“Permanente”

Sinto falta da vontade
Será que ela sempre me faltou?
Hoje o mundo está de portas abertas
E os braços são curtos para alcançar

Sonho muito mais que já sonhei
Quero muito mais do que já quis
Em algum lugar sei que posso
Mas a cobrança lembra e machuca

Pensamos que é tudo para amanhã
Mas na verdade é tudo para vida
É preciso passar pelo meio do caminho
Mesmo sabendo que podemos mais

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Hoje a chuva só cai”

A chuva sempre me fez companhia
Mas sinto que algo mudou
O cheiro no asfalto,
O sentir da pele,
O sussurro no ouvido…
Tudo parece artificial

É que nem sempre chove para gente
Tem muita melancolia,
Muita lágrima precisando de disfarce
Penso que hoje ela cai
Só para me lembrar que está por perto

A chuva tem muita terra para cobrir
E faz uma coisa de cada vez
Então abri meu guarda chuva
Fiz companhia como bom amigo
Tentando apenas retribuir
Talvez ao tempo ela volte
Com as palavras preciso ouvir

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Aprendiz” (21/08/2013)

O que mudou?
Será que repito erros?
Um dia fui aluno
Escutei tudo que podia
Um dia deixei de ser
Continuei a escutar
Crescer é para sempre

Hoje me ignoram
Como se fosse fatalidade
As palavras que digo
Mero acaso do gosto
Sinto-me vazio
Conhecimento sem vazão

A experiência é pouca
Quero ser mestre um dia
Ainda sou mistura
Dos meus desejos
E do que conquistei
Isso ninguém me tira

Estou apenas tentando
Passar adiante minha cultura
O seu desdém faz parte
A platéia tem seus direitos
Mas não desqualifique
Se me arrisco no discurso
Falo daquilo que sei

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Um Lugar Melhor”

Eu sempre abdiquei o porquê das palavras. Sentia e me parecia tudo. Também sempre soube ser um dom, um encontro permitido aos meus ouvidos. Talvez somente agora posso aceitar, entender e assumir a grandiosidade da poesia. Posso fazer do mundo um lugar melhor. Pode ser um canto, uma vírgula, um quase nada, mas posso. Não é algo que se abdica sem consequências para alma. Nosso talento é o sinal mais claro da nossa busca nessa vida. Ele tem que permear todas nossas atitudes, toda nossa essência. Viver significa ser tudo que se pode, sem restrições a nossa alma. Tantas vezes somos conformados a nossa realidade que o potencial vira segundo plano. Permanecemos a caminhar incompletos. Não, a vida é mais. Não sei quais são minhas chances, jamais saberei ao certo os resultados, mas tenho a palavra e farei dela o melhor que puder, eu apenas te peço que me ouça.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Aparências”

Parecer pode ser muita coisa
Imagens sem controle
Uma frase sem pensar
Uma palavra sem contexto
Até gestos despretensiosos
Há um código secreto
Que liga símbolos e significados
Que é individual

Logo é fácil parecer
Eu não vou te impedir
O que sou não é momento
Mas pode ser tudo que temos
Então dê o seu melhor
Crie suas verdades
É provável que se iluda
Mas é possível que me conheça

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O invisível”

Há muito menos destino
E muito mais ações
Dando as cartas nessa vida
Mas não posso ignorar
Os impulsos da alma

Caminhar se torna tão banal
A paisagem quase nem afeta
Nem mesmo as transgressões
Tantas vezes queria levantar a voz
Motivos não nos faltam
Mas a palavra sim

Há remorso em certos silêncios
A frase nunca dita fica
Enraizada se repete
A vontade cega de ter mais uma chance
Responder à altura
A troco de quê?

