“Intransigente”

Não há apelo ao coração
Argumento, conselho, aviso
O próprio corpo desiste
Olhos cansados de lágrimas
A razão mergulhada na emoção
Ninguém pede, mas todos querem
E ele ama sem restrições

Sentir é natural
A questão são as possibilidades
Intensidade, desejo, caráter
Tudo precisa se encontrar
Ou ao menos a disposição para mudar
Todos tem seus limites
Quem pertence as suas fronteiras?

Ninguém precisa de pressa
Certezas são altamente voláteis
O orgulho é uma armadilha
É preciso saber abrir mão
Reconhecer um sorriso aberto
E não discutir com o coração

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ensaio sobre o silêncio”

Há um grande desrespeito pelo silêncio. Por certas pessoas não passa nem um respiro. Existem presenças que só se justificam com a fala, não nego. Mas até estes pequenos incômodos merecem seu espaço. Uma conversa é tão boa quanto um suspiro. Fazemos do silêncio um estranho como se não bastasse uma companhia, olhares, sorrisos ou mesmo nada disso. O simples acaso de dois conhecidos que seguem para o mesmo destino ou dividem uma refeição. Sinto falta, sinto-me perturbado pelas constantes interrupções deste momento de reflexão. Até eu mesmo me vejo influenciado por essa tendência, que companhia precisa de palavras. Fujo do olhar, mexo a mão, olho para os céus como se precisasse urgentemente fugir dali. O que está ao nosso lado é assim tão diferente, tão amedrontador? Fico a pensar o que será que fez de nossa alma assim tão assustada. Somos tão precários, tão imaturos. Incapazes de lidar com o silêncio, imagina cuidar de um mundo. O mais breve som da natureza ou respiro da vida passa simplesmente despercebido. Há tanto ao nosso redor para conhecer, tanto, que qualquer dia desses você deveria não falar e ouvir também.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Descalço”

É difícil andar a pé. Tem concreto, tem terra, tem cascalho, tem espinho. A ferida sempre aberta de quem insiste que o melhor passo ainda é o próximo. Ser feliz é completar-se a cada dia. Mas para isso é preciso deixar o rastro. As marcas de uma sobrevivência muitas vezes questionável. Em busca de um horizonte muitas vezes utópico. Não vejo ninguém diminuir a velocidade, nem mesmo desviar do caminho. Todos querem suas promessas. O sentimento nasce de uma forma tão natural que é impossível demovê-lo por fora. Tudo que nasce dentro, lá perece, ao seu próprio momento. A razão é apenas um conselho. É admirável o ser humano, mais do que pela sua capacidade de pensar, mas pela escolha de abandono do mesmo. Sofre e sorri. Apanha e abre os braços. Magoa e ama. A alma tem bem menos extremos do que parece. Na convergência de ser um, a mistura nunca sai igual. Só permanece o desejo, o sonho, este gosto de vida que todos queremos encontrar. Vamos longe, vamos fundo até o dia de não precisar mais voltar. O enfim descanso para nossos pés.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Não será amanhã”

A fumaça abaixa e fico no aguardo do nascer da aurora dos nossos tempos. Meus olhos já há muito tempo céticos talvez não reconheçam um raio de esperança. Não sofremos por um governo. Não sofremos pelo conservadorismo religioso. Não sofremos por uma economia precária. Não sofremos por um estado de miséria. Não sofremos por uma guerra. Somos mais livres do que poderíamos imaginar pedir. Mas sofremos por causa de um sistema social falido, corrupto, profundo e centenário. Da mais baixa classe social, do rincão mais perdido de terra neste país até a maior metrópole e o mais alto escalão do governo, estamos impregnados com este gene maldito do “jeitinho”, do deixa quieto, do lave minha mão que eu lavo a sua, da vista grossa, do interesse próprio, do procurar vantagem, do malandro, do passar a mão na cabeça, do passar todo mundo para trás. O DNA brasileiro não mudou em uma noite. Mas há uma chance, que nas frestas deste mundo, esta nação tenha encontrado outros pares para criar seus filhos. Quem sabe se daqui em diante possamos começar a apagar este traço contínuo da nossa história. A mudança é muito mais que interna. Sei que na verdade não verei nascer esta aurora. Nosso tempo será de quebra, choque, saturação e muito cansaço. Descobriremos o limite de todos os nossos erros e negligências. Uma época de decepções, amarguras e duras verdades. É preciso desfazer este brasileiro que criamos. Um a um se for o caso. Acredito em um dia onde todo ceticismo ficará para trás e poderemos ver um verdadeiro novo país.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Um dia de Cão”

