é apenas uma ilusão de ótica. Ela permanece distante, em construção, com potencial para uma beleza única. Se olho para cima o Sol nasce e me franze o rosto, esquenta a pele, me abraça e me envolve. Sinto-me mais perto da vida, em contato com o mundo. É bom lembrar-se também como natureza. O vento bate na ponta do nariz e não importa muito a direção. Despeço-me com um sorriso sincero e saio com a certeza que no coração permanecerá tempo bom.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Completos” (29/01/2013)

O vazio da perda jamais se completa
Os olhares que virão a sorrir tristes
Fiel a ideia que a vida virou um fardo
Há quem faça sua paz com a dor
Mas e a dor que não é anunciada?

“Por que” pode ser uma busca para vida toda
Perder-se é uma escolha, mas não uma troca
Punir-se é ser dor para sempre
A morte dos nossos próximos
Parece não deixar saída para quem fica

Agora, o mundo a nossa volta não nos deixa
A existência não perde sentido
Sabemos que jamais cessaremos o choro
A alma não foi feita para andar vazia
Mas podemos enchê-la de vida mais uma vez

Há tantos sonhos, alegrias e desejos
Para serem feitos no nome de quem se foi
Há ainda uma vida que pulsa em nós
A qual não nos deixariam abandonar
Há dor, mas há todo amor da vida que aqui esteve

Ninguém merece uma perda
Mas todos merecem ficar em paz

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Próximo” (28/01/2013)

Talvez o mundo lhe pareça um lugar cheio de estradas erradas. Nossa percepção da vida é influenciada por muitas variáveis, todas plausíveis. O reparo de nossa alma parece um trabalho eterno, sempre algo está fora do lugar. Mas não acredito que seja defeito de fabricação nascer assim “sem lugar”. Não falo de casa, cidade ou país. Falo de um lar para nossos sentimentos, desejos, sonhos, enfim, nosso ser. Ser é uma responsabilidade muito grande, mas não além da capacidade humana. Ser envolve escolhas, princípios e uma reconstrução constante de si perante a vida. Essa busca leva muitos ao desespero, mas esta busca leva. Fluir e fruir por este mundo é fundamental e as aflições de nossa alma é o que nos move. Algo que te mantém vivo, te mantém ansioso do futuro, não pode ser de todo mal. É que dói, eu sei, dói. Precisamos de um lugar que abrigue este nosso ser. Para alguns é a liberdade, para outros ainda que não pareça é a solidão, mas para todos em algum momento é a companhia.
Zilhões de variáveis e eu venho repetir-me sobre a necessidade de se encontrar em outro. Mas não confunda com Amor, pois este é peça. A verdade é que em meio a essa lapidação do que se é, precisamos de descanso. Acredite, não há férias dentro do seu próprio corpo. Há muitas ruas sem saída, muitos sentimentos sem resposta, muita melancolia se misturando com os sonhos, muita mesmice no horizonte. Precisamos de outro que enxergue alguma vírgula diferente, algum alívio para todo universo que carregamos em nós. Precisamos renovar as forças de nossos ideais e rearranjar a harmonia da nossa paz. A construção desse lar é muito gratificante para se deixar pelos caminhos. Plenamente ser é incrível. Tudo que se precisa para continuar é um outro, é um corpo para descansar a alma.
Talvez o mundo lhe pareça um lugar possível, todos os dias.
 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Avós” (22/01/2013)

Não é que a vida deixe de se criar
Ou que nós abandonamos nossos passos
Mas um dia a lembrança simplesmente invade
E todo agora se completa com uma história

Aquela estrada que ainda não existia
A noite mais fria da vida
Diversão tinha outras cores
Que os jovens de hoje não enxergam

Não há lugar que o passado não entre
A nostalgia vira companhia da rotina
Não sei se para suportar a realidade
Ou para adornar os dias

Perdido nas palavras eu sorrio
Há uma alma cheia de lugares na minha frente
A esperança de preencher a minha
Que amanhã eu tenha o que contar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Descanso” (16/01/2013)

O sol sempre nasce
A natureza sempre respira
Mas nosso olhar divaga
Se perde na distração da rotina
O tempo nos pede outras coisas
Contemplar a vida permanece na lista
Mais esquecido do que lembrado