Do mesmo jeito que calo
Outras vezes falei
Algumas exatamente o que queria
Não há diferenças
A revolta é a mesma
Há uma dose do desconhecido

A palavra hesitou
Salvou minha vida
A fraca resposta
Serviu de aviso
E as vezes a verdade nua
Se fez necessária

Algo sobrepõe nossos atos
É raro, mas acontece
Talvez demore a consciência
Devemos muito a este “improvável”
Consequência é mais que retrucar
É tudo que se leva para alma

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Acuso”

Eu sinto que meu sonhar é extremamente perigoso. Sonhar não é acreditar, ele lhe dá o futuro como certo. A conquista pode se afastar da realidade em mais maneiras que a palavra pode se tornar silêncio. Aqui, do outro lado do sonho frustrado, nosso coração até se une com a razão para enxergar além da dor. O motivo da queda pode parecer obscuro, mas geralmente remete ao espírito com que entrou na batalha. É difícil dizer, mas os ceticismos me levaram mais longe, o cru, o inegável, os olhos sempre abertos. Não nego o sorriso que vem com o idealizado mundo de amanhã, mas que não passe disso. O vício da esperança pode se tornar uma expectativa real demais. Incapaz de permanecer no agora, fiquei desarmado na luta. Todo mundo sente o golpe. Nada é insignificante para alma. Não posso olhar para o lado, fui eu. Desvirtuei a fé, o desejo e a realidade sem encontrar saída e a última me trouxe de volta em uma única palavra. E o mesmo sonho te faz se sentir pouco, ínfimo, aquém. É perigoso sonhar longe do travesseiro. Colocar sentimentos antes dos fatos. Todo sentimento pode virar dor. Fui ridículo ao imaginar acima, melhor do que a chance, e essa me fechou a porta. Pois agora é meu sonho que vai aguardar, a realidade é feita de pedras sobre pedras e eu ainda tenho muito o que levantar aqui dentro.
Ass: Danilo Mendonça Martinho

“A última estação” (25/07/2013)

Que frio é esse que chega até os ossos. Logo eu que me armei contra as injúrias, levantei muralhas contra as mágoas, usei as palavras como escudo da alma serei acometido pela precariedade do corpo? Estarei a mercê de um bruto inverno que desconsidera minha existência e vem sobrepor o mundo com outro destino, outra realidade? E todo caminho para enobrecer a vida, todos cavalheirismos, toda educação, conquistas, imagem social, onde ficarão se não apenas isoladas neste sótão olhando pela janela em dúvida se pedem ajuda ou perdão. Se o tempo é assim escasso que valor poderia inserir neste contexto que ainda valesse a procura. Divago talvez tarde demais para fazer qualquer bem, mas sempre há tempo de revoltar-se. Já que de nada adiantou manter o espírito puro da tradicional selvageria dos sentimentos humanos, quero antes de tudo e do mais nada, renunciar-me. Há muito adio tal decisão, mas não mais preciso desta ilusão construída pelo seu olhar, muito menos de ideais que não me pertencem. Terminarei neste canto de cômodo como aqui cheguei, desnudo de princípios, de planos e de certezas. Sou natural como a estação que me bate a porta, com ciclo de vida, habitat e alimentação definida. Tudo que já pensei desconsidera essa minha essência. Fazer, construir, falar, rir, são passatempos capazes de nos distrair de nosso propósito. Não deixei filho algum, não perpetuarei nome, nem espécie. Agora me vejo indeciso se algumas dessas duas coisas me entristece. Todo animal tem um bando, todo bando tem seu inútil, por que não sê-lo? Inverno canalha me pondo contra a parede, vamos, apague minha lareira, encha de neve a minha porta, minha loucura está aposta para que possa levar tudo menos quem sou, a você não devo nada além do corpo, aos outros nem mesmo isso. Então vamos ficar neste acordo de cavalheiros, você leva o corpo que restou, sem custo, e eles levam tudo aquilo que já não sou, abdiquei ser, e me deixam a olhar o sol, a chuva e a neve nesta janela que escolhi para eternidade.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Dois”

O sol nasce por trás de outro corpo
O sorriso ainda é um resquício do ontem
A memória de ter deitado ao seu lado

O cheiro da casa se mistura
Um pão na chapa outro mergulhado no leite
As nossas desavenças são assim em detalhes

Meus quadros enfeitam a sala
Teus livros ganham a prateleira
Nós construímos este lar

É a escolha do programa de TV
Pensar no que fazer para janta
Rotinas que precisam da companhia certa

O silêncio que não desespera
O colo que sempre conforta
Somos portos de nossas almas

Tudo que faz disso mundano
Tudo que faz disso único
É tudo que quero para sempre

Ass: Danilo Mendonça Martinho