Dizem que a maioria dos animais enxergam preto e branco. Começo a pensar que isso não é assim de todo ruim. Eles não enxergam a poluição no horizonte, por exemplo. Lama, terra, asfalto, pedregulho, é tudo chão. Tratam os dias de Sol e de Chuva da mesma maneira. Talvez percam a beleza das flores, mas assim não criam diferenças com a beleza da grama e da copa das árvores. Tudo pode ser belo em um mundo preto e branco. As cores dos olhos não causam intrigas e os tons da pele preconceito. O urbano se mistura de tal forma que é provável, infelizmente não certo, que as pessoas se enxergassem como parte do mesmo todo. Poderíamos chamar aqui de sociedade, enfim. Num mundo sem cores desvalorizaríamos roupas, estética e imagem pelo conteúdo. O tucano, a televisão, o pôr-do-sol e o futebol perderiam um pouco da graça. Mas há outras coisas que valem nossa atenção nesse mundo. Tais como o gesto, o olhar e a palavra. Acredito que lágrimas e sorrisos continuariam iguais. Aguçaríamos nossos outros sentidos. Coisa que anda necessária, principalmente o tato. Talvez nos tornaríamos seres humanos mais na essência e menos fantasiados. No fim há prós, há contras e meu cachorro segue a me olhar sem revelar o que é melhor.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Resenha”

Um coração que bate
A razão que se perde
Uma mente que se entrega
O âmago que contrai

Uma lágrima que cai
A falta que faz presença
Um todo que se torna sozinho
A certeza que não vai embora

Um corpo que parte
A saudade que se cria
Um abraço que volta
A alma que se conforta

Um sorriso que nos encontra
O olhar que não se distrai
Um vislumbre de felicidade
A esperança que não volta atrás

Uma verdade que se omite
Uma imagem que suspira
Um vazio que nos martirize
Até mesmo um silêncio que nos invada

O sentir sempre vale uma palavra
Mesmo que seja apenas amor.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sobrevivência”

Faz tempo que não se respira
Nem mesmo o silêncio
O outono me parece sensato
Encolhido ao tronco de uma árvore
Que já não faz sombra, nem dá frutos
Sua solidão é completa, quase humana
A palavra eventualmente se desgasta
O gesto invariavelmente se repete
É entediante essa vida sem vontade
Mas infinitamente segura

A ciência diz o que pode soar como crendice
Um ser humano sem companhia se desfaz
Parte mais cedo, atrasa todas suas realizações
Como se apenas o outro comprovasse a si
Pensar já não é sinônimo de existir

Ontem voltou a chover, devagarinho
Evaporou-se a poeira do horizonte
O frio ocupou as frestas das casas
E por trás das tulipas desmaiadas
O suspiro errante foi ouvido
Apesar de contra toda a natureza
O sozinho segue caminhando
Respirar talvez seja um vício

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Cara Limpa”

Pela máscara do sorriso a lágrima também cai
Quantas são as nossas carapuças?
Quem realmente enxerga nossa alma?
Podemos culpar a indiferença alheia
Mas não foram os outros que levantaram a muralha

Somos frágeis, ridiculamente frágeis
Não bastasse, nossos sentimentos são alvos mais fáceis
A dor de um âmago prolifera da razão ao coração
Mas não me venha com copiosos afagos
A vida também foi feita para sangrar
O amargo é preciso como o entardecer

A lua cheia vem e a melancolia que sobe
Deixe tocar meus pés na tristeza
Abraçar a solidão de outros dias
Voltar a encontrar em mim a verdade
Ser feliz com um rosto livre de fantasias

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Pazes”

Hoje posso perdoar
Entendo que foi tudo passagem
O olhar que chamei de Amor
Ora foi reflexo, ora foi vazio
Aprendeu a ser passado
Eu cresci ao seguir em frente
Na época um passo na solidão
Agora já é um entre tantos
Todos me levaram ao encontro

A dor é um bom termômetro
Não há como evitar o choro
Restará sim o rancor do que não foi
Só a alma completa nos liberta
Não hesite em se magoar
O mundo inteiro pode ser doce
Apenas seguimos a provar

Tudo cai em desuso
Até mesmo a melancolia
Coração que encontra companhia
Não sabe mais voltar atrás
A palavra do amante
Não tem crédito com os solitários
Mas não lhes desejo meu hoje
Quero sim que tenham um amanhã

Hoje também me perdôo
Amar nunca foi demais
Abrir o peito nunca foi em vão
Sei que fui seco, fui duro
Em desespero abracei um coração
Só que sentir não se constrói
O que precisamos é de um depois

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Travesseiro de Pedra”

No calor o concreto esquenta que nem fogo
No frio parece um grande bloco de gelo
Em que temperatura fica a alma
Que por hora descansa o corpo sobre ele?
Já quase arde o Sol do meio-dia
Sei que o redor não lhe passa despercebido
Mas sua presença é alheia a realidade
A cama em meio a ladeira traz silêncio
Aqui não se divide a miséria
Nem com o gesto, nem com a palavra
Subimos como quem tem fome e sede
Subimos porque podemos saciá-las
E aquele sem nome fica com o frio do nosso olhar
A sociedade só nos cobra indignação
Ele é apenas resto da conta que não fecha
Somos todos denominadores desta equação
O mendigo na rua de casa…
É nosso resultado

Ass: Danilo Mendonça Martinho