Tem uma cadeira vazia na beira da praia
Tem um banco esperando na varanda
Tem uma rede balançando em ócio
Há tanta paz nas frestas do mundo
Nós aqui sem ao menos desviar o caminho
Ninguém precisa de permissão para parar
Faça sempre que precisar
É a alma que sustenta o corpo
É a imensidão da vida que alimenta a alma

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Forças” (08/01/2012)

Há quem viva na beira do caminho
O mar carregou, mas insistiu
Ninguém volta sem marcas
A cicatriz nos diferencia tanto
É difícil aceitar sem reconhecer
Mas não há mão estendida
O estranho deve saber seu lugar
Toda essa luta para voltar
Não há espaço para pedir socorro

Existe caminho sem volta
A escolha será sempre do outro
Isso não nos faz isentos
Expulsamos tudo que é diferente
Evitamos o desconhecido
Como se um fosse fazer tudo ruim
Mas o todo não pudesse fazer desse um, bom

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Fortaleza” (07/01/2012)

É estranho defender a si
Parecemos utópicos
Contrariando por simples despeito
O diferente, o alternativo
Amaldiçoado a se arrepender
Segregado por uma escolha
Como é difícil perseguir um sonho

Ninguém quer se ver só
Se preciso destrói horizontes
Tudo por sua causa mesmo que perdida
O querer não sobrevive fora da alma
Precisa do coração certo
E de uma força desconhecida
Pois a oposição pode ser todo resto

Caminhos não faltam
A felicidade reside com nossa escolha
Cada vida tem o que a completa
A maré sempre levará alguns
Meu norte só faz sentido para mim
Por isso defendê-lo
Não há quem vá lutar por você

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Rumo ao Futuro” (02/01/2013)

Todo desconhecido vive entre medos, ainda sim beira novos sonhos. O passo nunca se parece com o desejo, mas é exatamente a descoberta que o mantém vivo. Ao nosso lado temos a escolha e o coração. Não se engane, a razão não está em nenhum dos lados. Confiar em si jamais foi garantia de sorrisos. Ao decidir fazer a curva, muito pode doer, muitas coisas podem se perder e o destino se embaralhar. Só que no fim dela permanecerá seu espírito. Nenhum outro horizonte além daquele que você desenhou te trará paz. É o que nos mantém derrapando nessa estrada ajustando a direção. Os sonhos e os fracassos vão continuar beirando o possível, mas a escolha e o coração estão do nosso lado.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Não sei se é Natal” (26/12/2012)

O vidro trabalhado distorce o nascer do sol que me acorda. Desperto em uma memória muito viva. As cores da folhagem, do céu, das paredes e do sofá. Tudo está intacto. Queria poder trazer outras pessoas aqui. Não me recordo exatamente dos natais que passei neste lugar, mas jamais esqueço a melhor forma que a vida me acordou. O mundo preocupava menos é verdade, mesmo assim assim aquela natureza trazia uma paz inigualável. Já mudei tantas vezes minhas cama na busca deste raio magnífico, sem sucesso. Hoje quando a luz chega, meu corpo já está vagando há algumas horas. Talvez o importante é que o momento ainda é vivo.
Do outro lado da janela há um avarandado que cerca toda casa. Nos pilares de tijolos laranjas diversos ganchos para descansar as redes. O vidro do amanhecer, faz na verdade parte de uma porta, dessas que as casas tem para receber convidados sem passar pela cozinha. Jamais foi aberta. Mais adiante há um lago entre duas grandes árvores que costumávamos subir. Na esquerda o campo de futebol improvisado e na cerca os pinheiros enfileirados. A casa era um único silêncio. A sala da TV e os quartos ficavam no lado oposto das janelas. Um batente sem porta separava tudo da copa e da cozinha. Eu de olhos abertos, aguardava. Logo tinha o café em família, logo o quintal estava aberto e poderíamos todos se perder em mais um dia.
Não lembro se era natal, só sei que todo ano isto era meu presente, aquele que mais queria…a felicidade.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Terciário” (10/12/2012)

O mundo há de ter outro dono
Um que não nos assemelhe
Este lugar não tem nada de nosso
O poder é invenção humana
Para generalizar verdades particulares

A ideia é esvaziar o indivíduo
Fazer da vida descartável
Assim a consciência não cobra
Os olhos preferem não ver
O que o coração sente

Entristece as inúmeras faces da miséria
Mas o que mata não é a mão que estende
É o corpo desprovido de escrúpulos
Aqueles de posse da fábula do poder
Escolhem deixar o povo na sua escuridão

Ass: Danilo Mendonça Martinho